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domingo, 16 de maio de 2010

Quatorze contos de réis

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1. Quebra-cabeça

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Ela ruiu por completo, mas aos poucos foi se remontando, como num quebra-cabeça. No fim, faltava uma peça: justo a que a levara à ruína.

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2. O traidor

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Toda palavra sua era medida, exata. Os gestos, enfáticos e convincentes. Só o coração destoava, batucando descompassado o desvario a caminho.

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3. Como convém

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Sobrevoou a cordilheira movediça dos automóveis. Qual deles o catapultara, não sabia – como convém aos atropelados que têm morte instantânea.

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4. Meteorologia

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Olhar pela janela o céu azul causou-lhe um bem estar profundo. Porém, breve. Sua mulher continuava nublada, sujeita a chuvas e trovoadas.

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5. Hierarquia

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O canoeiro viu uma pedra que falava. Tratou de embarcá-la e levar para casa. Mas a canoa virou – no rio, que falava mais alto que a pedra.

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6. Silêncio injusto

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Ele justificou-se, chorando; caiu de joelhos, suplicando perdão. Mas ela se foi, sem dizer nada, sem sequer aplaudir o seu ótimo desempenho.

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7. Inseparáveis

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Cresciam juntos, amigos inseparáveis. Aos 3 anos, o menino montou-o pela primeira vez: “Vamos, mano!” E o potro disparou, sumindo no mundo.

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8. Mau caráter sem jaça

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Transgressões, cometeu todas. Crimes, só os vantajosos. Morte, uma única – e a contra-gosto: bem que tentou burlar a derradeira lei da vida.

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9. Notícia boa

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Ele vinha muito deprimido há tempos. Liguei-lhe, e sua mulher, exultante, deu-me a notícia boa: “Está ótimo, hoje até gritou comigo!”

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10. Auto-escultura

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Na lida da extração de cimento preenchia, no ritmo da respiração, o estofo do próprio busto – com a concretude da silicose pulmonar.

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11. Sorte

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Certa manhã, Gregor Samsa poderia ter acordado e se visto metamorfoseado num monstruoso inseto. Por sorte, haviam dedetizado a casa.

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O fim do mundo

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12. O mundo vai acabar em breve , leu no jornal, às gargalhadas. “Eles falseiam todo dia o ontem, que dirá o amanhã.”

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13. Beleza e dor

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Em cada cova, três grãos de milho e um brilhante roubado. O milharal vicejou bonito, mas muita minhoca sofreu para descomer as pedras.

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14. À mercê dos ventos

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Exausta de tanto caminhar, sentou-se à beira do caminho, à mercê dos ventos que, pouco a pouco, a levariam de volta ao nada de onde partira.

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Leia mais 13 contos de réis aqui, 12 aqui e 11 aqui.

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sexta-feira, 7 de maio de 2010

Treze contos de réis

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1. Água-viva

Miúda e tímida, chegava e nem era percebida. Que a

molestassem, porém, por intento ou descuido, para ver o quanto

ardia tanta transparência.

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2. Tarde demais

Concluiu que a vida é para ser vivida, mas tarde demais: não tinha onde sepultar o enorme cadáver do nada que vivera até então.

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3. Feia e azarada

Era uma lagartixa tão feia que só conseguiu seduzir um sapo. Que logo estragou tudo, virando príncipe.

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4. O Fim da espera

Cansou de esperar. Por qualquer coisa, até mesmo pelo sinal abrir. Então abandonou o carro e foi, calmamente, a pé para casa.

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5. Queira Deus

Na casa dos espelhos, já não sabia qual das mil imagens do filho era ele. Catou quantas pode e saiu. “Queira Deus que uma dessas seja ele.”

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6. De verdade

Um cara inteligente, sensível e verdadeiro. Assim se via, até descobrir que a única mulher que amou de verdade era uma grande mentira.

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7. O olho

É cega de um olho, mas isso não me incomoda, não.

O problema é o outro, que enxerga demais.

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8. Guardados inúteis

Nem lembrava mais o que havia no baú. “Se nunca precisei de nada, ele vai é pro lixo.” Foi preso, tão-logo acharam a ossada da ex-mulher.”

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9. Perguntas

Por que tenho de trabalhar? Para que ter casa, mulher, filhos? Tais perguntas nunca mais se fez, desde que, há muito, saiu a andar por aí.

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10. O intermediário

Amava-o ainda, não tivera ninguém depois. Quando ele quis voltar, ela disse não. Acostumara-se a falar para as paredes, sem intermediário.

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11. Anão gigante

.“Dou o que você quiser, Diabo, para me tornar grandão”, disse o anão. Agora tem 2 metros de altura, mas reclama muito de fazer xixi sentado.

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12. O terço final

Um terço da vida a juntar retalhos; mais um terço, a emendá-los. Com a colcha pronta, cobriu-se toda, emendando o terço final na eternidade.

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13. Trocas

Trocou os patins pela bicicleta, a bicicleta pelo carro,

o carro pelo barco a remo. Remaria para alto-mar,

já de olho num submarino.

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Leia mais contos de réis: 12 aqui e 11 aqui.

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Agoras atávicos e vindouros

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Sou um saudosista... não pelo que vivi, mas pelos
agoras – do amanhã e de antes de eu ter nascido






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Tenho saudade dos becos estreitos e sinuosos de Barcelona, com seu piso irregular de pedras de todas as idades e suas meigas prostitutas que, devido à falta de espaço, passariam por mim, completamente bêbado, a se roçarem sem nojo e até com aquele prazer verdadeiro às vezes gerado pela sedução profissional – que haveria de gerar também o dia em que eu me submeteria ao suplício de viver 1O, 12, sei lá quantas infinitas horas lá nas nuvens, empacotado no trambolho avoante que me levaria à força até lá, se não me batesse o desespero - de passar tanto tempo longe do chão e sem fumar - que me levará, isto sim, a quebrar uma janelinha qualquer da estrovenga e pular em alto mar para voltar, a bordo de um galeão corsário, ao meu Rio mais amado, este no qual:

Flano pelo velho Centro, já com os dias contados pelas obras que logo virão por decreto do Presidente Rodrigues Alves, e sob o comando desse prefeitinho dele, o irrequieto Chico Pereira Passos. Cruzo o Largo da Mãe do Bispo e sigo para o Largo da Carioca, ladeando o casario oitocentista condenado para a construção do tal Teatro Municipal. À rua que inaugurarão bem aqui, decerto vão dar um nome como Princesa Isabel, Joaquim Nabuco, 13 de Maio ou qualquer outro que recompense com sobras o bando de pretos forros miseráveis que serão despejados a bofetes desses cortiços que vão abaixo. Mas se esburacarem demais o largo para as obras do novo colosso cênico, vou logo avisando: algum gaiato, carioca típico, vai logo rebatizá-lo de Cu da Mãe do Bispo...

Agora, estou passando em frente ao bom e velho Teatro Lírico. Me pergunto: para que outro teatro se um dia ele será também posto abaixo como velharia, tal qual logo farão com o Lírico e, não demora muito, também com o São Pedro, assim que lhe arranjarem outro incêndio, dessa vez para queimar qualquer lembrança imperial? Se interessa saber, afirmo que não duvido nada se, para acabar com a moda, bem ao gosto de D. João e seus Pedros, de botar nome de santo em teatro, o rebatizarem homenageando alguma diva catita e voluptuosa... Não, delírio romântico meu; imagine se os republicanos têm colhões para isso; o mais provável é que o homenageado seja algum divo gorducho e cansado. João Caetano, por exemplo.

E já avisto o casario do Largo da Carioca, igualmente condenado, a maior parte para dar lugar ao Hotel Avenida, que será também o ponto final das linhas de bondes da Companhia do Jardim Botânico, dona do futuro belo prédio. Mas não dou mais do que cinco décadas para arrasarem o hotel e a deliciosa galeria Cruzeiro que funcionará em seu andar térreo. Afinal, o local já hoje é perfeito para nele plantarem um desses arranha-céus tenebrosos tão em voga em Nova Iorque.

Antes de adentrar o Largo da Carioca, paro em frente ao prédio da Imprensa Oficial e bato continência, contrito, jornalista engajado que sou aos ditames do poder constituído. Cruzo o largo apertando o passo, para poupar meus ouvidos do coro de araras que fazem, à esquerda, no longo tanque do chafariz que recebe as águas vindas das nascentes do rio Carioca, as lavadeiras com seus cantos de trabalho quase incompreensíveis, uma algaravia que mistura um português já meio manco com dialetos africanos. Penso em tomar um chocolate quente no Café da Ordem, na esquina com a Rua da Carioca, mas então me lembro: hoje tem função no Clube Bethoveen, lá na Praia da Glória. Entre as atrações lítero-musicais, Bilac declamando sonetos intragáveis de uma sua protegida, e uma francesa metida a cantora e atriz esganiçando umas árias de Caetano de Mattos Souza, padre baiano que nem botar música na pauta sabe. Mas as duas raparigas não são de se jogar fora, é o que garante o Afonso Henrique, um jovem escritor que já privou de licenciosas intimidades com ambas. Aliás, falando no Afonso, a grande atração da tarde será mesmo a reaproximação, por mim promovida, entre ele e o Machado. Este, bem mais velho e sem paciência, está mais ressabiado; diz que Afonso Henrique é um moleque sarcástico e maledicente. O outro não tem tanta queixa, só reclama que Machado de Assis fede a chouriço rançoso.

E vamos logo à tertúlia, decido. Mas quando dou meia volta e armo o primeiro passo para retomar a caminhada, o que tenho abaixo do pé direito armado e diante de meus olhos, estupefatos, é a Lagoa de Santo Antônio! E de toda a paisagem urbana do largo só resta, no alto, à direita, o Convento do dito santo e, do lado de lá da lagoa, um pequeno casebre, mais ou menos onde futuramente será erguido o prédio do Liceu de Artes e Ofícios. Pouco importa, não tenho medo de água nem pressa. Caminho lentamente lagoa a dentro em direção à Gloria, mesmo sabendo que terei de aguardar muitas décadas até que a urbanizem, de modo que os sobrados geminados onde funcionarão o Clube Bethoveen e o Hotel Suíço possam ser construídos e, principalmente, o moço Afonso Henrique e o velho Machado nasçam e cresçam até terem idade e papo condizentes com saraus lítero-musicais.

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