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sábado, 17 de dezembro de 2011

A pulcra bugra



Pauta para um papo com Heleno Álvarez e Paulinho Saturnino    .

.  .  .  ..  .  .  Campos de Carvalho e Ionesco visitam Botero, doente
 
Walter – Afinal, aonde estamos indo?
Eugène – Em frente, eu acho. É o que sugere o caminho, mais estreito a cada passo.
Fernando – Pois eu vejo tudo bem largo.
Walter – Então, pare de rodopiar.
Fernando – Não estou rodopiando!
Walter – Comece.
Eugène – Sinto dizer, Fernando. Está tudo largo porque você está voltando.
Fernando – Como, se estamos seguindo na mesma direção?
Eugène – Quem disse? Eu nunca sigo na mesma direção de outra pessoa.
Walter – Não sigo na mesma direção nem de mim mesmo.
Eugène – A minha sombra, eu tento seguir. Às vezes, consigo.
Walter – Quer trocar? A minha não se dá comigo. Se o sol está à frente, ela também está. Se o sol está atrás, ela pára, senta-se e só se dispõe a prosseguir quando ele nos alcança.
Eugène – Sombras são seres problemáticos. Têm dificuldade em aceitar que todos os outros seres, vivos ou inanimados, são meras projeções delas mesmas.
Fernando – A mulher mais gorda que já vi foi também, por alguns minutos, a mais linda e desejável. Eu já estava me apaixonando quando notei, horrorizado, que sua sombra era esquálida... só pele e osso!
Walter – Meu avô passou 22 anos anos sem sair da cama porque esquecera a sombra na casa da amante e não queria que minha avó descobrisse.
Fernando – E por que saiu?
Walter – Ciúmes.
Eugène – Epa! O que sua avó aprontou?
Walter – Morreu.
Fernando – Seu avô teve ciúmes da falecida?
Eugène – As pessoas morrem, mas boa parte do que sentimos por elas sobrevive.
Walter – Certos sentimentos que temos pelos mortos sobrevivem até a nós mesmos!
Fernando Quem morrer verá!
Eugène – Isso só vale pra você, Fernando. Walter e eu já vemos há tempos o que não pode ser visto pelos vivos.
Walter – Me tira dessa. Só morre quem nasce por acaso. Eu, que nasci por vontade própria, viverei pela eternidade. De castigo, para pagar por essa escolha estúpida.
Fernando – Olhem, vem vindo um grupo de pessoas lá longe!
Walter – Não são pessoas, são sombras.
Eugène – Como sabe? A essa distância, podem ser também pessoas, árvores balançando ao vento...
Fernando – Rinocerontes!
Walter – Nada disso. Conheço bem essas sombras... essas sete sombras!
Eugène – Será que alguma delas é a do seu avô?
Walter – Todas. .
Fernando – Todas?!
Eugène – Pra quem não tinha nem uma, seu avô prosperou um bocado...
Fernando – Ele se dá bem com elas?
Walter – Desde que morreu, sim.
Fernando – Se ele morreu, o que essas sombras fazem agora?
Eugène –  Não estariam seguindo algum sentimento dele que sobreviveu?
Walter – Na mosca, Eugène! As sombras seguem o ciúme do meu avô. O tal ciúme que ele sentiu quando minha avó morreu.
Fernando – E como você sabe disso?
Walter – Eu estava no quarto do casal, conversando com meu avô sem sombra, quando as sombras entraram para avisar que minha avó havia acabado de morrer na cozinha. Choravam muito, todas as sete
Eugène – Sete sombras. De sete homens...
Walter – Sim. Os sete homens com que minha avó se envolveu durante o tempo em que meu avô se isolou dela e do mundo para encobrir sua falta de sombra.
Fernando – Bem, se as sete sombras seguem o ciúme do seu avô, presumo que os sete homens já tenham morrido, certo?
Walter – Errado. Estão todos vivinhos da silva.
Eugène – Mas sem suas sombras, seqüestradas pelo avô ciumento.´
Fernando – Assombroso!
Walter – Sem sombra de dúvida!

,   .  . Isso foi apenas um aperitivo de “Os Rinocerontes - 2ª Manada”, que só poderei postar na próxima 2ª feira.
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quinta-feira, 3 de junho de 2010

A lua vem da Ásia

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Capítulo I (Novamente)

Campos de Carvalho. .


. . . . . ..Razão tinha eu de suspeitar. Dissipou-se afinal a cortina de fumaça que encobria em parte o mistério deste hotel internacional em que me jogaram há mais de vinte anos. Não estamos num hotel, e sim num tenebroso campo de concentração, com tortura e tudo, a julgar pela que me infligiram ontem.

. . . . . . . Levaram-me, logo pela manhã, a uma câmara de gás onde havia uma cadeira elétrica (que logo constatei ser uma cama e não uma cadeira) e na qual sem dúvida pretendiam extorquir-me algum segredo de Estado, de que sou portador mas sinceramente ignoro qual seja. Fizeram-me deitar nessa pseudo-cama, inteiramente nu e amarrado --- com toda uma equipe de guardas ao lado, disfarçados de enfermeiros --- e puseram-me na cabeça uma espécie de capacete de aço (um pouco mais confortável, sem dúvida) do qual saía ostensivamente um par de fios elétricos.

. . . . . . . Não me deram chance nenhuma de defesa, pois nada me perguntaram nem responderam a nenhuma das minhas perguntas, como se o meu caso já fosse um caso perdido e que tribunal nenhum pudesse mais apreciar. Atado como estava, e amordaçado como um cão raivoso, vi perfeitamente quando ligaram uma chave elétrica que se achava bem junto à porta de entrada e senti a morte despedaçar-se de encontro à minha cabeça, como se um bólide houvesse caído do espaço e fosse escolher justamente o meu crânio para campo de pouso. Não direi que gritei, mesmo porque não me sobrou tempo nem lucidez para isso --- mas o que afirmo é que me transformei instantaneamente num cadáver e me senti mais frio do que um cubo de gelo jogado na gaveta de uma morgue. Vez por outra um pálido reflexo de consciência assomava à minha cabeça imobilizada, e eu divisava o teto a uma distância infinita e ouvia disparatadas as vozes de meus algozes, como num quadro surrealista ou numa cena de grand-guignol; num segundo, porém, tudo se apagava de novo e eu voltava à minha condição de cadáver congelado, ao choque brutal de uma bomba que me estourava os miolos.

. . . . . Quando voltei a mim, após a ressurreição da carne, eu me encontrava deitado e imóvel no meio da minha cama, sem outro pensamento que não fosse o de respirar profundamente e de escutar bater o meu próprio coração, tão espantosas me pareciam essas coisas tão simples, mas que são em verdade espantosas e dignas da maior consideração.

. . . . . Agora pergunto: que querem de mim, realmente, esses senhores e essas senhoras que até ontem eu tomava por gerentes e criados de um hotel de luxo, embora estranhando sempre o regime severo de vigilância a que estava, como todos os demais hóspedes, sujeito dia e noite, e até mesmo durante o sono? Que segredo importantíssimo é esse que querem arrancar-me à força, lançando mão inclusive das mais terríveis ameaças, como essa extrema da cadeira elétrica, sem julgamento prévio e sem conforto ao menos de um confessor?

. . . . . (...)

. . . . . Estaremos porventura numa nova Inquisição, ou será a mesma antiga que nunca deixou de existir e que só agora, pela primeira vez, se fez sentir em toda a sua plenitude sobre meu peito cansado e meu olhar triste, por motivos que desconheço e que aos outros parecerão óbvios? (Serei tão herege assim, eu que nem sequer nunca pensei em criar um deus à minha imagem e semelhança e em adorá-lo como se adora um senhor todo-poderoso, com subserviente hipocrisia?) Ou será que efetivamente sou um agente secreto de alguma potência estrangeira --- tão secreto que eu mesmo não sei --- e, dotado de dupla personalidade, esteja no momento posando de santo, até que eles me provem o contrário e me lancem com a minha verdade em pleno rosto? Tudo é possível neste mundo de infinitas surpresas, e o que me resta, como a eles, é apenas aguardar que os acontecimentos se sucedam por si mesmos e que eu venha a revelar um dia, por bem ou por mal, meu terrível segredo, ou --- o que será mais triste --- minha desesperada inocência.

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¬¬ ¬¬¬ ¬¬


Terceiro dos seis romances escritos por Campos de Carvalho, A lua vem da Ásia foi lançado em 1956.

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Leia mais textos dele no marcador que leva seu nome. Leia também a “entrevista” que fiz com ele no 12º aniversário de sua não-morte, aqui.

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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Heleno Álvares, Campos de Carvalho e o escambau

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Deus que me falou:/ “Não creio em mim: sou ateu./ O autor que me criou/ foi o extraordinário/ Imaginário Humano.”

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Heleno Álvares

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. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . Hoje acordei

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . como se fosse a manhã

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . de quando chorei

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . ao ser desventrado

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . do verdadeiro e harmonioso

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . vasto mundo.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . Por isso, hoje,

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . renasci do ventre diário,

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . onde há vastidão

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . de terrenos ilusórios

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . que, por questão

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . de coerência,

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . se fazem contraditórios,

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . e me autorizam a dizer

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . algo sobre o vivido.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . A vida, desde quando havida,

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . é como comida bem temperada:

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . por melhor que seja já foi

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . (e sempre será) defecada.

.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . .. .. . . . . . . . . . . . (...)

.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . Estava. Estarei

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . Assim vivia e viverei

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . até quando não mais puder

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . conjugar verbo algum.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . O que interessa é que

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . permaneço sempre no futuro

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . daquilo que já fiz, como

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . agora que, escrevendo, já

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . escrevi, feito gota no mar da

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . imaginação, ininterruptamente

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . outra, a se recriar em

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . momentos futuros como se

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . fossem eternos agoras.

.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . .. .. . . . . . . . . . . . (...)

.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . Então digo:

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . meus eus póstumos

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . é que me fazem

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . ser o próximo

.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . .. .. . . . . . . . . . . . (...)

.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . Viver é uma doença que,

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . infelizmente,

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . se cura. Neste vilarejo,

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . a loucura é sob medida.

.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . .. .. . . . . . . . . . . . (...)

.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . Neste lugar que me nasceu

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . aprendi todos os instrumentos

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . com os melhores músicos do

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . mundo; estudei com os grandes

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . mestres da literatura.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . No entanto, sempre “ouço”

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . obras-primas que jamais

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . comporei; “escrevo” poemas que

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . nunca versarei;

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . contos que não contarei.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . Dou palpites nas direções

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . cinematográficas de Buñuel,

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . nas telas de Salvador Dali

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . e nos poemas de Breton.

.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . .. .. . . . . . . . . . . . (...)

.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . Ao lado de Jorge Luis Borges

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . conheci O Aleph;

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . junto com Campos de Carvalho,

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . visitei sua Bulgária;

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . com Manuel Bandeira,

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . a sua Pasárgada.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . Fui amante da índia Catuíra

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . da Tribo dos Araxás,

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . que se casou com Maú

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . que, por sua vez,

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . traiu o amigo Iboapi

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . que, enciumado, traiu toda a

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . tribo que foi dizimada pelo

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . forasteiro Pamplona.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . E como não tinha nada

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . a ver com a história,

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . criei a minha

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . quadrilha drummondiana.

.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . .. .. . . . . . . . . . . . (...)

.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . o personagem que me criou

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . encontrou seu mosaico

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . por ser ele um fragmento

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . de sua própria existência

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . onde se cata os cacos

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . que somos

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . a criatura é que se atura

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . é que se procria

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . desenhando a caricatura

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . do autor sem autoria

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . agora que voltarei à mesmice

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . de meu mosaico encontrarei

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . a falta de um outro

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . eu-fragmento motivo

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . que apenas adia o dia

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . de nossa utópica existência

.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . .. .. . . . . . . . . . . . (...)

.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . Deus que me falou:

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . “Não creio em mim: sou ateu.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . O autor que me criou

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . foi o extraordinário

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . Imaginário Humano.”

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . E o mais curioso: o Diabo

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . também disse a mesma coisa.

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . Num bate-papo com Jesus

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . em um boteco copo-sujo

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . este me disse que

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . a vida só vale a pena

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . quando cada um

. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . .. . . tem sua Madalena.

.

.. . .. . . . . . . . . . . . . . . .. . . .. . . . . . . . . .. .. . . . . . .. ... .. . . . . .. . . ¬¬ ¬¬¬ ¬¬

. . . . .

Estes trechos de poemas, eu os catei nos originais de O escambau, novo livro do Heleno. Ele é meu amigo há milênios, embora só tenhamos nos conhecido e convivido como personagens de O concerto no ovo, romance que nosso mestre Campos de Carvalho planejou mas não chegou a escrever – ainda!

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O escambau será lançado na próxima quarta-feira, 5 de maio, a partir das 19h30, em Araxá - MG, num local cujo nome se perdeu no meu redemoinho de e-mails. Mas não tem problema: é só chegar na cidade e cantar a senha: “Escambau!”

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