Jaguarão fica no extremo sul do Brasil, quase no Uruguai. O nome da cidade deve-se à existência de um animal que habita os esconsos mais sombrios do inconsciente dos habitantes da região: uma onça, ou jaguar, enorme feito um boi.
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É dos dois – de Jaguarão e dos esconsos sombrios do inconsciente – que vem o texto a seguir. Seu autor, Antonio Carlos Marques, meu tocaio (como lá se tratam os xarás), tem sete livros publicados e muitos outros na gaveta. Falarei mais sobre o escritor em mais dois posts em seqüência a este, nos quais incluirei também outros textos seus.
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O relógio parou*
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1 . . . . . O relógio parou: síncope do fim ou início do silêncio.
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2 . . . . . O relógio parou: aviso da decadência ou início da música.
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3 . . . . . O relógio parou: corda quebrada ou vida atormentada?
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4 . . . . . Estacionado no meio da rua, com perigos envolventes, o relógio parou seu matraquear da contagem sob medida recomendada.
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5 . . . . . O carro que passou por cima da figura imobilizada era a carruagem do tempo que corre por acima dos relógios que contam.
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6 . . . . . O vento da passagem tirou-lhe a pintura e a compostura.
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7 . . . . . Os cascos da condução tiraram-lhe a vestimenta e encomendaram-lhe o caixão.
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8 . . . . . O sino do alarme do despertador já não entoava o ruído do início da sofreguidão.
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9 . . . . . As cordas espalhadas pelos cascos são os tristes velocímetros do repouso. Seus emaranhados são as vísceras das mortas entranhas atiradas ao pó dos caminhos.
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10. . . . . Esse relógio abatido é o fim do sentido. Sentido do aprumo e da viagem. Sentido da elegância e da voltagem: se não tocardes o hino das boas realizações, não despertareis nas cordas dos Preciosos Embalos das Horas Que não Acabam Nunca.
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Eu, O Despertador.
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* Publicado