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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Homenagem à própria alma

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Homenagem

                        Juan Eduardo Cirlot
      
Homenagem à montanha de Ormuzd,
        de onde descem à terra as águas!
   Homenagem a minha própria alma!
                                  ZEND-AVESTA
           

Minha alma é a janela onde eu morro.
Minha alma é uma dança algemada.

Minha alma é uma paisagem com paredes.
Minha alma é um jardim ensanguentado.

Minha alma é um deserto sob a névoa.
Minha alma é uma orquestra de topázios.

Minha alma é uma roda que não para.
Minha alma são meus lábios que se abrem.

Minha alma é uma torre em uma praia.
Minha alma é um rebanho de tormentos.

Minha alma é uma nuvem que vai longe.
Minha alma é a minha dor, minha, p'ra sempre.

Minha alma é o laranja azul que queima.
Minha alma é uma pomba sem pombal.

Minha alma é um barco de regresso.
Minha alma é um colar de vidro e pranto.

Minha alma é essa sede que me devora.
Minha alma é uma corrida desolada.

Minha alma é esse ouro em que floresço.
Minha alma é a paisagem que me olha.

Minha alma é esse pássaro que treme.
Minha alma é um oceano de sangue.

Minha alma é uma virgem que me abraça.
Minha alma são seus seios como estrelas.

Minha alma é uma paisagem com colunas.
Minha alma é um incêndio onde neva.

Minha alma é esse mundo em que moro.
Minha alma é um longo grito ante o abismo.

Minha alma é esse canto ajoelhado.
Minha alma é uma noite e tem um rio.

Minha alma é uma amêndoa de ouro branco.
Minha alma é uma nascente apaixonada.

Minha alma é cada instante em que morre.
Minha alma é a cidade das cidades.

Minha alma é um rumor de acácias rosas.
Minha alma é um moinho transparente.

Minha alma é esse êxtase que canta
golpeado por armas infinitas.

(Tradução, quase literal, de Tuca Zamagna.)

         O original

Homenage
                                     ¡Homenaje a la montaña de Ormuzd,
                             de donde descienden las aguas a la tierra!
                                                ¡Homenaje a mi propia alma!
                                                                    
                                                                        ZEND-AVESTA

Mi alma es la ventana donde muero.
Mi alma es una danza maniatada.
         
Mi alma es un paisaje con murallas.
Mi alma es un jardín ensangrentado.

Mi alma es un desierto entre la niebla.
Mi alma es una orquesta de topacios.

Mi alma es una rueda sin reposo.
Mi alma son mis labios que se abren.

Mi alma es una torre en una playa.
Mi alma es un rebaño de suplicios.

Mi alma es una nube que se aleja.
Mi alma es mi dolor, mío, por siempre.

Mi alma es el naranjo azul que arde.
Mi alma es la paloma enajenada.

Mi alma es una barca que regresa.
Mi alma es un collar de vidrio y llanto.

Mi alma es esta sed que me devora.
Mi alma es una raza desolada.

Mi alma es este oro en que florezco.
Mi alma es el paisaje que me mira.

Mi alma es este pájaro que tiembla.
Mi alma es un océano de sangre.

Mi alma es una virgen que me abraza.
Mi alma son sus pechos como astros.

Mi alma es un paisaje con columnas.
Mi alma es un incendio donde nieva.

Mi alma es este mundo en que resido.
Mi alma es un gran grito ante el abismo.

Mi alma es este canto arrodillado.
Mi alma es un nocturno y hay un río.

Mi alma es un almendro de oro blanco.
Mi alma es una fuente enamorada.

Mi alma es cada instante cuando muere.
Mi alma es la ciudad de las ciudades.

Mi alma es un rumor de acacias rosas.
Mi alma es un molino transparente.

Mi alma es este éxtasis que canta
golpeado por armas infinitas.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

A menina dos ovos de ouro

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 Para Carla Diacov e Larca Vódica  .  .  .  .

Saiu apressada da casca,
bem antes da mãe findar o choco
e do pai cacarejar seus advérbios,
a menina.

Já engatinhava sem meias palavras
e ciscava com os joelhos a terra
e o mar e o céu e o tudo e o caos,
a menina.

“Nunca que vou botar um ovo
branquelo ou beje ou avermelhado” – –   
decidiu. – –  “Ovos meus serão todos
de ouro, ouro do bom, sem impureza
que não seja clorofila, cedilhas e
borboletas bêbadas xingando a mãe
dos órfãos” – –  ô tinhosa, a menina!

E saiu ela pelas ruas a catar
moedas e pauzinhos de picolé,
conchas e guimbas de cigarro,
tartarugas, cobras e lagartos,
hidrantes, clipes e astrolábios,
meninos a empinar carros-pipas,
freiras plantando bananeira
e pensamentos libidinosos
na peruca de corocas e carecas – –
agora, sim, prontinha para botar
                                            toneladas de ovos de ouro..

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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Pequenas iguarias pelo chão

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Fiophélio Nonato* . .
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(…)  Meu padrinho Celurives, que me criou desde a gênese da minha não-vida, não gostava que eu brincasse com bichinhos na terra do quintal lá de casa, não. Sabia que eu gostava de comê-los, principalmente os besouros e os pequenos caracóis, irresistíveis na sua maciez crocante. Aprendi desde muito cedo, por volta dos 10 meses de idade, quando já sabia engatinhar com desenvoltura, que essas iguarias têm hábitos, tiques e manias como os seres humanos. As joaninhas, por exemplo, se você demorar a mastigá-las, escapam para o céu da boca e nele se aferram com tal empenho que fica impossível removê-las com a língua. Se você, no entanto, ali deixá-las por alguns minutos, a ansiedade acaba por traí-las: cientes da gravidade da situação, começam a circular por toda a sua boca, pisando mais forte com o par de patas traseiro e emitindo estrilos – perceptíveis tão-somente pelo aguçado tato da mucosa humana –, como se a discutir a melhor estratégia para enfrentar o perigo iminente de morte. Já os caracóis, normalmente lerdos no caminhar, tornam-se lépidos dentro da boca humana, deslizando em alta velocidade pelas pirambeiras da língua, a tirar partido da mistura de saliva com sua própria baba de molusco: e assim esquiam tranqüilos e sorridentes, alheios à visão dos dentes que irão triturá-los.
A par dessa minha preferência por coleópteros e pequenos moluscos com casca, nunca rejeitei outros serezinhos que a terra me oferecia, nem mesmo as lacraias e escorpiões. Sabendo agarrá-los, de modo a evitar e depois extrair o perigoso ferrão, são frutos muito prazerosos: o gosto acre e rançoso logo é suplantado pelo agradável entorpecimento da língua que decorre do vazamento do veneno, inofensivo sem a ação da ferroada. No entanto, há que se conter a gula, posto que dois ou mais indivíduos dessas espécies peçonhentas, se embocados ao mesmo tempo, são capazes de planejar e executar em segundos uma vingança terrível: secretam uma enzima que transforma seu algoz em vítima de uma diarréia das mais dolorosas. Tal substância, a Ciência ainda não foi capaz de detectá-la, uma vez que é produzida apenas nesta exata ocasião: quando eles estão à beira da morte no cadafalso bucal de um ser humano. .(…)

*em Autobiografia de Um que Nunca Nasceu. . . .
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Ilustração: página de croquis dos Diários de Jean-Christof, cedida pelo blog Hélio Jesuíno & Cia.Ltda., com a anuência da Fundação Mano Cruz.

sábado, 23 de junho de 2012

Paisagem com dois túmulos e um cão assírio

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .. . . . . . . . . . . . . . . . . .  Federico Garcia Lorca

. . . . . . . . . . . .  Amigo,
. . . . . . . . . . . .  Levanta-te para que ouças a uivar
. . . . . . . . . . . .  O cão assírio.
. . . . . . . . . . . .  As três ninfas do câncer estiveram bailando,  
. . . . . . . . . . . .  meu filho
. . . . . . . . . . . .  Trouxeram umas montanhas de lacre vermelho
. . . . . . . . . . . .  e uns lençóis duros onde estava o câncer 
. . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . .  . . adormecido.
. . . . . . . . . . . .  O cavalo tinha um olho no pescoço
. . . . . . . . . . . .  e a lua estava num céu tão frio
. . . . . . . . . . . .  que teve de rasgar o seu monte de Vênus
. . . . . . . . . . . .  e afogar em sangue e cinza os cemitérios antigos.
. . . . . . . . . . . .  Amigo,
. . . . . . . . . . . .  Desperta, que os montes ainda não respiram
. . . . . . . . . . . .  e as ervas de meu coração estão em outro sítio.
. . . . . . . . . . . .  Não importa que estejas cheio de água do mar.
. . . . . . . . . . . .  Amei por muito tempo um menino
. . . . . . . . . . . .  que tinha uma peninha na língua
. . . . . . . . . . . .  e vivemos cem anos dentro de uma faca.
. . . . . . . . . . . .  Desperta. Cala. Escuta. Ergue-te um pouco.
. . . . . . . . . . . .  O uivo
. . . . . . . . . . . .  é uma longa língua arroxeada que abandona
. . . . . . . . . . . .  formigas de espanto e licor de lírios.
. . . . . . . . . . . .  Já se aproxima da rocha. Não alongue suas raízes!
. . . . . . . . . . . .  Chega perto. Geme. Não soluces em sonho, amigo.
. . . . . . . . . . . .  Amigo!
. . . . . . . . . . . .  Levanta-te para que ouças uivar
. . . . . . . . . . . .  o cão assírio.
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quarta-feira, 28 de março de 2012

Rinocerontes - 2ª manada



Em dezembro, postei uma manada de 12 rinocerontes criados por diversos amigos pintores, chargistas, caricaturistas e por mim, para comemorar o 102º aniversário do teatrólogo e romancista Eugéne Ionesco, cuja obra mais conhecida no Brasil é a peça Rinoceronte. Fiquei devendo uma continuação, com os trabalhos que na ocasião não pude postar por excesso de peso: 25 paquidermes é dose pra carreta – e o Blogger é um burro-sem-rabo. 
Acabei deixando a postagem da 2ª manada para hoje, 28 de março, quando Ionesco completa sua maioridade como defunto: 18 aninhos bem morridos e pouco lembrados – o que seria um absurdo, não fosse ele um dos expoentes, ao lado de Samuel Beckett, do chamado Teatro do Absurdo. Aqui vão mais 13 rinocerontes, ilustrados por textos absurdamente realistas.


Tetrarrinus, o rinoceronte brasileiro
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   Desenhista anônimo. . . . . . . . . .  . .  .  . . .

 O Tetrarrinus foi avistado e desenhado pelo naturalista polonês Jean-Cristof Zamenhof, durante a expedição científica que empreendeu pelo Alto-Oiapoque no início da década de 1890. A página faz parte do diário da expedição e o fac-simile nos foi enviado pela FB Editorial, que detém os direitos de publicação do que resta do diário e da tese de doutorado sobre ele, de autoria do pesquisador Modesto Leal.
Ocorre que recebemos também, do autor da tese, cópia de desenho anônimo que ele diz ser a prova de que tal página do diário foi falsificada pela FB Editorial. O pesquisador informa ainda que Jean-Cristof era esquizofrênico, tendo anotado, “sem desenhar”, a visão de um rinoceronte, durante a travessia da Ilha de Marajó. “Parece-me evidente – diz Leal – que o cientista delirou ao avistar algum búfalo da ilha.”
(Ambos os desenhos são, na realidade, do recém-falecido artista plástico Hélio Jesuíno, com quem eu vinha desenvolvendo a história dessa expedição fantástica. Ele chegou a fazer algumas páginas com vários desenhos a bico de pena “de Jean-Cristof” e a postá-las em seu blog: heliojesuino.wordpress.com/ ).

 
Súbito como uma interjeição
 .
 Hermé.. . . . ....... .  . .
  
Conheço o Hermé de nomes (ele tem vários) há tempos. Agora, nos reencontramos no feicebuque e já começamos a entabular grandes planos. O primeiro deles é bastante ousado, um desafio e tanto, mas temos fé que será possível realizá-lo nos próximos 20 ou 30 anos: nos sentarmos num boteco pra beber cerveja com nosso grande amigo comum, o Hélio Jesuíno.
Hermé teve intensa participação nesta postagem, com dicas enigmáticas e críticas codificadas sobre questões que nada tinham a ver com o assunto. Tudo, graças a sua gentileza rara e também à profunda ignorância que vem acumulando sobre rinocerontes desde a Páscoa de 2002, quando encontrou, por acaso, uma pequena manada deles dançando minueto na sala de espera de seu psiquiatra.
– Eles conseguem voar sem bater as asas, já reparou, doutor?
– Os rinocerontes, Hermé???
– Não. Os aviões.


O Carroceronte
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Jorge Eduardo. . . . ...... .

 Isso é só um esboço, o embrião de um projeto. Mas quando o Jorge Eduardo terminar de pintar, ele e seus pincéis-de-condão de hiperrealizar... o motor vai roncar – ou melhor, vai bramir, como todo rinoceronte que se preza. Então, embarcaremos nós dois no Carroceronte e ganharemos as ruas, Jorge dando tiro de meta em tudo que é carro murrinha e buzinador, e eu selecionando, para ele catapimbar, certas velhinhas que, chova ou faça sol, saem às ruas com o único objetivo de enfiar as barbatanas da sombrinha no meu olho. Ah, mandaremos essa corja toda à rinogenitora que a pariu. Mandaremos mesmo, sem dó nem cascadura, em defesa da sagrada pátria de havaianas!
--- Aiôôô, Rin-tim!!

 
O Ornitorrinoceronte
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Luiza Nogueira Maciel. . . . ....... .

 A Luiza foi à Austrália para nos trazer esse belo espécime de Ornitorrinoceronte. Ela trouxe também mais três rinos daquele país de animais estranhíssimos, o mais curioso deles um pequeno canguroceronte, com 0,35 quilo de peso. Mas esses só serão postados um de cada vez, nos próximos eventos ionescos anuais do Desinformação Seletiva.


Bronze de argila / Argila de bronze
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Salvador Guilherme Dalí Toledo . . . . . . . .. . . . .. . . .


Guilherme Toledo, meu querido mestre de cerâmica, não pôde participar desta farra rinocerôntica, por problemas particulares. Não pôde? Não podia. Porque esbarrei numa foto desse rinoceronte esculpido por Dalí e, brincando com a imagem, descobri que, na inversão de cores, o bronze azinhavrado “virava” terracota. Na brincadeira não podiam faltar os piões de Mestre Gui, alguns tão grandes que ele precisa recorrer à queima em forno de cerâmica industrial. O maior deles (por enquanto!) tem quase 3 metros de circunferência – número superior, provavelmente, ao de neurônios da cliente que o encomendou. Para ter o piãozão em casa, a desvairada senhora precisou fazê-lo entrar pela janela... no 17º andar!

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O Minhoceronte
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 Theopha . . . . . . . .. . . . . . .

Esse exótico rinoceronte foi encontrado, como divulgou amplamente toda a mídia, no jardim de um condomínio de luxo da Barra da Tijuca, país vizinho ao Rio de Janeiro. Foi batizado de Minhoceronte pelo jardineiro que, ao revolver a terra de um canteiro, o encontrou contorcendo-se feliz da vida no meio das minhocas. Zoólogos já descobriram características interessantíssimas sobre a nova espécie, tais como:
1 – O animal é hermafrodita – metade macho, metade fêmea;
2 – A metade fêmea tem a língua bem maior que a da metade macho – e fala, numa língua ainda não identificada;
3 – A metade macho tem orelhas muito menores e não ouve nada do que a metade fêmea diz;
4 – A metade fêmea tem a bossa cervical bem menor, o que levou os cientistas a acreditarem ser ela menos inteligente. Num segundo momento, porém, verificou-se que a bossa não continha o cérebro – e sim o intestino;
5 – A metade macho é mais chifruda;
6 - A prática sexual do minhoceronte resume-se ao beijo, durante o qual o animal assemelha-se a uma grande rosca;
7 – A reprodução, especula-se, dá-se por cissiparidade. Conforme explicou um zoólogo, “o bicho cresce esticando, e com tal intensidade que, a qualquer momento, poderá arrebentar no meio e formar dois novos indivíduos”.


A Lelenocerontenina
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  Lelena Terra . . . . .. ... .. .

A Lelenocerontenina, um dos muitos tipos arbóreos popularmente conhecidos como pé de nuvem, é figurinha fácil nas savanas hipotéticas e nos psicopampas. Como todas as mais de setecentas espécies conhecidas da família Nebuliaceae, distingue-se por apresentar, em vez de folhas, nuvens e, em vez de flores, seres nube-passeantes, que variam conforme a espécie. No quintal, tenho meu pé de nuvem: uma Lelenopódia Mimoesquerdata, cujas nuvens são passeadas por pés esquerdos femininos. É a mais imponente e delicada das nebuliáceas.  O único – e mínimo, irrelevante! – inconveniente é que, quando sua nuvagem amua e cisma de passar muitos dias sem chover, as lelenopódias (a Mimodestrata, igualmente) contaminam uma vasta área em torno de si com um insuportável cheiro de chulé. Eu, porém, que tenho pouco olfato e nenhum guarda-chuva, devo admitir: prefiro mil vezes tal olor às trombas d’água de rinocerontes das lelenoceronteninas.


Flávio facing a beast
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 Fernando Domingues . . .  ..   . .. .. . .
 
Se você achou ruim essa moldura de garrafas, experimente beber o que elas trazem dentro: Underberg, a bebida predileta do Flávio Pinto Vieira, o paquiderme que o Fernando retratou à direita. Dizem que o Flávio morreu e foi para o Inferno, porque não acreditava no Céu. Mentira: ele jamais iria para um lugar no qual, sabidamente, o Underberg evapora. A verdade é que ele voltou para o Egito (onde estivera exilado nos tempos da ditadura), para mumificar-se – com Underberg – e tornar-se um charmoso e imortal hipopótamo.


 Rinocerontem
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 Marcel Zaner. .  .. ..... .  .

O rinocerontem, segundo o Marcel, é um ancestral já extinto do rinoceronte. Tenho cá minhas dúvidas. Para mim, esse animal é simplesmente um produto de orgias, não muito antigas, entre um rinoceronte moderno, uma lagartixa, um pernilongo e o camundongo Mickey.


    Face contra face
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Marcantonio Costa. .  ... . ... .  .

Aos 13 anos, Marcantonio decidiu o que seria quando crescesse: rinoceronte. Pretensioso, como todo adolescente normal, tratou logo de sair por aí testando a vocação especialíssima. Seu alvo preferido: as fêmeas – e a primeira a provar de sua chifrada sedutora foi “tia” Neolinda, a professora de História. Numa prova que constituía-se de uma única questão dissertativa – “O que foi o Tratado de Tordesilhas?” –,  o poeta mais badalado do momento no Baixo-Baixada respondeu em versos, com uma interpretação um tanto pessoal do famoso acordo luso-espanhol. Das cinco quadras de “Pra lá das Tordesilhas, Tiazinha” – em impecáveis redondilhas com rima que br(ilha) soberana do princípio ao fim –, reproduzimos as três centrais (que a primeira é descartável e a quinta, impublicável!): 

O rinoceronte, filha,
No além-fogo da braguilha,
Será tua luz que rebrilha
Em cada tordo, toda ilha

E nas demais maravilhas
Mapeáveis em ti, por milhas,
Dos Andes das panturrilhas
À Amazônia das virilhas,

A levar a cima, em quilha,
Os meus olhos que estribilhas
Com, dos seios, as redondilhas
Que a minha língua dedilha.

Anotação de dona Neolinda na prova: “Nota 9,5. Não dou 10 porque sou ruim em Geografia. Se fosse boa, eu dava.” E esta última frase, sem objetos direto e indireto explícitos, tornou-se a frondosa dúvida que ainda hoje martela e instiga a libido lírica do bardoceronte já feito.

 
Veja a primeira manada, aqui.
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