Este Samba do Avião do Crioulo Doido não vai além desse
verso-título. Creio que por insuficiência de carioquice, pois ele é mineiro, no
máximo mineiroca, tal qual o crioulo doido desbotado aqui. E o avião? Ah, esse
decolou do Maranhão para vir sobrevoar, bem a jato, essa cidade maravilhosa que
as autoridades e a grande mídia – junto com a encagaçada maioria de sua
população – tentam a todo custo difamar, esvaziar e destruir. Não conseguiram,
ainda, de modo que sobrou até bastante para o deleite do avião, que atende pelo
nome de Adriana Araújo (mas se chamá-lo de Pólen Radioativo, nome do seu angar
blogosférico, ele pousa sem reclamar dos buracos na pista).
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A noite em que falei mais do que eu mesmo!
Olha o avião durante um pit
stop para reabastecimento de chope numa adega do Largo do Machado. A foto, eu
a tirei mentalmente no instante em que, ainda no táxi que me levou até o local,
olhei para as mesas e logo pude identificar o aparelho, cuja fuselagem e interior eu fora conhecer
pessoalmente. Não esperava localizá-lo tão rápido, porque passava das 23 horas
e, à noite, não distingo nada a mais de três metros de distância. Só que assim
que cheguei o sorriso do supersônico maranhense espocou numa radioativa polinização,
iluminando tudo e revelando em minúcias a alma de todos – exceto a do
desalmado cavalheiro sentado à primeira mesa à direita.
As não mais de duas horas que ali passamos foram de muita tensão e
ansiedade para mim (levando-me a falar mais do que todos os fregueses e
funcionários da casa juntos!); primeiro, porque fiquei sabendo que o nosso
encontro seria muito breve, e isso sempre me deixa tenso; segundo, porque a
presença daquele sinistro senhor por pouco não me asfixiou de angústia.
Um pneumático e erundino cachorrão
Eis um instantâneo mais aproximado do avião, que aí preparava a aterrissagem em mim, para o nosso primeiro abraço ao vivo. Ana Claudia, sua amiga que aparece na foto anterior,
acho que foi ao banheiro nessa hora. Ou tirar satisfação com o cavalheiro
sinistro, que não parava de nos incomodar. Ô sujeitinho mais inconveniente! Cochichou-me que o Hélio Jesuíno morava a poucos metros dali, mas que de casa não
viria mais, nunca mais:
– No máximo, aparecerá para um chopinho bem rápido, preclaro Tuca. Isso... se eu
me dispuser a providenciar um indulto em caráter especialíssimo.
À Ana Claudia, o ensebado atazanava lembrando que ela deveria
cuidar de não perder o vôo para São Luiz na manhã seguinte, numa evidente e pérfida alusão
ao enterro de sua tia, que se fora naquele dia em circunstâncias trágicas.
– Garçom, conhece esse chato?
– De vez em quando ele dá as caras. Sempre assim, sozinho.
Mas costuma sair daqui acompanhado.
– Mulher?
– Mulher, homem, criança...
– Sabe o que ele faz?
– Tem um freguês, poeta, que o conhece. Disse
que ele é um... acho que um... um pneumático e erundino professor de latir!
– Arrá, eu sabia: um cachorrão!
O agregado
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Marcantonio Costa . . . . . . . . . . . . . . . . .
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .A morte não
é um invasor.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Não é senão um hóspede muito educado,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Fleumático e erudito professor de latim
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Que ocupa o cômodo mais modesto da casa.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Senta-se conosco à mesa,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E com olhos fixos no prato
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sorve a sopa rala, nossa única refeição,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Limpa com cuidado os lábios no guardanapo,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E da mesa retorna ao quarto
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Com um sorriso frugal e de fingida paciência,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . De quem se basta apenas com o antepasto.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Não é senão um hóspede muito educado,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Fleumático e erudito professor de latim
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Que ocupa o cômodo mais modesto da casa.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Senta-se conosco à mesa,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E com olhos fixos no prato
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sorve a sopa rala, nossa única refeição,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Limpa com cuidado os lábios no guardanapo,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E da mesa retorna ao quarto
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Com um sorriso frugal e de fingida paciência,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . De quem se basta apenas com o antepasto.
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O bico de pena é do livro Pecados Imortais, que Hélio Jesuíno escreveu (em parceria com Sérgio Oiticica, entre outros) e ilustrou. Conheça a obra, aqui.
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