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terça-feira, 20 de maio de 2014

Tango


              Para a dadamilongueira Jenny Galdino

Ah, um tango...
Os tangos não envelhecem.
Todo tango já nasce antigo,
antigo como a dor primeira
do primeiro homem que amou,
antigo como o primeiro amor
da mulher que penou para dar
vida ao primeiro homem.
Tango é: um homem / uma mulher
em prova e provação:
a prova da existência de um
na provação pela ausência do outro.
Um homem / uma mulher – sempre,
mesmo quando, aparentemente,
nenhum dos dois está presente.
Porque tango          
também são as marcas do drama:
o amor e o medo nos linhos,
um apelo de unhas na pele,
estilhaços de louça no chão,
a névoa de um palavrão na vidraça,
alguma impressão digital
na lâmina do desenlace.
Tango pode ser
somente eco,
um suspiro de tesão
lento ardente
inútil último
que persiste e violenta
as entranhas do colchão
onde aquela moça prendada e virtuosa
morreu infinitamente só.
Tango pode deixar
transparente cicatriz,
como a que deixa no coração da gente
um grito desvairado
que despenca do sonho para abraçar
o silêncio concreto da calçada.
Tango, à vezes, não passa
de um leve rubor na tua face
causado pelo beijo por tabela
discretamente roubado de ti
pelo mendigo que cata no chão
a guimba do teu cigarro.  
                                                Iriri-ES – janeiro, 1983
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