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quarta-feira, 16 de março de 2011

Gente como agente

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O equilibrista

A música brota dentro dele. Não escolhe hora nem lugar. Vem pronta, com orquestra e coro, e ele a ouve em alta fidelidade, embevecido. Nunca a mesma, sempre inédita. O equilíbrio é indispensável, ante o risco de tropeçar na audição auricular e cair na surda realidade, que estilhaçaria o concerto em milhares de acordes que jamais poderiam ser remontados. Todo cuidado é pouco. Sobretudo agora, quando o entorno sonoro, na sua e nas outras mesas do bar, é uma algaravia de conversas frívolas amplificada pela necessidade geral de sobrepor-se ao bate-estaca da música ambiente.


A maquiadora

As sobrancelhas da Malu Mader, impecáveis na fartura da adolescência. Os olhos da Barbra Streisand, mais lilases que azuis, porém exatos no estrabismo. Os cabelos da Gisele Bündchen, as maçãs da Jennifer Lopez, o queixo da Catherine Deneuve, os lábios da Angelina Jolie, o nariz derradeiro do Michael Jackson.

A cliente paga-lhe uma fortuna, sem reclamar. E deixa o salão excitada, poderosa, pronta para a glória nos picadeiros da maledicência.

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O marceneiro

Fizera todo tipo de móvel em madeira. Com excepcional originalidade e grande aceitação no mercado. Mas era pouco: resolveu largar tudo para investir na criação de uma cadeira que fosse anatômica e visualmente perfeita. E após mais de trinta anos de intenso labor e centenas de projetos abandonados, chegava enfim ao modelo com que tanto sonhara. Concluído o polimento, dá uma única mão de cera e distancia-se de sua obra para melhor admirá-la. Então exclama, comovido:

– Parla!

A cadeira não lhe dá papo. Dá-lhe é uma rasteira, e sai a galope mundo afora.

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