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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

À mesa, as vísceras pútridas de Sampa


Quem já leu aqui no Desinformação Seletiva os poemas e outros textos do Antônio Rebouças Falcão sabe quão difícil – mas prazeroso – é saborear o lirismo acre que ele garimpa nas entranhas da urbe paulistana, cortando sem dó nem concessões toda farsa e hipocrisia que sua solidão feroz fareja. Os três poemas abaixo foram extraídos do seu blog Dilema Paulistano.



                                                                                                                                                 

sábado, 21 de setembro de 2013

Migalhas, ciscos e pó

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Antônio Rebouças Falcão

   .. ... .    Nessa madrugada, a solidão dos galos cujos cantos não receberam respostas.
          O descaminho da formiguinha que se perdeu da linha viva de suas parceiras.
          Os destinos da lima e da banana que, recusadas, vão apodrecer únicas nos cantos das gôndolas.
          O endereço do dente de leite que se perdeu nos ínfimos recônditos do chão.
          A carta de amor nunca enviada que a mocinha esqueceu no ponto de ônibus.
          O lençol branco com monogramas exclusivos, no quarto reservado pelos nubentes que despencaram do céu na noite de ontem.
          O falso documento de identidade de um tal Josias dos Santos, esquecido no banco da praça.
          A última palavra escrita com aquela caneta, atirada ao piso da avenida central.
          O passageiro que desapareceu no aeroporto, sem ter nunca chegado ou partido.
          Um quarto de dicionário que retinha a atenção do mendigo à sombra do oiti.
          O telefonema que, nesse instante, me recusei a atender.

Blogue do autor:  Dilema paulistano  



domingo, 4 de julho de 2010

Dilema & Cia. Ltda.

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Sabedoria

O que sei ninguém sabe. Não sei o que ninguém sabe. Sabem o que não sei. Pensando melhor: o que cada um sabe sabe ninguém. Há um mundo lá fora. Ninguém sabe. Depois, há isso: ninguém. O que é ninguém? Quanta bobagem toma minhas horas infinitas de insônia!

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. . . . .. . O texto e a imagem acima foram extraídos de dois excelentes blogs. O texto, do Dilema Paulistano, do poeta Antônio Rebouças Falcão; a imagem, do Hélio Jesuíno & Cia. Ltda., do artista plástico que “preside a empresa”.

. . . . .. . Eis mais trabalhos da dupla, também selecionados e juntados por mim, à revelia de ambos, que nem se conhecem:

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. . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Inflamável.

. . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Foi só
. . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Então,
. . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Depois do sexto gole,
. . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Que ele me disse:
. . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Deixo-me ser
. . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Pólvora
. . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Para que
. . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Um mero contragosto,
. . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Desses que trazem
. . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Lágrimas legíveis,
. . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Se faça
. . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Súbita chama.


O erro do cavalo

Não quero me comunicar. Por quê? Ora, já me acomodei no silêncio e no devaneio. As pessoas não podem viver só? Quem disse? Entre estão e são, sou mais são. As pessoas nascem só. E são só. O que me acrescenta? Palavras... Narrativas... Ordenações... As suas não me interessam. As ordens são minhas no empurrar as pernas alternadamente. Caminhar. Locomover-me por ato de vontade, minha, única. Montaria pra quê?! À esquerda ou à direita, viro-me; pra frente ou pra trás, desloco-me. Sou o que faço. Sou quem faço. Intransigência? Não! Não espero que me acompanhe. Venha se quiser. Dizer que gostou é seu. Não subo em montaria, nem desço. O que há de andar, ande por sua e própria vontade. Olhar? Olho se quiser, não e fecho os olhos. Ouvir é mais difícil. Som entra, sem perguntar. Interrompê-lo implica perder braços e mãos; e, ainda assim, ouço. No sentido que quiser, a barbárie começa pelo ouvido, no grito. Burros gritam ou usam fones de ouvidos. Berros privados. Contra-silêncio. Por isso é duplo, para ser casado, dependente. Sou mais a sua boca calada. Dorme lá, tem cama e coberta. Sonhe seus sonhos, e não venha me contar no raso da manhã. Cale-se. Enforque-se no próprio espelho. Pense que você não precisaria ter acordado para que eu existisse. Faça silêncio sobre sua sombra opaca. Amanheça só e unicamente nos braços do sol. Só e unicamente. Sou nuvens. Tenho como companhia o vento; você, o vazio de seus ruídos. Quando adormeço, adormeço em franco escuro. Minha noite é sempre a última. Não cabe mais alguém.

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Links:

Dilema Paulistano

Hélio Jesuino & Cia. Ltda.

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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Entralhar as malhadeiras

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Dez bobajadas

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Antonio Rebouças Falcão . . . . . . .

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1. "Entralhar as malhadeiras": significa costurar redes de pesca na Amazônia, mas também dilacerar-se em raiva aqui dentro de mim, sem razão aparente.
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2. Minha cabeça me obedece ou obedeço à minha cabeça? Com essa elucubração, mergulhei para dentro da noite, sem nenhum pingo de sono.
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3. O sonho contado é como queijo que já vem ralado, cuja autenticidade não pode deixar de ser suspeita.

4. A missa certamente é a imaterialidade que se faz rito e verbo, para mais tarde desfazer-se e, novamente, apresentar-se névoa. Na infância, a gente era obrigado a não entender.
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5. Os cachorros têm, sem sombra de dúvida, muitas virtudes; mas um único e letal defeito: latem. Duas vezes com serventia; nas outras, intragável groselha.
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6. Fumar gostosa e distraidamente um cigarro, tendo por retaguarda uma criança tagarela e pau-mandado a dizer "fumar faz mal à saúde" firma-me a convicção de que o repressor nasce reprimido; ou por outra: o torturador nasce torturado.
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7. Quando ouço um "educador", a dois passos de mim, dizer coisas como "há males que vêm pra bem" ou "o pior cego é o que não quer ver", sinto-me honestamente, no mais fundo de mim, um homicida sem culpa e sem pecado.
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8. Uma fervorosa burocrata da educação é uma senhora de 150 anos e quilos, semianalfabeta e claudicante, que senta à mesa e vocifera: "Quero examinar, em papel, a escrituração errada!". Há um outro tipo: chegou da França e ainda não desfez as malas. Vocifera o que soube de orelhada, mas na tela.
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9. Com roupas de ginástica, celular, ipod e sorriso de freira, senta-se cansada e feliz, cheia de autoestima e qualidade de vida. Por que essa gente não morre ou desaparece logo? Seria profilático.
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10. Li em algum lugar algo parecido:
- O que você faz para conservar-se tão jovem e com essa pele de porcelana?
- Bebo gim pouco a pouco e sempre. É o que funciona.

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Texto e ilustração foram extraídos do blog do autor:

Dilema paulistano

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