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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Eu sou neguinha?

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Você alguma vez já se pegou cantando uma música da qual não gosta? Isso acontece muito comigo. Mas esta manhã, meu inconsciente exagerou, e eu acordei cantarolando:

“... eu tava rezando ali completamente/ um crente, uma lente, era uma visão/ totalmente terceiro sexo/ totalmente terceiro mundo, terceiro milênio/ carne nua nua nua nua nua nua nua/ era tão gozado/ era um trio elétrico, era fantasia/ escola de samba na televisão/ cruz no fim do túnel, becos sem saída/ e eu era a saída, melodia, meio-dia dia dia/ era o que dizia:/ Eu sou neguinha? Eu sou neguinha? Eu sou neguinha?...”

Sai pra lá, abacaxi... tomei leite!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Poemas com bula, já!

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A Assis Freitas, António Cabrita,

Marcantonio e tantos outros poetas

que têm a mania de escrever

versos desconhecidos.


. . . . . . . . . . . . . . . . ..Há muito tempo pastava eu aqui à espera

. . . . . . . . . . . . . . . . ..de uma hora para a gente conversar

. . . . . . . . . . . . . . . . ..sobre um tema de grande relevância:

. . . . . . . . . . . . . . . . ..a mania que certos poetas têm

. . . . . . . . . . . . . . . . ..de só escrever versos desconhecidos,

. . . . . . . . . . . . . . . . ..a fim de causar desentendimento

. . . . . . . . . . . . . . . . ..às pessoas mal analfabetizadas.

.

. . . . . . . . . . . . . . . . ..Além disso, essa turma toda emprega

. . . . . . . . . . . . . . . . ..um monte de palavras que ninguém

. . . . . . . . . . . . . . . . ..sabe – só pra complicar ou falar

. . . . . . . . . . . . . . . . ..de coisas que não precisam ser ditas,

. . . . . . . . . . . . . . . . ..pois não fazem a gente se sentir

. . . . . . . . . . . . . . . . ..um passarinho com o coração

. . . . . . . . . . . . . . . . ..cheio de alpiste, uma flor com os óculos

. . . . . . . . . . . . . . . . ..a cintilar de ferroadas de abelhas,

. . . . . . . . . . . . . . . . ..ou uma multidão de estrelas no céu

. . . . . . . . . . . . . . . . ..se amando ardentemente – sem ky,

. . . . . . . . . . . . . . . . ..mas com camisinha à prova de bala.

.

. . . . . . . . . . . . . . . . ..Ora, se querem versejar assim,

. . . . . . . . . . . . . . . . ..tudo esquisito e desumano, lasquem,

. . . . . . . . . . . . . . . . ..depois do fim, ao menos uma bula,

. . . . . . . . . . . . . . . . ..feito a que a gente só lembra de ler

. . . . . . . . . . . . . . . . ..quando já atura o toró do purgante

. . . . . . . . . . . . . . . . ..que tomou... contra uma dor de cabeça!

.

. . . . . . . . . . . . . . . . ..No mais, bem diz, salvo engano, Bilac:

. . . . . . . . . . . . . . . . .. “Mesmo vocábulos de uso comum –

. . . . . . . . . . . . . . . . ..tal como fildras, neiroga, berdúnsculo,

. . . . . . . . . . . . . . . . ..vungarinvongal e estralhimblogênico –

. . . . . . . . . . . . . . . . ..só devem ser aplicados em versos

. . . . . . . . . . . . . . . . ..se a lira mais romântica o exigir,

. . . . . . . . . . . . . . . . ..e com toda possível sutileza,

. . . . . . . . . . . . . . . . ..de modo a que no leitor se inoculem

. . . . . . . . . . . . . . . . ..não por injeção ou xarope amargo,

. . . . . . . . . . . . . . . . ..mas por meio de spray ou supositório.”

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Teopha . . . . . . . .

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sábado, 29 de janeiro de 2011

Eu, o implicanto demento

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Teophanio Lambroso

Tá legal, qualquer dia eu acabo aceitando que se refiram à Dilma como a President
a, em vez de a Presidente. Só não admito é que se diga que sou resistente a mudanças, implicante, ou mesmo ignorante e demente Aos que preferem continuar me definindo assim, peço apenas que passem a usar as formas resistento, implicanto, ignoranto e demento.
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E tratemos de um assunto mais atraento: meu instant
o de paixão crescenta por uma adolescenta muito independenta.
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Não vou entrar nos detalhos da nossa intimidada. Só posso dizer que minha amanta é a única rebenta de um terroristo árabo com uma militanta do Partido Anarquisto Belgo. Espero me tornar seu cônjujo, mas ela está reticenta, pois além de ainda ser estudanta, tem outros pretendentos. Um delos é um ex-assaltanto que hoje dá expediento ora como comercianto ambulanto, ora como pedinto. Meu maior problemo nesso duro embato é que sou fumanto, alcoólatro e impotento, e a jóvena é crenta e sonha ter uma granda prola.
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Um bom-dio, boa-tarda ou boa-noita a todos os meus simpatizantos e simpatizantas!
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Da gaveta emperrada

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . Teophanio Lambroso

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..O pião

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Só tem dentes para o mundo

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..No vasto universo que conta

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Aos seus olhos: aquele umbigo

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Em cujas trevas, lá no fundo,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Jaz um pião tosco, sem monta,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Sombra das sobras do abrigo

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Legado à filha como tumba.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . Fevereiro/99

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Inúmeros

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Tua aritmética de meus sonhos e temores,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Minha geometria de teus ângulos impalpáveis:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Nossa análise combinatória de incógnitas

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Elevadas à máxima potência idealizada

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..E reduzidas ao mínimo múltiplo incomum

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..De uma dízima periódica finita.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . , , , . . . Julho/92

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Pedra

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Atravessa geleiras de meia-tigela,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Desertos chulos (com ar condicionado),

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Rolo compressor que voa e desnivela

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Vento sem ave ou avenca, com seu rabo

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..De petrificar olhos que babam rela,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..De parir paralelepípedo, ao cabo

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. ..Do choco de tanto cascalho que atrela.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Abril/01


Não deixe de responder a nossa nova e edificante enquete, aí no alto e à esquerda da página.!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A palavra mágica

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Ao companheiro Horacio Companheiro

Era uma vez, muito tempo atrás, dois meninos que viviam em lados aparentemente opostos: Luisinho engraxava sapatos, com a graxa que a família de Zezinho fabricava. Um dia, calhou de Zezinho ter seus sapatos engraxados justamente por Luisinho. E Zezinho logo percebeu que Luisinho conversava muito melhor do que engraxava sapatos.

– Onde você estuda, Luizinho?

– Estudar? Não tenho tempo pra isso, não. E você, Zezinho?

– Também larguei os estudos faz tempo. Por falta de tempo também.

– Você engraxa onde?

– Em lugar nenhum. Nunca engraxei sapatos.

– Nunca? E como um menino pode levar a vida sem engraxar sapatos?

– Às custas de vender a graxa que os meninos que engraxam sapatos usam.

– Puxa, Zezinho, então nós somos dois diferentes praticamente iguais!

– E não é que é isso mesmo, Luizinho? Bem que eu percebi que você falava muito melhor do que engraxava sapatos.

Serviço terminado, Luizinho guardou a graxa e a escova na caixa de engraxate, pendurou-a nas costas e saiu caminhando e encompridando a conversa, orgulhoso e envaidecido do brilho dos sapatos de Zezinho, também orgulhoso e envaidecido de merecer a conversa brilhante que estava tendo com Luisinho. Conversa vai, conversa vem, acabaram chegando a uma ladeira que levava a um palácio no qual parecia que dois meninos como eles podiam fazer muita coisa boa juntos, desde que descobrissem, segundo Zezinho, a palavra mágica que abria as portas do palácio.

– Que palavra será essa, companheiro?

– Eureka!

– Eureka?

– Não, Zezinho. Companheiro!

– Companheiro, companheiro?

– Sim. Você descobriu a palavra mágica: companheiro, companheiro!... Veja.

As portas do palácio acabavam de se abrir.

E eles trataram de subir a ladeira, juntos, e entrar no palácio. Lá dentro, fizeram muita coisa boa juntos durante vários anos. Não todas que sonhavam fazer, mas muita, muita coisa boa. Dentre elas, outra descoberta importante: a de que a palavra mágica abria muito mais do que as portas daquele palácio, porque era ela a chave-mestra para abrir as portas de todos os palácios do mundo.

Daqui a pouco, os dois meninos vão deixar o palácio. Descendo a ladeira juntos, deseja Luisinho. Juntos, sim, garante Zezinho, mesmo que um deles não possa fazê-lo de corpo presente. Porque não há palavra nesta vida, nem em outras que porventura existam, companheiro leitor, que possa fechar as portas que ligam dois companheiros de verdade.

W..... ............... M..... ............... W

A história de Luisinho e Zezinho me foi contada pelos olhos desses senhores que aparecem na foto acima. Mas a palavra mágica, eu já a conhecia há mais de 30 anos. Há uns 25, quando o seu poder mágico era reconhecido e respeitado por quase todos os brasileiros, escrevi o texto que está no boxe abaixo. Uma sátira ao seu uso generalizado nos meios sindicais e também entre os integrantes do jovem Partido dos Trabalhadores. Hoje, republico esse texto em homenagem ao companheirismo de Luisinho e Zezinho.

Clique para ampliar.!!!

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