segunda-feira, 2 de julho de 2012

Nem doer nem matar



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. . . . . . .Caio Lispector*

Posso beber champanha
como quem come pereba,
lamber sabão
que nem eu masco mulher.

Posso abrir meu coração
como a champanha,
forçando lentamente a rolha
até que o estampido anuncie
meu sangue todo a jorrar.

Acalmem-se,
não vai doer nem matar
 a mim ou a qualquer outro,
exceto, naturalmente,
os que me criaram e me recriam
dia após dia, noite após noite,
até que a morte virtual,
a grande diva on line,
os anoiteça ou amanheça.


. . . . . . . . . *Autor fraudulento exclusivo deste blog e do Falsidade Ideológica !

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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Pequenas iguarias pelo chão

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Fiophélio Nonato* . .
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(…)  Meu padrinho Celurives, que me criou desde a gênese da minha não-vida, não gostava que eu brincasse com bichinhos na terra do quintal lá de casa, não. Sabia que eu gostava de comê-los, principalmente os besouros e os pequenos caracóis, irresistíveis na sua maciez crocante. Aprendi desde muito cedo, por volta dos 10 meses de idade, quando já sabia engatinhar com desenvoltura, que essas iguarias têm hábitos, tiques e manias como os seres humanos. As joaninhas, por exemplo, se você demorar a mastigá-las, escapam para o céu da boca e nele se aferram com tal empenho que fica impossível removê-las com a língua. Se você, no entanto, ali deixá-las por alguns minutos, a ansiedade acaba por traí-las: cientes da gravidade da situação, começam a circular por toda a sua boca, pisando mais forte com o par de patas traseiro e emitindo estrilos – perceptíveis tão-somente pelo aguçado tato da mucosa humana –, como se a discutir a melhor estratégia para enfrentar o perigo iminente de morte. Já os caracóis, normalmente lerdos no caminhar, tornam-se lépidos dentro da boca humana, deslizando em alta velocidade pelas pirambeiras da língua, a tirar partido da mistura de saliva com sua própria baba de molusco: e assim esquiam tranqüilos e sorridentes, alheios à visão dos dentes que irão triturá-los.
A par dessa minha preferência por coleópteros e pequenos moluscos com casca, nunca rejeitei outros serezinhos que a terra me oferecia, nem mesmo as lacraias e escorpiões. Sabendo agarrá-los, de modo a evitar e depois extrair o perigoso ferrão, são frutos muito prazerosos: o gosto acre e rançoso logo é suplantado pelo agradável entorpecimento da língua que decorre do vazamento do veneno, inofensivo sem a ação da ferroada. No entanto, há que se conter a gula, posto que dois ou mais indivíduos dessas espécies peçonhentas, se embocados ao mesmo tempo, são capazes de planejar e executar em segundos uma vingança terrível: secretam uma enzima que transforma seu algoz em vítima de uma diarréia das mais dolorosas. Tal substância, a Ciência ainda não foi capaz de detectá-la, uma vez que é produzida apenas nesta exata ocasião: quando eles estão à beira da morte no cadafalso bucal de um ser humano. .(…)

*em Autobiografia de Um que Nunca Nasceu. . . .
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Ilustração: página de croquis dos Diários de Jean-Christof, cedida pelo blog Hélio Jesuíno & Cia.Ltda., com a anuência da Fundação Mano Cruz.

sábado, 23 de junho de 2012

Paisagem com dois túmulos e um cão assírio

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .. . . . . . . . . . . . . . . . . .  Federico Garcia Lorca

. . . . . . . . . . . .  Amigo,
. . . . . . . . . . . .  Levanta-te para que ouças a uivar
. . . . . . . . . . . .  O cão assírio.
. . . . . . . . . . . .  As três ninfas do câncer estiveram bailando,  
. . . . . . . . . . . .  meu filho
. . . . . . . . . . . .  Trouxeram umas montanhas de lacre vermelho
. . . . . . . . . . . .  e uns lençóis duros onde estava o câncer 
. . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . .  . . adormecido.
. . . . . . . . . . . .  O cavalo tinha um olho no pescoço
. . . . . . . . . . . .  e a lua estava num céu tão frio
. . . . . . . . . . . .  que teve de rasgar o seu monte de Vênus
. . . . . . . . . . . .  e afogar em sangue e cinza os cemitérios antigos.
. . . . . . . . . . . .  Amigo,
. . . . . . . . . . . .  Desperta, que os montes ainda não respiram
. . . . . . . . . . . .  e as ervas de meu coração estão em outro sítio.
. . . . . . . . . . . .  Não importa que estejas cheio de água do mar.
. . . . . . . . . . . .  Amei por muito tempo um menino
. . . . . . . . . . . .  que tinha uma peninha na língua
. . . . . . . . . . . .  e vivemos cem anos dentro de uma faca.
. . . . . . . . . . . .  Desperta. Cala. Escuta. Ergue-te um pouco.
. . . . . . . . . . . .  O uivo
. . . . . . . . . . . .  é uma longa língua arroxeada que abandona
. . . . . . . . . . . .  formigas de espanto e licor de lírios.
. . . . . . . . . . . .  Já se aproxima da rocha. Não alongue suas raízes!
. . . . . . . . . . . .  Chega perto. Geme. Não soluces em sonho, amigo.
. . . . . . . . . . . .  Amigo!
. . . . . . . . . . . .  Levanta-te para que ouças uivar
. . . . . . . . . . . .  o cão assírio.
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sábado, 26 de maio de 2012

O chamado

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. . . . . . . . . . . . . . . – Mamãe, acabei! 
. . . . . . . . . . . . . . . – Maria – diz o marido, ­– Jesus está chamando.
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sábado, 12 de maio de 2012

House in the tree



O fim do mundo
Fez e aconteceu nos dias que antecediam o fim do mundo. O dia
chegou... e nada! O fim só viria junto com a fatura do cartão de crédito.
Alter-retrato.
Caprichou tanto no traço e na criatividade que alcançou um estilo mais parecido com ele do que ele mesmo.
Matinê..
Ainda menino, viu a vida nos decotes de La Violetera. Desde então,.sonha morrer numa queda de avião no abismo dos seios da Sarita Montiel.

Pasto .
Encantou-se com o canteiro de alface da vizinha. Comprou-o. Sobre ele, espalhou sal, azeite e vinagre. E saiu engatinhando, a pastá-lo.

Cavalo..
Comprou-o a preço de pangaré. Não existe cavalo pangaré, aprendeu com o animal, bom de fox-trote, marcha-rancho e galope à beira-mar.

Desejo.
Um desejo de fazer compras e ir para casa preparar um jantar especial para a sua amada. Mas não tinha um tostão. Nem amada. Nem casa.

.. ..Fraternidade
Vinha tonto, cambaleante. Só não caiu porque abraçou o poste. Um abraço tão fraterno que era impossível dizer qual deles estava mais bêbado.
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... .. Colheita arcaica..
Tirou do baú uma das roupas da bisavó. Vestiu-a e foi à rua flanar, colher galanteios dos moços de fraque e cartola que faziam o footing.

.......Nova galáxia...
Ela cantou, dançou, flutuou... desligada de tudo, só a música pulsando dentro de si, até todo o seu DNA.tricotar-se numa nova galáxia.
....House in the tree
Me Tarzan, you Jane. Our house is in the tree.When the tree was .uma bananeira, nós dávamos banana pra deus e todo o mundo.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O novo messias

. A espera
Várias vezes por dia, ia até a porta ver se ele já vinha. A cada vez, dizia a si mesma: “Bendita fé na vinda daquele que me dirá quem eu sou.”

. .  Guarda-pássaros
Quando chove os passarinhos se abrigam no coração dos puros. Sem dúvida..Mas por que tanto abutre no meu fígado depois de um toró de pinga?.

. . Gazela
Lépida e elegante como toda gazela, percorreu o tempo a pastar gramas que acabariam por esculpir a imobilidade de uma obesidade mórbida.

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 .  Segurança
A. segurança em sua vida era como um teto com goteira sob a qual se põe um.balde. Ia levando, tranquilo, mas de tempos em tempos chutava o balde.


 . Caçula
Caçula de seis filhos homens, era vestido de menina pela mãe. Adulto, afirmou-se como macho, mas na cama exige que todas o tratem de Filhota.

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. .A verdade
Nenhuma crítica que lhe fizessem, nada do que ele próprio pudesse  pensar de si ameaçava a verdade que construíra diante do espelho.


. O beijo
Beijá-lo era o que ela mais desejava na vida. Um dia, enfim, ele lhe concedeu a graça. O beijo em si foi sofrível, mas a pose...


. O diabo
Comer a maçã foi só um pecado – original mas mortal. .O diabo é a imortalidade da voz da serpente, latente em todas as palavras..


. .Enigma conjugal
O velho casal abraçado, a espada atravessada em seus corações. Homicídio? Na arma e por toda a casa só havia impressões digitais dos dois.

 
.. O novo messias
Nasceu um novo messias, li no jornal velho do qual desembrulhei.os.peixes que, neste momento, lá na pia da cozinha, se multiplicam.
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