sexta-feira, 2 de março de 2012

Osso



Caio Julius Caesar*  .  .
Todo osso
me interessa à beça.

Todo osso
é duro, no duro
de roer... roer...
até lascar e provar
que é pouco osso;
no fundo, nenhum
vazio, só o macio
recheio meio
marrom bom-bom.

Todo osso
que se rói não dói:
é pura aventura,
ócio do negócio
de farejá-lo, caçá-lo
através dos séculos
com as presas acesas
para o saque
no qual o au-au,
latino, é latido
em trêfego grego:
“Os-te!... O-oooste!...”

E ele vindo, lindo,
impávido... grávido
de sua alma que me salva.

 
.  .   .   . . .  .  .    . *Também conhecido como Cesinha, é um vira-lata, autor do livro Poemas de um cão sem dono.


GLOSSÁRIO
Trêfego - Manhoso, ardiloso; Oste - Osso, em grego; Impávido - Destemido, sem medo; Glossário - Vocabulário em que se explicam palavras mortas ou agonizantes.
.

13 comentários:

Zélia Guardiano disse...

Show, Tuca!!!
Cachorro da hora, o Caio Julius Caesar!
Gostei demais...
Abraço apertado, amigo!

Marcantonio disse...

Glossário? Hehehe! Uma alternativa para as bulas?

Por acaso foi esse poeta que disse: "No alto dessas pirâmides milhões de ossos nos sustentam"?

A ilustração me lembra o filme "2001, Uma Odisséia no Espaço" aquele lançamento dum osso-nave...

Abração.

Tuca Zamagna disse...

Valeu, Zélia!

Abraço

¬ ¬ ¬ ¬ ¬ ¬ ¬ ¬ ¬ ¬ ¬ ¬ ¬ ¬ ¬ ¬ ¬

Tu é foda, Marco!

Sim, sim e sim!
O glossário eu fiz na época em que escrevi o livro, há seis anos, porque é uma obra infanto-juvenil.Ou seja, para cães de até um ano e pouco. Apenas dei agora, à definição (irônica, é claro) da própria palavra glossário, essa roupagem mórbida.

O osso tem, de fato, esse duplo sentido de sustentação em todo o livro. É tratado por Cesinha como um tema primordial da filosofia. Afinal, a psiquê -- e até a tal da alma -- também tem ossos, embora a ciência humana não o admita, pra não chatear o Dráusio Varela.

E, em função dessa dimensão filosófica do osso, obviamente na ilustração eu o comparei à pedra filosofal, como Stanley Kubric faz no filme.

Abração

Assis Freitas disse...

pra que tanto osso meu deus, pergunta meu coração, porém meus olhos não perguntam nada, e uma osteoporose me consome (com licença poética de drummond),


abraço

Bípede Falante disse...

Gosto da carne perto do osso, mas gosto mais do osso, que me rói e que não roo. Existe eu roo,tu roes, eles roem? Sei lá. Existe osso. Osso de gado, de galinha, ossos e ossos até a gente perder o gosto.
beijoss

Susana Carmo disse...

Mais uma vez deixei um comentário aqui que não entrou. Eu acho que me engasgo com essa sopa de letrinhas. Não me lembro exatamente o que escrevi. Mas havia muitos latidos de aprovação ao osso bem recheado e cósmico do Cesinha. Deu uma fome danada...Canina e sideral!

Beijos

Fred Caju disse...

Demais mesmo, e genial a ideia de por o glossário no glossário!

Tuca Zamagna disse...

Que bom que você sacou o detalhe do glossário, Fred.

Abraço

Mendonça disse...

Esse osso eu venho roendo com prazer há anos. Deus me dê dentes para roê-lo até o fim!
Abração

Nós, Os Cachorros!!! disse...

Sinceramente, não conhecia esse autor.

Varias formas de se interpretar o texto.

Para eu humano uma, mas lhe digo, confirme ia lendo, meus pequenos vieram a minha cabeça, claro!!!!
É como se eles estivessem roendo um osso e me falando o que estavam acatando rs

Abracos

Celinha H disse...

Pego esse osso, ponho na sopa e deixo andar!
Bjs

Marcel Zaner disse...

Sábio Cesinha, que não tem dono e saber latir o que sente. Bom pra cachorro! Abraço

Jenny Paulla disse...

isso sim é um cão dos diabos!