quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Deus e outros contos de réis

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Triângulo isósceles
Carregou a esposa até a casa da outra. “Sua mulher está morta”, disse a amante. “Sim”, assentiu, junto com um tiro na testa dela e, logo, outro na própria fronte.
 
À flor da pele
Podia vestir-se do pés à cabeça que, ao sair à rua, todos a viam completamente nua. Preferia correr pelas matas, em dias assim – de alma à flor da pele.

A maneira
Sabia o que queria. Só não soubera, pensou, pedi-lo da maneira correta. Então mentiu, e deu tudo certo.

 Demanda
“Mais rápido, muito mais rápido” – decidiu. – “Até conseguir escrever na mesma velocidade com que chegam as idéias que jogo fora.”
 
Janela
Chegou à janela: ninguém na rua. Fechou a janela: a multidão dentro de si. Abriu-se, e uma cascata de gente inundou a rua, a cidade, o mundo.

O baque
 Vê a bola rolando pela rua, vê o menino correndo atrás da bola, vê o carro passando. Ouve a freada, fecha os olhos... sente o baque: já não é mais o menino correndo atrás da bola.
 
Altitude
'Elogio não levanta o moral, sucesso não sobe à cabeça, leitura não eleva ninguém: você é que inventa a altura que supõe merecer' – supôs ter lido.

O homem dos sonhos
Cobria-se de sedas, jóias, cosméticos e perfumes, à espera do homem dos seus sonhos. Quando ele enfim surgiu, não viu nada: olhara somente para dentro dela.

Metades
 Ia morder a maçã, mas lembrou-se da mulher que se foi. Meteu-lhe, então, a faca. Bem no meio. Metades tão perfeitas que não pôde comê-las. Uma, epitáfio em versos; a outra, natureza morta.
 
Deus
Um homem maltrapilho, imundo, abatido, pés descalços, vindo em sua direção. Parou tão perto que ela pôde sentir o hálito de fumo, álcool e éter. Tirou algumas moedas da bolsa mas não chegou a oferecê-las, porque ele a afogou num beijo divino. 
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13 comentários:

Fê Iasi disse...

Cada vez mais querendo casar com você!...kkkkkkkk... Bjo!

Acqua disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Analuz disse...

Abatido diante tanta desinformação, olhou-se no espelho, deu-se língua e depois a partiu em sete partes. Pensara antes: "Se fores pequena, sobreviverás."

A gente não devia ler para encontrar algum sentido... mas para perdê-lo pelo caminho.

Beijinho com admiração!

Tania regina Contreiras disse...

Como que não? Há poesia por aqui, sim...E eu, te lendo, dano a pensar. Deus - eu adorei isso!!!

Beijos e também a minha dmiração!

Cris de Souza disse...

Adoro ser surpreendida por suas letras.

Beijão!

Paula: pesponteando disse...

Faz um tempinho que não vnho aqui, mas voltei na hora certa. Pensar uma história em poucas palavras é um estímulo para a criatividade, e neste caso específico com uma dose de reflexiva. Adorei...

bjs

Thiago Thi disse...

O espanto de sempre estes teus microcontos, Tuca! Você devia juntá-los em livro, já pensou nisso?

Bípede Falante disse...

Apocalíptico, Tuca, os deuses, as amantes, as indevidas metades e outros, entre altos e baques, nos colocam em um triângulo com a flor da pele, os homens dos sonhos e as suas palavras, que você é divinamente inspirado e doido :)
beijosss

Marcel Zaner disse...

UAU!!!

Jaime Guimarães disse...

Coitado do menino que corria atrás da bola...é o Gaetaninho? rs

Criativo demais, Tuca! Adorei os contos de réis! Parabéns!

E obrigado pelas palavras lá, naquele "infame" blog rsrs

Abraço!

Andrea de Godoy Neto disse...

Tuca, teus contos de réis valem ouro!

entre à flor da pele, o homem dos sonhos, metades e deus toda uma vida acontece...
Amei!!

(e finalmente consegui postar comentário aqui 0//)
beijoo pra ti

Aline Chaves disse...

Que mulher, por mais sensível e inteligente que seja, já não viveu o pesadelo de encontrar esse "homem dos sonhos"?

Jóias, como sempre, seus contos de réis, Tuca!

Beijo

Americo Gentil disse...

ótimos!
você é imbatível nessas brevíssimas estórias!
abraço