segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A palavra mágica

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Ao companheiro Horacio Companheiro

Era uma vez, muito tempo atrás, dois meninos que viviam em lados aparentemente opostos: Luisinho engraxava sapatos, com a graxa que a família de Zezinho fabricava. Um dia, calhou de Zezinho ter seus sapatos engraxados justamente por Luisinho. E Zezinho logo percebeu que Luisinho conversava muito melhor do que engraxava sapatos.

– Onde você estuda, Luizinho?

– Estudar? Não tenho tempo pra isso, não. E você, Zezinho?

– Também larguei os estudos faz tempo. Por falta de tempo também.

– Você engraxa onde?

– Em lugar nenhum. Nunca engraxei sapatos.

– Nunca? E como um menino pode levar a vida sem engraxar sapatos?

– Às custas de vender a graxa que os meninos que engraxam sapatos usam.

– Puxa, Zezinho, então nós somos dois diferentes praticamente iguais!

– E não é que é isso mesmo, Luizinho? Bem que eu percebi que você falava muito melhor do que engraxava sapatos.

Serviço terminado, Luizinho guardou a graxa e a escova na caixa de engraxate, pendurou-a nas costas e saiu caminhando e encompridando a conversa, orgulhoso e envaidecido do brilho dos sapatos de Zezinho, também orgulhoso e envaidecido de merecer a conversa brilhante que estava tendo com Luisinho. Conversa vai, conversa vem, acabaram chegando a uma ladeira que levava a um palácio no qual parecia que dois meninos como eles podiam fazer muita coisa boa juntos, desde que descobrissem, segundo Zezinho, a palavra mágica que abria as portas do palácio.

– Que palavra será essa, companheiro?

– Eureka!

– Eureka?

– Não, Zezinho. Companheiro!

– Companheiro, companheiro?

– Sim. Você descobriu a palavra mágica: companheiro, companheiro!... Veja.

As portas do palácio acabavam de se abrir.

E eles trataram de subir a ladeira, juntos, e entrar no palácio. Lá dentro, fizeram muita coisa boa juntos durante vários anos. Não todas que sonhavam fazer, mas muita, muita coisa boa. Dentre elas, outra descoberta importante: a de que a palavra mágica abria muito mais do que as portas daquele palácio, porque era ela a chave-mestra para abrir as portas de todos os palácios do mundo.

Daqui a pouco, os dois meninos vão deixar o palácio. Descendo a ladeira juntos, deseja Luisinho. Juntos, sim, garante Zezinho, mesmo que um deles não possa fazê-lo de corpo presente. Porque não há palavra nesta vida, nem em outras que porventura existam, companheiro leitor, que possa fechar as portas que ligam dois companheiros de verdade.

W..... ............... M..... ............... W

A história de Luisinho e Zezinho me foi contada pelos olhos desses senhores que aparecem na foto acima. Mas a palavra mágica, eu já a conhecia há mais de 30 anos. Há uns 25, quando o seu poder mágico era reconhecido e respeitado por quase todos os brasileiros, escrevi o texto que está no boxe abaixo. Uma sátira ao seu uso generalizado nos meios sindicais e também entre os integrantes do jovem Partido dos Trabalhadores. Hoje, republico esse texto em homenagem ao companheirismo de Luisinho e Zezinho.

Clique para ampliar.!!!

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29 comentários:

Thiago Quintella de Mattos disse...

"– Puxa, Zezinho, então nós somos dois diferentes praticamente iguais!"
Aí está a frase que nos resume, a nós humanidade. E tão iguais bem diferente!
Espetacular!

Sergio disse...

que lindo este post....emocionante.... y cuantas verdades... me ha gustado mucho..

Saludos..

SERGIO

Priscilla Marfori... disse...

Aff! Quanto "companherismo" hem! Hehe...
Abraços.

Simone disse...

Que eles largaram os estudos pra trabalhar sim, que são companheiros, sim, mas pergunto:
É ou não é um caminho, para um país que tem um índice de analfabetismo nada companheiro, e onde uma boa lábia e um pouquinho de graxa nos sapatos pode mover montanhas de minérios e cofres muito maiores do que o do Tio Patinhas?.Faltou o Huguinho, ou será Huguinha?

Lelé disse...

Adoro seu blog!

Beijos

meldevespas disse...

Mesmo com realidades tão diferentes, um companheiro é um companheiro em qualquer parte do mundo, é uma ser especial, uma palavra abençoada, um estatuto maior. Aforei este texto, mesmo sem compreender o que está nas entrelinhas desta camaradagem (ou não).
Bonito mesmo.
Beijo

Gi disse...

oh meu querido Tuca!

A palavra "companheiro" já fala por si só. É para todas as horas. As boas e as más. Isso sim é a mais pura e legítima forma de pô-la em prática. Companheiro que é companheiro faz jus à sua condição aqui ou em qualquer lugar do universo (ou até mesmo fora dele).

Lindo post, Tuca!
e-m-o-c-i-o-n-a-n-t-e!

beijos

Ricardo Novais disse...

O texto é belo e tocante, e cheio de luz graciosa.

A sátira é um deleite para qualquer companheiro leitor, companheiro autor.

Um abraço, companheiro Tuca.

Regina Conde disse...

Confesso que sei pouco sobre a vida dos políticos, Tuca. Ouço e leio muita coisa sobre eles, mas sei, pelo baixo grau de confiabilidade da maior parte da mídia à qual eu tenho acesso, que não tenho condições de formar uma opinião segura sobre boa parte deles, nem para o mal nem para o bem. Mas sinto, sinto profundamente que neste caso você tem toda razão. Nesses oito anos de governo do Lula, aprendi a admirar José Alencar, um homem do qual eu não sabia quase nada. E o motivo principal, talvez único, dessa minha admiração é justamente essa relação de companheirismo que ele estabeleceu com o Lula.

Muita força e saúde, companheiro Zé! É o que desejo de coração.

Beijos

Katinha Munguba disse...

Que lindo, companheiro amigo! Grande e fiel companheiro do meu amado companheiro.
Beijos

Ana Agarriberri disse...

Olá! Tem um presentinho pra vocês lá no Molhe-se. Beeejo,beeejo, boa semana.

Renata (impermeável a) disse...

sei lá... achei até poético. Mas, na prática, a realidade nem sempre é tão poética e muitos sentem no "couro" isto...

Jenny Paulla disse...

Companheirismo é uma palavra forte demais pra ser usada em vão.E realmente os olhos deles dizem-nos o que é companheirismo.E isso é lindo.
Só porque às vezes vc me deixa sem palavras não quer dizer que eu não esteja por ai....hahah
Bjos querido!

Sil.. disse...

Companheiro...

Eu ainda insisto em acreditar que exista essa palavra, em toda a sua verdade.
Até mesmo nesse mundo podre da politica.
Mas agora tenho que falar uma coisa, sobre o Zé Guerreiro Alencar:

Independente de politica, eu aprendi a admirar esse homem.
Aprendi que minhas crises tremendas de enxaqueca, são nada, dianta da luta desse homem.
SIM. Ele nunca me viu, eu nunca o vi, ele nem sabe da minha existência (rélis mortal), mas ele me ensinou a lutar, e parar de reclamar da vida.

Salveeeeee Zé. Grande companheiro.



P.S.: Temos, nós do DS, uma proposta para lhe fazer. Tenho certeza de que você vai gostar, mas não vou dizer agora o que é. Ainda não conheço os detalhes do projeto, o Tuca é quem está à frente dele. Depois ele lhe conta. Como você não é curiosa, não tem problema, né?


Eu curiosa? maginaaaaaaa (cof cof cof kkk).

TUCAAAAAAAAAAAAA, VEM CÁ hehehehe

Eu adoro vocês. Juro.
Grandes companheiros!

Márcia Luz disse...

Tuca

Estou chorando...

Um grande abraço

Márcia

Anônimo disse...

Lindo, Tutuca, emocionante! Uma boa e generosa dose de humanismo logo assim de manhã me fez muito bem! grata,amigo, companheiro desta longa(?) e doida jornada.
beijo, maria

lilialvestilo disse...

Impressionante como vir aqui nunca é perda de tempo.. É ganho de vida :)

Tuca Zamagna disse...

Thiago,

É isso aí, companheiro. Sempre é possível chegar ao consenso criativo quando há disposição e boa-vontade.
Abraços

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Sergio,

Obrigado. Andavas sumido, compañero!
Abraços

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Priscilla,

Companheirismo nunca é demais, né?
Beijos

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Simone,

Só é, companheira companheira de tantas andanças pelas veredas do grande sertão da alma brasileira!
Beijos CÂNDIDOS!

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Lelé,

Lelepidóptera companheira que não pára de voar nem de asa quebrada!
Beijos
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Mel,

Conheço bem o companheirismo em questão. As entrelinhas, de fundo político, foram expostas pelos dois e superadas. Posso lhe garantir que o que restou é a quintessência do companheismo.
Beijos

Tuca Zamagna disse...

Gi,

Como é bom ver você por aqui, minha mais recente companheira de muitos e muitos anos!
Sinto que somos um caso de companheirismo à primeira vista.
Ou será que essa sensação já é efeito daquele seu mágico licor caseiro que eu nem provei ainda, companheira?
Beijos

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Ricardo,

É muito especial ouvir isso de você, companheiro santista!
Logo, logo, vou enviar-lhe a trouxa companheiramente colorida da Simone.
Aliás, ela está aqui, ali em cima, entre os companheiros comentadores deste post.
Abraços

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Regina Conde,

Perfeito, irretocável o seu comentário, companheira!
Beijos

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Katinha,

Só não digo que você é a minha companheira mais fofa de Beagá porque seria uma injustiça com meu amado seu amado companheiro!
Beijos
P.S.: Ele continua hibernando, ou já saiu das gaveta de legumes?

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Ana,

Vamos todos lá nos molhar nesse presentinho companheiro, companheira!
Beijos

Tuca Zamagna disse...

Renata,

Na prática, a única realidade poética que conta só é percebida pelos que apostam na utopia, na possibilidade de que a sabedoria vença o preconceito social, essa arma poderosa de dominação das elites, que seduz pobres de espírito que acabam acreditando que um diploma, uma medalha, um título... os torna superiores aos demais. Estes, sim, posso lhe assegurar, nunca foram nem são nem provavelmente jamais serão companheiros - senão da própria soberba, companheira.

Beijos

Tuca Zamagna disse...

..... TRINCA COMPANHEIRÍSSIMA!.....

Jenny,

Você bem sabe o quanto eu fico feliz toda vez que você aparece por aqui, não sabe?

Foi com a presença de pessoas como você que eu aprendi que existe o alto astral virtual, sempre risonha companheira!

Beijos

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Sil,

Você é mais uma que nem a Jenny. Chega sempre aprontando um fuzuê danado, revirando a geladeira atrás de cerveja, derramando da caixinha o meu time de botões, fazendo os meus quadros caírem na gargalhada e se estabacarem no chão.

E como eu gosto disso, companheira!

Quanto à sua impressão sobre o Zé... só reforça a impressão primeira que tive de você - e que já virou certeza faz tempo!

Beijos

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Márcia,

Jenny, Sil e você, assim em seqüência, é overdose de companheirismo.

E chore, chore mesmo, que sei o quanto esse seu choro é nobre, verdadeiro até a raiz de seus fios de Luz!

Depois passo no seu blog pra gente trocar uma lagriminhas carimbadas!

Beijos, companheira!

Tuca Zamagna disse...

Maria,

Que bom que lhe fez bem, querida amiga, companheira desta longa (infinita!) jornada. é bota doisa nisso, que doideira pouca é bobagem!

Beijos

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Lilian,

Muito bom ouvir isso, estilosa companheira!

É recíproco: eu ganho vida também desfilando minha alma balofa e desajeitada pelas passarelas do seu blog.

Estive lá e não comentei. Comento agora: que seja um sucesso a ocupAÇÃO!

Beijos

Ira Buscacio disse...

Tuca,

Deixando de lado a questão política, o que se sobrepõe a qualquer ideal é a amizade e a palavra companheiro, que na minha concepção, se faz maior e vai além...
Cum Panis - aquele que confiamos o suficiente pra sentar a nossa mesa e dividir nossas idéias, vitórias, derrotas ou, simplesmente, um pedaço de pão.
Há nessa relação uma dádiva.
Gostaria de ver as relações mais companheiras, mas,lamentávelmente, o que percebo é a banalização da palavra e do ato.
Belo post, Tuca!

Passa lá no Faces pra gente dividir um pão, companheiro.
Bjsssssssss

Jenny Paulla disse...

tuca,depois veja esse blog.;)
http://politiqueirossemanais.blogspot.com/

Maria Janice disse...

Tu'ca'mpanheiro, fazendo mágica desde menino, é guri? Talento de criação há 25 anos. Adorei.

Amei teu texto! Diferentes, fizeram diferente, e fizeram a diferença. Foi uma bela dupla, sem dúvida, foi com eles que as ações afirmativas finalmente começaram a ganhar vulto. Falta muito, mas alguém precisava começar o que a CF estabeleceu lá em 1988.

Acompanheirada por aqui.
beijo

Elaine Berti disse...

Tuca, ah Tuca, você nem sabe o quanto seu post me emocionou! Que bom seria se todos no mundo conhecessem a força da palavra mágica : companheiros.
Somente com a força do companheirismo somos capazes de crescer, somente com a força de um coração agregador... Tanta coisa eu poderia escrever sobre o quanto me orgulho de usar a palavra mágica: companheiro, o quanto eu gosto dos meus companheiros, e não são poucos não, companheiros de vida, de fossa, de alegria, de idéias, de sonhos, de ilusões, de concretismo, companheiros de alma, meus irmão companheiros blogueiros. Sabe de uma coisa Tuca? a graxa está para o zezinho e o Luzinho assim como sua barba está para mim e vc! ^___^" Grande beijo

Salete Cattae disse...

Sem palavras.Emocionante.

bjs

Tuca Zamagna disse...

CompanheIRA!

É isso aí.

E me aguarde com o pão lá no seu blog. Levarei o circo.

Beijos

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Jenny:

Como você resolve participar de um novo blog e nem me comunica antes?

Fui lá. Tá uma beleza. CORRAM TODOS LÁ, COMPANHEIROS!

O link:
http://politiqueirossemanais.blogspot.com/

Beijo

Tuca Zamagna disse...

Janice:

Menino, o quê! Há 25 anos eu era velho, mas agora já estou na adolescência. E vá se preparando pro que vou aprontar quando chegar à infância!

Beijos

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Elaine, sua companheiruda!

Sei, sim, e bem, o quanto esta postagem lhe emocionou.

E ninguém merece mais que você essa emoção!

Beijos

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Salete:

Sem palavras, também, para lhe agradecer, nova companheira.

Beijos