terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A mulher da minha vida

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"Pode-se ter centenas delas, mas ser, que é
o que conta, só se é por uma única na vida."

¨. . . . . . . .. . . . . . . . . . .. Teophanio Lambroso
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..(epigrafista e, em horas vagas como esta, contista)
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A mulher da minha vida na minha vida entrou quando eu estava parado em frente ao último prédio da Rua Pereira Silva, em Laranjeiras, esperando que dele descesse um pintor microscopista a quem eu havia encomendado um óleo hiper-realista de um singelo cardume de seis ou sete marlins azuis – o qual ele sugeriu pintar num caroço de arroz parboilizado, ao que eu contrapropus (e ele prontamente aceitou): ou nas costas de uma pulga empalhada ou nada feito.

A mulher da minha vida vinha subindo a ladeira, e à medida que se aproximava foi informando à minha vista cansada que:

Era bem morena, mais índia do que branca, mais negra do que índia, mais oriental do que negra, mais árabe do que oriental, mais loura do que qualquer escandinava;

Trajava um vestido branco estampado com pequenos círculos, triângulos, quadrados, trapézios, pentágonos, hexágonos e hipopótamos vermelhos; o modelo era justo, decotado e bem curto, a revelar um pneuzão fofíssimo, seios volumosos, que transcendiam o decote feito massa fermentada extravasando da forma, e coxas frondosas, tão frondosas que entre elas não havia espaço sequer para a passagem de um átomo de vento;

Tinha olhos grandes e amendoados, um verde mentolado e o outro roxo soco; nariz pequeno mas de ventas abanadas, quase abananadas, e ligeiramente arrebitado por dois rebites de alumínio e três de latão; ah, e um amplo sorriso debruçado numa beiçola carnuda e cravejado de todos os dentes da frente exceto dois e meio.

Quando a mulher da minha vida passou bem à minha frente, já era senhora absoluta e absolúvel de todos os meus pensamentos, que se diluíam em encachoeiradas continências pelo lado de dentro não só da testa como de toda a caixa craniana; e alvo de todos os meus desejos, concentrados em ereção flechante a céu aberto, graças, em parte não modesta, modéstia à parte, ao meu extraordinário dom de nunca lembrar de fechar o zíper do porta-flecha.

Ao sair lentamente da minha vida, subindo a ladeira de acesso à favela do Pereirão, bem mais íngreme que a rua, deduzi que a mulher da minha vida tinha uns 30 anos, embora não parecesse menos de 42. Tal dedução não fora instantânea, mas conclusiva, baseada em observação e reflexão profundas, perpetradas durante os vários segundos em que pude acompanhar a ascendente trajetória de vida da mulher da minha vida a caminho de casa. Mais do que a identidade temporal, que pouco ou nada representa, puder avaliar-lhe a alma, aflorada fosca, revestindo toda a extensão da pele de suas pernas, na forma de meias de nylon. E não pense que se tratava de um par de meias de nylon qualquer, pois que era, isto sim, pode pensar, daqueles especialmente ordinários, à venda somente nas piores bancas de camelôs da Central e de outros que tais.

Ó vasta e devotada alma que se sustentava sobre saltos altos caminhando por rua de paralelepípedos e ladeiras esburacadas, a envolver por completo tamanho par de guloseimas, ressalvadas aqui e ali clareiras dos mais diversos tamanhos, pelas quais transbordavam delicadas flores isoladas ou em buquês ou em touceiras ou mesmo em razoáveis pastos; tufos de pétalas, moitas de pétalas, matas de pétalas, supra-sumo petalino de sensualidade a que chamamos, tão feiamente, de celulite. (Com pesar, devo informar, às raras infelizes que não dispõem de ao menos dois generosos bocados de celulite para estofar-me as mãos, que essa espécie de carne pixaim é mais sensual e libidinável que, por exemplo, um empinado e suculento terceiro seio na testa.)

E essa é a história da minha relação com a mulher da minha vida. Nunca chegamos a nos falar, nunca trocamos um olhar, nunca mais a vi. Tudo que dela vim a saber desde então, passados 10 anos, três meses e 12 dias, me foi contando ontem à noite pelo pintor microscopista, a quem levei para restauração meu cardume de marlins azuis danificado por um espirro imprevisto da pulga empalhada. Contou-me ele o que soubera através de sua faxineira, também moradora do Pereirão e quase vizinha da mulher da minha vida. Não sei se falaram a verdade, não sei qual dos dois poderia estar mentindo, mas acrescento agora aos dados pessoais da mulher da minha vida, ainda que como adendo carente de comprovação, o que dele ouvi:

A mulher da minha vida já era mãe de quatro filhos de pais diferentes quando entrou na minha vida. Hoje, aos 25 anos, tem mais sete filhos e dois netinhos de igual procedência, um emprego de caixa de supermercado e 148 quilos.
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5 comentários:

Anônimo disse...

O homem da minha vida era pai de um dos filhos dela. Morreu de bala perdida, dizem as boas línguas, já que andei sabendo, era chefe do tráfico de celulites lá no Pereirão. O problema foi o cara se meter em negócio alheio, trafico de peitos de silicone e dentes de alumínio anodizado. Olho grande.
Sigamos, caro Teophanio, há muito que fazer com os marlins azuis.
Marquesa

Anônimo disse...

Conheço a peça, comi muito.

FHC

Tuca Zamagna disse...

Marquesa. Pelo menos ela teve um filho de alguém com boas referências, né? Quantos aos marlins azuis, lamento informar, foram destroçados junto com a pulga pelo Aurélio, o papagaio do pintor microscopista.

FHC. Comeu muito, porra nenhuma! Dos 11 filhos da moça só oito têm um pé na cozinha.

Coral disse...

Pô que mulher, hein, cara? Não é todo mundo que encontra uma mulher assim, não...

Tuca Zamagna disse...

Não é mesmo não, Coral. Mas o Teopha encontra qualquer uma, seja vagabundando por aí, pelos subterrâneos oficiosos desse país, seja batendo suas nadadeiras arcaicas pelos ares celestiais, infernais da sua imaginação desenfreadamente amoral.