quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Agoras atávicos e vindouros

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Sou um saudosista... não pelo que vivi, mas pelos
agoras – do amanhã e de antes de eu ter nascido






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Tenho saudade dos becos estreitos e sinuosos de Barcelona, com seu piso irregular de pedras de todas as idades e suas meigas prostitutas que, devido à falta de espaço, passariam por mim, completamente bêbado, a se roçarem sem nojo e até com aquele prazer verdadeiro às vezes gerado pela sedução profissional – que haveria de gerar também o dia em que eu me submeteria ao suplício de viver 1O, 12, sei lá quantas infinitas horas lá nas nuvens, empacotado no trambolho avoante que me levaria à força até lá, se não me batesse o desespero - de passar tanto tempo longe do chão e sem fumar - que me levará, isto sim, a quebrar uma janelinha qualquer da estrovenga e pular em alto mar para voltar, a bordo de um galeão corsário, ao meu Rio mais amado, este no qual:

Flano pelo velho Centro, já com os dias contados pelas obras que logo virão por decreto do Presidente Rodrigues Alves, e sob o comando desse prefeitinho dele, o irrequieto Chico Pereira Passos. Cruzo o Largo da Mãe do Bispo e sigo para o Largo da Carioca, ladeando o casario oitocentista condenado para a construção do tal Teatro Municipal. À rua que inaugurarão bem aqui, decerto vão dar um nome como Princesa Isabel, Joaquim Nabuco, 13 de Maio ou qualquer outro que recompense com sobras o bando de pretos forros miseráveis que serão despejados a bofetes desses cortiços que vão abaixo. Mas se esburacarem demais o largo para as obras do novo colosso cênico, vou logo avisando: algum gaiato, carioca típico, vai logo rebatizá-lo de Cu da Mãe do Bispo...

Agora, estou passando em frente ao bom e velho Teatro Lírico. Me pergunto: para que outro teatro se um dia ele será também posto abaixo como velharia, tal qual logo farão com o Lírico e, não demora muito, também com o São Pedro, assim que lhe arranjarem outro incêndio, dessa vez para queimar qualquer lembrança imperial? Se interessa saber, afirmo que não duvido nada se, para acabar com a moda, bem ao gosto de D. João e seus Pedros, de botar nome de santo em teatro, o rebatizarem homenageando alguma diva catita e voluptuosa... Não, delírio romântico meu; imagine se os republicanos têm colhões para isso; o mais provável é que o homenageado seja algum divo gorducho e cansado. João Caetano, por exemplo.

E já avisto o casario do Largo da Carioca, igualmente condenado, a maior parte para dar lugar ao Hotel Avenida, que será também o ponto final das linhas de bondes da Companhia do Jardim Botânico, dona do futuro belo prédio. Mas não dou mais do que cinco décadas para arrasarem o hotel e a deliciosa galeria Cruzeiro que funcionará em seu andar térreo. Afinal, o local já hoje é perfeito para nele plantarem um desses arranha-céus tenebrosos tão em voga em Nova Iorque.

Antes de adentrar o Largo da Carioca, paro em frente ao prédio da Imprensa Oficial e bato continência, contrito, jornalista engajado que sou aos ditames do poder constituído. Cruzo o largo apertando o passo, para poupar meus ouvidos do coro de araras que fazem, à esquerda, no longo tanque do chafariz que recebe as águas vindas das nascentes do rio Carioca, as lavadeiras com seus cantos de trabalho quase incompreensíveis, uma algaravia que mistura um português já meio manco com dialetos africanos. Penso em tomar um chocolate quente no Café da Ordem, na esquina com a Rua da Carioca, mas então me lembro: hoje tem função no Clube Bethoveen, lá na Praia da Glória. Entre as atrações lítero-musicais, Bilac declamando sonetos intragáveis de uma sua protegida, e uma francesa metida a cantora e atriz esganiçando umas árias de Caetano de Mattos Souza, padre baiano que nem botar música na pauta sabe. Mas as duas raparigas não são de se jogar fora, é o que garante o Afonso Henrique, um jovem escritor que já privou de licenciosas intimidades com ambas. Aliás, falando no Afonso, a grande atração da tarde será mesmo a reaproximação, por mim promovida, entre ele e o Machado. Este, bem mais velho e sem paciência, está mais ressabiado; diz que Afonso Henrique é um moleque sarcástico e maledicente. O outro não tem tanta queixa, só reclama que Machado de Assis fede a chouriço rançoso.

E vamos logo à tertúlia, decido. Mas quando dou meia volta e armo o primeiro passo para retomar a caminhada, o que tenho abaixo do pé direito armado e diante de meus olhos, estupefatos, é a Lagoa de Santo Antônio! E de toda a paisagem urbana do largo só resta, no alto, à direita, o Convento do dito santo e, do lado de lá da lagoa, um pequeno casebre, mais ou menos onde futuramente será erguido o prédio do Liceu de Artes e Ofícios. Pouco importa, não tenho medo de água nem pressa. Caminho lentamente lagoa a dentro em direção à Gloria, mesmo sabendo que terei de aguardar muitas décadas até que a urbanizem, de modo que os sobrados geminados onde funcionarão o Clube Bethoveen e o Hotel Suíço possam ser construídos e, principalmente, o moço Afonso Henrique e o velho Machado nasçam e cresçam até terem idade e papo condizentes com saraus lítero-musicais.

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2 comentários:

Coral disse...

Ser humano é..um ser humano..A razão de tanta ..digamos, profundidade? Veja bem:a poesia inundando as linhas de recordações e possibilidades,e, eu, aqui,pragmática, me lembrando do meu avô, que ao voltar de uma "pequena viagem", ao que chamamos, atualmente, de Leblon, declarou à família que não compraria terrenos naquele charco...Ah, os tempos...Sou classe média medianamente baixa, mas sou hexa, rapaz!

Tuca Zamagna disse...

Ainda não terminei essa crônica maluca, Coral. A fiz às pressas, ontem, só para "ilustrar" a bela foto da minha amiga Cla Leal. O beco da foto não fica em Barcelona; talvez em Buenos Aires, onde ela passou uns tempos. Quando concluir a crônica, estarei de volta ao agora de agora, e bem perto do Leblon, frente a frente com a árvore mais tenebrosa já plantada pelo ser humano, minha cara ser humano hexa. Bem, ninguém é perfeito...