quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Solar é a casa da solidão

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Fazer, com o Hélio Jesuíno, algum trocadilho ou outro tipo de associação entre o seu primeiro nome e o astro-rei era garantia de receber uma trauletada firme nos cornos da alma. E o título desta postagem foi gerado justamente a partir de uma  conversa que tivemos, ali pelos idos do século XVIII, na qual cometi a besteira de chamá-lo de “ensolarado amigo”. Hélio não passava de um sujeito tosco e rude para quem não conseguia ou não se interessava em perceber o ser extremamente sensível e generoso que habitava o corpanzil daquele “andarilho quirguiz” – na boa definição de uma amiga anônima que comentou na postagem anterior. Ao conhecê-lo, em 76, cheguei a pensar que estivesse tendo o privilégio de conhecer, em carne e osso, o Derzu Uzala, do filme de Kurosawa que eu vira havia poucas semanas. Não, o privilégio foi maior, muitíssimo maior, como vim a saber em alguns anos: com o “cacique boliviano”, como eu preferia defini-lo – sem jamais dizer a ele! –, caminhei muito mais léguas eletrizantes que as percorridas pelo agrimensor militar russo guiado por Derzu no cinema, no livro e na vida real. Foram praças, avenidas, ruas, ruelas e becos sem fim, sempre à caça de um boteco bem fuleiro que oferecesse toda a nobreza que importava aos nossos olhos e à nossa convivência.

Minha última conversa tête-à-tête com Hélio Jesuíno – que jamais eu poderia imaginar  fosse a derradeira – deu-se no quintalzinho da casa de vila em que ele morava desde que se casou com a Silvia, sua primeira e única mulher, há quase 40 anos. Bebemos cerveja, beliscamos azeitonas, implicamos com a Sílvia que mesmo gripada não parava de arrumar a casa, falamos de nossos projetos em parceria, falamos da vida... e até da morte. Sarcasticamente, é claro. Mesmo assim, lá pelas tantas ele me interrompeu: “Pára, para já, que estão mandando.” Era a voz do eu místico desse ateu à toa que nem eu – botafoguenses os dois, simpatizantes do candomblé, ele bem mais que isso, embora eu não hesite em afirmar que, se há alguma sabedoria real nas religiões mais conhecidas, ela concentra-se praticamente toda nesse culto que os negros trouxeram da África e souberam conservar mesmo sob pancadas pesadas de seus “donos”, fiéis seguidores do deus católico. Oxalá, meu amigo SOLAR, ENSOLARADO e SOL-SEMPRE-NASCENTE, sim! –, Xangô continue contigo.

(Na imagem ao alto, duas das páginas do livro-quadro Em carne e osso”, que fecha a Suíte Iconoclasta, última grande série de trabalhos que Hélio Jesuíno expôs – no salão de exposições da Academia Brasileira de Letras, com irrepreensível curadoria do poeta, historiador e crítico de arte Alexei Bueno, um dos mais abalizados e entusiasmados admiradores de seu trabalho. Na foto encaixada, Hélio aponta seu "santo de cabeça" numa estante do ateliê, conforme se vê por inteiro no vídeo que encerra essa postagem, todo ele sobre a Suíte Iconoclasta, inclusive e sobretudo o "único exemplar" do que chamo, um tanto impropriamente, de livro-quadro, sua obra que mais fundo me toca.)
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . Hoje Há Hélio
. . . . . . . . . . . . . . . . Flávio Braga*
. . . . . . . . . . . . . . . . . . Hoje Há Hélio
. . . . . . . . . . . . . . . . . . entre vãos
. . . . . . . . . . . . . . . . . . Hélio do vão
. . . . . . . . . . . . . . . . . . do piso alaranjado tigrado,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . mascarado, risonho,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . corredoreando por interiores,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . transparente,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . fotográfico,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . pornográfico,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . pornofônico,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . Hélio gás de papos longos,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . lentos esgares antes do dito e feito,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . Hélio índio,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . Silvia ícola

. . . . . . . . . . . . . . . . . . Sob colagens múltiplas
. . . . . . . . . . . . . . . . . . Helio púlpito
. . . . . . . . . . . . . . . . . . PLENÉLIO
. . . . . . . . . . . . . . . . . . porcas jazem carneiros em janeiro,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . dezembro, 28
. . . . . . . . . . . . . . . . . . aqui, dentro do meu coração...
 

*O romancista e teatrólogo Flávio Braga é amigo do Hélio Jesuíno há milênios – embora o artista plástico certamente dissesse que isso é um certo exagero típico de escritores: “Só nos conhecemos há séculos!”


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13 comentários:

Lily disse...

Não vou tentar versos, muito menos poesia, esqueço a prosa que sai sem que eu queira, mesmo que às vezes, eu queira muito, dispenso então a rima. Deixo só para vocês dois, a arte. A delicadeza de duas almas em corpos duros e rudes que mais parecem irmãos gêmeos, de tão semelhantes! Deixo para vocês, essa cor, esse vermelho sangue, esse amor pelo humano, pelo corpo, pela vida. Dispenso minha presença, bastam meus pelos que arrepiam em tamanha grandeza perante meus olhos miúdos... nessa música que embala, num filme que não se esgota em si, um presente deixado, um dos melhores, o corpo em partes, usado, colorido, rasgado, amado, idolatrado. Dispenso minha voz nessa voz que soa forte e firme, o suficiente para acordar todos os anjos do céu e todos os corações que por aqui passarem, que a ouvirem, que a sentirem...

Um abraço, belíssima homenagem!

Suzana/LILY

Tania regina Contreiras disse...

Curiosamente, "conheço" o Hélio Jesuíno já depois da partida, pelo olhar do Tuca...e, como tantas vezes já aconteceu, me pergunto por que passam tantos por aqui que teria valido a pena conhecer e não conhecemos. O post é uma homenagem que, sobretudo, respeita a essência de quem partiu. Que, certamente, o homenageia como ele teria gostado de ser homenageado. E, claro, revela um tanto do Hélio que há no Tuca, do Tuca que havia no Hélio, é lindo, é bem-humorado e tem o lirismo que não escapa a um e certamente não escapava ao outro, desse jeitinho escrachado com que gente especial sabe sentir. Tuca, também bacana sua referência ao culto afro, do quel não sou adepta, mas que me fala de perto, que nasci mergulhada nesse mar baiano. Hélio...onde andas agora? Aqui, falando através dos amigos que não deixam que morram os amigos. Belo post, Tuca!

Beijos,

Jenny Paulla disse...

sensacional,tuquinha.a casa da solidão está ensolarada.

Bípede Falante disse...

Tuca, que amigo bonito você é.
beijosss
BF

Americo Gentil disse...

Estou chocado com a morte desse monstro dos pincéis. Eu já não visitava muito o blog dele, desde que ele passou a postar raramente. Mas em dezembro estive lá, curtindo aquela série Estudos para Piano.

Sinto muito, Tuca, sinto muito mesmo.

Grande abraço

Aline Chaves disse...

Tuca, fui surprendida por essa notícia terrível. Aprendi a admirar e gostar do Hélio Jesuíno através dos muitos trabalhos que vocês fizeram juntos aqui.E também me divertindo com as farpas irreverentes que vocês trocavam nos comentários.

Essa postagem traduz bem a amizade e o temperamento especial de vocês. Belo e comovente também, o poema do Flavio Braga.

Beijos

Flavio Braga disse...

Que bela homenagem, Tutuca. O Hélio era desses criadores que tocava de forma irreversível quem conhecia sua obra. Tudo que possamos fazer para ampliar esse conhecimento será justo. Afinal, artistas sobrevivem por seu trabalho. Saudações ao grande Jesuíno.

Flávio Braga

Flávio Braga disse...

Bela homenagem, Tutuca... O Hélio era desses criadores que tocava profundamente quem conhecia sua obra. Devemos ajudar na divulgação de seu trabalho. Afinal, artistas sobrevivem assim...

amiga disse...
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Amiga disse...

Tuca, esse comentário, não é para ser publicado.

Tuca Zamagna disse...

Não o publicarei, Amiga. Mas preciso, faço questão de respondê-lo:

No seu comentário ao post anterior, confundi você com uma certa amiga minha e do Hélio. Agora sei quem você é: o Hélio me falou muito de você também.

Me surpreende você dizer que eu era o grande amigo dele. Nunca fui. Mas, pensando bem, talvez de uns anos para cá eu tenha mesmo me tornado isso, tanto quanto ele, sem dúvida, se tornou para mim. Porque amizade, afinal, não é só história, mas também geografia: o espaço onde a gente constrói o presente e delineia o futuro.

Quanto ao projeto, eu não sabia que a minha inclusão já estava definida. Um honra... que, infelizmente, já nasce morta. E é mais um dos muitos projetos meus com o Hélio que agora estão órfãos - alguns de mãe, outros de pai, não sei bem.

Uma pena que a gente esteja se conhecendo em circunstâncias tão dolorosas. Que dias melhores venham para nós.

Beijos

MIRZE disse...

Tuca!

Já perdi pai, mãe, filho e um genro jovem que queria o mundo.

Sei que muito maior que todas as dores é a sor da perda de um amigo.

Meu silêncio em respeito à essa linda e real amizade.

Beijos

Mirze

Marcantonio disse...

Quando li a postagem da vez anterior, ainda não tinha o vídeo. Eu falava da técnica mista... Que sedutora liberdade, hein! carnavalizar um atlas.

Vem daqui o belo Colagens, não?


"Colou, em cada entrelinha da enciclopédia, um mistério que enriquece a vida e desmascara a ciência."