segunda-feira, 15 de março de 2010

Salve Paulo Coelho – o legítimo!

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Este senhor que aparece aí na foto – a intrometer o cavanhaque baitolo no desenho que fiz para ele, em comemoração aos nossos 40 anos de amizade – é o único Paulo Coelho que vale à pena ser lido. Porque é o legítimo, o que sabe escrever, cravejado que é de genes garimpados nas mais ricas lavras de magia das Geraes, mormente em Codisburgo, pátria adotiva de uma leva de imigrantes de Saturno, seus antepassados maternos, e feudo do bruxo Guimarães Rosa e seus matutos alquimistas.

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Este Paulo, mais do que Paulo, é Coelho de verdade, como todos os torcedores (ele e mais dois) do América, o glorioso decacampeão mineiro que atualmente chuta bola de meia lá pela décima divisão do futebol boliviano – ou vietnamita, guatemalteco... por ali.

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Ontem, dia 14 de março, este xamã de pedigree completou um ano de vida, a terceira ou quarta que encarna – direto, sem tirar de dentro! Por isso, publico aqui um de seus textos, colhido no Rindo de Nervoso, o blog de sua vida imediatamente anterior. Por isso, também e sobretudo, faço aqui, de público, uma confissão que a ele não fiz (a bruxos lá carece que se fale o que sua audição de raios X capta no eco do oco anímico dos mortais?): a obra da foto não foi uma simples homenagem à nossa longa amizade: bem mais do que isso, foi – e continua sendo – a tradução visual de um apelo candente, desesperado, histérico: “Não ouse morrer, mano véio fedaputa!”

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E vamos, sem mais delongas piegas, ao texto do mestre transcendental:

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De porta em porta

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Paulinho Saturnino Figueiredo
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Aos tantos amigos, alguns
hoje já mortos, que me
carregaram nas escadas dos
bares da vida, e muitas
outras que tais.

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. . . . . . Boteco é assunto transcendente em boca de belorizontino, fizemos da qualidade e da simpatia de nossos botecos uma lenda, e adoramos proclamá-la; mais que isso, nos obrigamos a cultivá-la. Não existe relato de história passada por aqui, na tinta do poeta ou na boca fácil do vulgo, que não inclua seu exemplar: do onisciente Bar do Ponto dos primórdios, aos balcões onde mal cabe um par de cotovelos no Mercado Central dos fígados acebolados; dos copos sujos do baixo e do médio meretrícios, aos incontáveis barzinhos da moda que dão fundo biográfico aos lazeres de nossa classe média. Existem botecos onde o melhor é a conversa, existem outros onde ouvir boa música parece regra, e existem até aqueles onde se encontra paz para partilhar silêncios e testas franzidas, olhares perdidos em copos pela metade.

Diz-se que os que habitam esse território ornado por montanhas feridas precisam de razões relevantes, quase nobres, para não ocuparem, com disciplinada constância, um bom lugar no boteco de escolha. Pensando assim, de sopapo, me ocorreram três dessas razões: falta de dinheiro, crise de desamor pelas surpresas da vida, e barreiras arquitetônicas e urbanísticas, que é a razão que ora mais me interessa. Às duas primeiras razões, com as quais quase todos um dia conviveram, dirijo umas palavrinhas.

Lamento a morte covarde do fiado e do pendura, verdadeiras instituições da convivência cordial que expunham, para constrangimento ou gáudio dos assuntos da freguesia leal, nas cadernetas ensebadas ou nos papeizinhos espetados, depoimentos vivos sobre as penúrias ou as falhas de caráter de algum parceiro de copo. Quem os matou foi a banca, com seus tristes e indispensáveis cartõezinhos de plástico – ¿ débito ou crédito, senhor? –, que transferiram tais assuntos para seus cofres e sigilos inescrutáveis. Da razão ligada ao desamor pela vida, não cabe aqui tratar. Paradoxalmente, é assunto bom para mesa de bar, amainadas a mágoa e a dor.

Mas, sei dessas coisas aí mais por ouvir contar, pois os botecos de aqui, em sua grande maioria, hoje são cruéis com os de minha laia. Já não sei em quantos deles tentei aportar e fui expulso pelas impossibilidades ambientais, rabicho entre as pernas. Andando com muletas até à beira dos 50 anos de idade, numa Beagá amena por boa parte desse tempo, apesar dos percalços pude transitar de modo razoável pelos botecos da cidade. Em especial nas décadas de 1960 e 1970, foi na efervescência de suas mesas que desenhei o principal de minha vida, de meus rumos, e o perfil de meus amigos.

Hoje, regredido para cadeirante há já uns 8 ou 10 anos (11 ou 13, atualiza este blogueiro), no que deveria ser o gozo da aposentadoria, só vi as coisas se complicarem. Os amigos pensam em te convocar, mas sabem que naquele boteco, ou naquele outro do torresmo perfeito, cadeira de rodas não chega, e não entra.

Proponho um raciocínio de ordem capitalista, pragmático (sem fricotes humanitários ou cidadãos, posto que isso parece irritar os donos do negócio e as autoridades concernidas): devagarinho, os deficientes vêm ascedendo às classes consumidoras, por outro lado vemos os velhos rejeitando a morte, e, ao esticar a vida, reabastecendo com freqüência as legiões de deficientes. Estamos sendo empurrados para os shoppings centers e derivados, espaços onde não floresceram botecos de qualidade, talvez por alguma incompatibilidade inata entre o beberico e a conversa mansa, de um lado, e as tsunamis de homens e mulheres ensacolados, e crianças urrando seus mais baixos desejos, de outro.

Pensando bem, o acesso adequado a botecos de bom nível merecia ser tratado como uma questão básica de cidadania, direito inalienável. Ainda comemoraremos essa idéia, então vitoriosa, num boteco de boa bebida, bons petiscos e bons acessos.

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Nota (fúnebre porém edificante) de Teophanio Lambroso:

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Se mudar de idéia, seu pacóvio pajé cadeirento, e resolver empacotar pra valer, tome aí (de graça, garruchão!) o mais singelo dos 150 itens do meu (já à venda!) Catálogo Lambroso de Epitáfios do Caralho!:

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11 comentários:

Clara Belisário disse...

Que zorra do caralho! Me amarrei na história toda, no texto do PAULO COELHO e no seu desenho. O Paulinho é mesmo a cara do bruxo fajuto, mas felizmente, muito mais escritor e gente!

Nino disse...

Caralho, que saudades que bateu de BH. Do Maletta e seus botecos como o Lua Nova, a Cantina do Lucas (com o "seu" Olímpio, o garçom tombado já naquela época - anos 70 - pelo Patrimônio Etílico e Cultural), o desfile das putas saindo para a luta, lá pelas 22h, 23h, diariamente - lindas e inacessíveis para nós, estudantes de pau duro e carteira mole, sem um puto no bolso. Descendo um pouco pela Rua da Bahia, a Gruta Metrópole (será que ainda está lá?)e mais um pouco o universo grandioso cercado pela Serra do Curral vigiando os nossos porres.
Tutuca, BH, hoje, para mim, é um verbete na Wikipedia, mas como dói.

Paulinho Saturnino Figueiredo disse...

Clara, eu não tenho essa cara, é sacanagem do Tutuca, que deu umas photoshopadas e, compassivo que só, deixou minhas feições suportáveis para exibição pública em blogs bem sucedidos.
Nino, lamento informar que o seu Olímpio tombou de vez. Quanto à Gruta Metrópole, a última vez que passei por lá, ela estava firme, cheia de caveiras ébrias que beliscavam etéreos bolinhos de ectoplasma. E, pelo que entrevi naquele meio de madrugada, todos entretidos com o pay-per-view do BBB10.

Mendonça disse...

Vocês, Tuca,Teophanio, Anga e Elza promovem uma desinformação tão pouco seletiva que eu nem sei mais quem existe ou não neste blog. O Paulinho eu achava que existia, agora que virou Paulo Coelho, já não sei. Porque este, eu sei com ceteza, foi inventado pela grande mídia ordinária que manda nesse Brasil.

Paulinho Saturnino Figueiredo disse...

Mendonça, você tem toda razão, eu não existo... ao menos era o que a Katinha, minha mulher, me dizia... isso naqueles tempos bíblicos, onde eu ainda conseguia fazer das noites da coitada algo mais prazeroso e divertido que o festival de roncos babados que ora ofereço.

Vera Andrade disse...

Que beleza de poster, Tuca. Ri muito e também me comovi com a sua apresentação e adorei a elegância e humor da crônica do Paulinho "Coelho" Saturnino. Eu só não vou dizer que ele é mesmo melhor que o outro porque ele não merece essa comparação degradante.
Paulinho transparece sensibilidade e dignidade até pelos olhos encobertos pelos óculos escuros!

Nino disse...

Salve, Paulo! Eu imaginei que o seu Olímpio tivesse mesmo tombado de vez (ele já rivalizava com a Dercy Gonçalves naquela época). E quanto à Gruta Metrópole, pay-per-view do BBB10 é de fuder, né não? Mesmo assim, acredito que ainda existam focos de resistência de autêntica boemia em BH. Saudações.

Nino disse...

Mais uma coisa, Paulo: ainda existem as putas lá no Maletta? Na minha época, eram muitas, lindas, grandiosas, descendo de seus apartamentos e desfilando diariamente em frente ao Lua Nova e à Cantina do Lucas, a partir das 22h ou 23h, rumo à luta, talvez em boates, em termas ou sabe-se lá onde. Abraços.

Wilden Barreiro disse...

Eu também fiquei na dúvida Mendonça, se esse Paulo Coelho turbinado existia ou não. Ainda bem que o próprio veio esclarecer que não existe...

Tuca Zamagna disse...

Valeu, Clara! O Paulinho não é só a cara do seu "genérico" de laboratório fajuto: é a bunda também. Ou era, pois fiquei sabendo que a amarfanhada melhou bastante depois que a Katinha, musa e deusa dele, obrigou-o a submeter-se a um reestofamento de silicone.

Mendonça: segundo o mais recente Inventário Anual dos Bruxos, Alquimistas, Prestidigitadores, Contistas do Vigário e Similares, o "genérico" existe, mas é relacionado apenas nas duas últimas categorias. Já o Paulinho não aparece em nenhuma dessas categorias, embora seu nome conste de uma chamada, no final do Inventário, sob o título "Não perca na próxima edição!"

Paulinho, reponderei a você assim que sua existência for oficialmente confirmada pelo supracitado anuário.

Engano seu, Vera. A "sensibilidade e dignidade que transparecem até pelos olhos encobertos pelos óculos escuros" nada mais são que as lentes de contato que o Paulinho usa desde que ficou surdo.

Nino, não vou me meter nesse papo seu com o bruxo. Não sou chegado à boemia e tudo que sei de putas aprendi na infância, no tempo em que minha mãezinha, dona Celeuma, alugava lá em casa uns quartinhos para moças de fino trato.

Viu, Wilden? Bruxo bão, bão mesmo, não joga para a platéia. Se não existe, assume e fim de papo.

Paulinho Saturnino Figueiredo disse...

Nino, perdão pela emoção incabível, mas, ouvir seu nome, devanear pelo final dos anos 60, é sentir balançar a máscara de revolucionário sob a qual me escondia. Eu prometia aos camaradas a releitura de clássicas edições soviéticas, e me escondia em casa, ligado na Tupi, sofrendo, capítulo após capítulo,com a trama do Geraldo Vietri: Nino, o italianinho. Eu prometia Lenin, e me esfalfava com Juca de Oliveira. Eu prometia Rosa de Luxemburgo, mas sonhava com os carinhos de Aracy Balabanian.
Esse papo, em verdade, me remete ao tema central de sua curiosidade. Nada sei das putas do Maletta, e nem sei se já soube. Havia incompatibilidade entre tal curiosidade e minha gama valorativa de então. Meus relacionamentos íntimos se restringiam à tarefa política de levar alegria e apoio a jovens donzelas militantes, em pleno transe da redescoberta do corpo feminino e da fundação do feminismo. Ah, Nino, afirmo sem floreios, era estafante (só não era estressante porque o estresse ainda não havia sido inventado).
Em tempo: vivíamos, então, uma era de indecisões. Deveria eu, ou não, levar alegria e apoio a jovens músicos e artistas mineiros, em pleno transe da redescoberta do corpo masculino e da multiplicação de gêneros? Infelizmente, por limitações físicas e emocionais, não tive como ser útil a tal salto civilizatório. Longe de mim a perfeição. Lamento não ter sido útil, mas prometo me informar.