quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O bruxo búlgaro de Uberaba

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Os criadores de gado do Triângulo

Mineiro já devem ter lido algo dele


. . . Perguntei a dois conhecidos de Uberaba se conheciam Campos de Carvalho. Disseram que não. Eu disse que ele é o maior escritor da cidade. Espantaram-se. O maior escritor do Triângulo, acrescentei. Espanto maior. Incluindo Uberlândia, provoquei. Sorriram, orgulhosos, já querendo saber o que ele havia escrito. Citei Vaca de nariz sutil. Um disse que achava já ter ouvido falar do livro; o outro garantiu que o pai, fazendeiro muito lido, conhecia: “Ele lê tudo sobre gado.”

. . . Walter Campos de Carvalho imaginava que morreria tão sozinho como quando nasceu. Errou. Ao nascer, na maternidade havia certamente mais gente interessada nele que no seu enterro: dona Lygia, a viúva, precisou pedir algumas mãos emprestadas no velório do lado para carregar o caixão.

. . . Em O púcaro búlgaro, Campos de Carvalho relata, em forma de diário, a criação, a organização e fatos relacionados ou em nada aparentemente relacionados a uma expedição para tentar descobrir se a Bulgária de fato existe. Eis um trecho:

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13 de novembro
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Fui ao psicanalista e ele me fez deitar num divã, sem o paletó, a gravata e os sapatos.

– Está se sentindo confortável?

– Muito. E o senhor?

– Desaperte o cinto.

– Quer dizer que já subimos?

– Limite-se a responder. Feche os olhos, procure concentrar-se.

Fazia um calor dos diabos, e de repente me veio uma vontade louca de urinar.

– Já pensou alguma vez em matar seu pai?

– Muitas. Mas, se o sr. me permite, eu gostaria de ir urinar.

– E sua mãe, já pensou em possuí-la alguma vez?

– Isso nunca; sempre tive namorada firme. Mas eu gostaria de ir urinar.

– Tem irmãos ou irmãs?

– Que eu saiba, não. Assim de momento é meio difícil…

– Gatos? Cachorros?

– Se o sr. não me deixar ir urinar, não respondo – nem respondo pelas conseqüências.

E depois que eu voltei do banheiro:

– Quantos dedos o sr. tem nas mãos? Não, não pode abrir os olhos.

– Dez, até chegar aqui pelo menos.

– Responda depressa: se ponho vinte e duas melancias nas suas mãos e depois tiro cinco e acrescento três, com quantos dedos o senhor fica?

– Vinte. Contando com os dos pés, naturalmente.

– Em que ano estamos?

– 1963.

– Século?

– Vinte.

– Antes de Cristo ou depois de Cristo?

– Que Cristo?

– Não faça perguntas, já disse. O mar é vermelho ou amarelo?

– Depende. No mapa lá de casa, tanto o mar Vermelho quanto o Amarelo são azuis. Da minha janela às vezes ele é cor de abóbora.

– Qual o oceano que dá para a sua janela?

– O Atlântico, isto é pacífico.

– O Atlântico ou o Pacífico?

– Assim o sr. me confunde. Nem eu vim aqui para me submeter a prova de geografia.

O homem foi até a janela e cerrou calmamente as cortinas.

– Agora vai dizer em voz alta, e sem pensar, tudo que lhe vier à cabeça. Relaxe-se o mais que possível e nada de escrúpulo.

– Escrúpulo. Cabeça. O oceano é azul. Que calor está fazendo. A morte de Danton. As metamorfoses de Ovídio. O senhor é uma besta. Com quantos paus se faz uma canoa? Vinte e um, vinte e dois, vinte e três, vinte e quatro. As laranjas da Califórnia são deliciosas. Umbigo. Rapadura. Otorrinolaringologista. É a tua, mulher nua, vou prá lua, jumento, pára-vento, dez por cento, Catão, catatau, catapulta que o pariu, catástrofe, caralho, os medos, os vegas, as vegaminas, as sulfas e as para-sulfas, dimetilaminatetrassulfonatosódico, porra de merda, argentino, argentário, argentículo, testículo, laparotomia, Boris Karloff, Irmãos Karamazov, Irmãos Marx, Marx, Engels, Lenin, Lenita, onomatopéia, onomatopaico, onanista, ovos de Páscoa, jerimum, malacacheta, salsaparrilha, Rzhwpstkj, Celeste Império, semicúpio, Salazar, sai azar, vinte e seis da manhã, Dadá, Dedé, Dodô, Dudu, holofote, oliveira, olá Olavo, Alá, ali, alô sua besta já não basta?…

– Basta.

O sábio agora me olhava atentamente, o lápis suspenso no ar, o bloco de papel com rascunhos sobre o joelho. Sua máscara traía uma grande inquietação, como se temesse alguma coisa ou já começasse a pôr em dúvida a minha sanidade. Até que, simulando uma calma absoluta, arriscou com o ar mais natural deste mundo:

– O senhor já foi à Bulgária?

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5 comentários:

Clara Belisário disse...

Sacanagem com os uberabenses, Tuca. Mas deve ser verdade, Campos de Carvalho é pouco conhecido no Brasil inteiro. Eu mesma só li a Vaca de nariz sutil, mas vou atrás deste Púcaro Búlgaro. Qual outro livro dele você me recomenda?

Carlos Di Jaguarão disse...

Legal, muito louco! Mas esse Campos de Carvalho não será fictício como o Fiofélio e o Falasbu?

Paulinho Saturnino Figueiredo disse...

Ironias do intestino, ou não. O poli-facial e ilétero-erudito Tutuca também, em momentos de distração, pode ser cultura. Belíssima lembrança, infante blogueiro, esse livro é um barataço, acho que tenho um exemplar por aqui...

Lupe disse...

Maravilha, Tuca. Não conhecia nada do Campos de Carvalho. No início pensei que era mais um autor inventado por você. Depois, pelos títulos dos livros, me lembrei que já tinha ouvido falar muito da obra dele.

Tuca Zamagna disse...

Clara, acho que é possível encontrar nos sebos (virtuais, inclusive) os romances "A chuva imóvel" e "A lua vem da Ásia", além de “Cartas de Viagem e Outras Crônicas”, coletânea de suas crônicas no Pasquim. Há também outros dois romances, os primeiros:“Banda Forra” e "Tribo, mas esses ele publicou nos anos 50 e não sei se foram reeditados, junto com os demais, pela José Olímpio, em 90 e poucos. Tem ainda "O Concerto no Ovo” que Campos começou a escrever depois de mais de 20 anos entocado, mas morreu antes de concluí-lo. Ah, ele tem um livro de poemas - "Os sinos de Is" - que escreveu aos 18 anos e nunca quis publicar.

Campos é fictício, sim, Carlos. Mas inventado por um escritor igualmente fictício.

Pois eu tenho dois exemplares do Púcaro, Paulinho. E do Vaca também, sendo que o primeiro eu trouxe daí de Beagá, surrupiado do Murilo em 70 e poucos... Se ele der falta e comentar com você, fique na sua, hem!

Quase que você acerta, Lupe. Eu é que sou inventado pelo Campos de Carvalho.