domingo, 10 de novembro de 2013

Pin-up com soneto

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.         .    ,     , Soneto indignado

.         .    .         .   ,Para Suzaney Guimarãpburn e seu pai

.         .    ,     , Por que partem os pais, me diga, pai?
.         .    ,     , Dez anos, e ainda espero a sua resposta.
.         .    ,     , Partir não era um direito seu, uai!...
.         .    ,     , Não é coisa de quem da gente gosta.

 .         .    ,     , (Sua partida, no Dia desta República –
.         .    ,     , Que marcha... tropeçando no cadarço! –,  
.         .    ,     , Pelo menos foi uma escolha bem lúcida,
.         .    ,     , Para quem nasceu num 31 de março.)
  
.         .    ,     , O que é, quando já não é, o pai da gente?
.         .    ,     , Eu que não creio em céu (nem em inferno)
.         .    ,     , Não tenho onde buscá-lo, pai ausente.

.         .    ,     , Só o que me consola é saber, sentir que
. .         .    ,    ,Perda é passado, e o convivido... eterno:
. .         .    ,   , Você aqui está quanto mais não está aqui.

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                                                                      Imagens fontes


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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Homenagem à própria alma

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Homenagem

                        Juan Eduardo Cirlot
      
Homenagem à montanha de Ormuzd,
        de onde descem à terra as águas!
   Homenagem a minha própria alma!
                                  ZEND-AVESTA
           

Minha alma é a janela onde eu morro.
Minha alma é uma dança algemada.

Minha alma é uma paisagem com paredes.
Minha alma é um jardim ensanguentado.

Minha alma é um deserto sob a névoa.
Minha alma é uma orquestra de topázios.

Minha alma é uma roda que não para.
Minha alma são meus lábios que se abrem.

Minha alma é uma torre em uma praia.
Minha alma é um rebanho de tormentos.

Minha alma é uma nuvem que vai longe.
Minha alma é a minha dor, minha, p'ra sempre.

Minha alma é o laranja azul que queima.
Minha alma é uma pomba sem pombal.

Minha alma é um barco de regresso.
Minha alma é um colar de vidro e pranto.

Minha alma é essa sede que me devora.
Minha alma é uma corrida desolada.

Minha alma é esse ouro em que floresço.
Minha alma é a paisagem que me olha.

Minha alma é esse pássaro que treme.
Minha alma é um oceano de sangue.

Minha alma é uma virgem que me abraça.
Minha alma são seus seios como estrelas.

Minha alma é uma paisagem com colunas.
Minha alma é um incêndio onde neva.

Minha alma é esse mundo em que moro.
Minha alma é um longo grito ante o abismo.

Minha alma é esse canto ajoelhado.
Minha alma é uma noite e tem um rio.

Minha alma é uma amêndoa de ouro branco.
Minha alma é uma nascente apaixonada.

Minha alma é cada instante em que morre.
Minha alma é a cidade das cidades.

Minha alma é um rumor de acácias rosas.
Minha alma é um moinho transparente.

Minha alma é esse êxtase que canta
golpeado por armas infinitas.

(Tradução, quase literal, de Tuca Zamagna.)

         O original

Homenage
                                     ¡Homenaje a la montaña de Ormuzd,
                             de donde descienden las aguas a la tierra!
                                                ¡Homenaje a mi propia alma!
                                                                    
                                                                        ZEND-AVESTA

Mi alma es la ventana donde muero.
Mi alma es una danza maniatada.
         
Mi alma es un paisaje con murallas.
Mi alma es un jardín ensangrentado.

Mi alma es un desierto entre la niebla.
Mi alma es una orquesta de topacios.

Mi alma es una rueda sin reposo.
Mi alma son mis labios que se abren.

Mi alma es una torre en una playa.
Mi alma es un rebaño de suplicios.

Mi alma es una nube que se aleja.
Mi alma es mi dolor, mío, por siempre.

Mi alma es el naranjo azul que arde.
Mi alma es la paloma enajenada.

Mi alma es una barca que regresa.
Mi alma es un collar de vidrio y llanto.

Mi alma es esta sed que me devora.
Mi alma es una raza desolada.

Mi alma es este oro en que florezco.
Mi alma es el paisaje que me mira.

Mi alma es este pájaro que tiembla.
Mi alma es un océano de sangre.

Mi alma es una virgen que me abraza.
Mi alma son sus pechos como astros.

Mi alma es un paisaje con columnas.
Mi alma es un incendio donde nieva.

Mi alma es este mundo en que resido.
Mi alma es un gran grito ante el abismo.

Mi alma es este canto arrodillado.
Mi alma es un nocturno y hay un río.

Mi alma es un almendro de oro blanco.
Mi alma es una fuente enamorada.

Mi alma es cada instante cuando muere.
Mi alma es la ciudad de las ciudades.

Mi alma es un rumor de acacias rosas.
Mi alma es un molino transparente.

Mi alma es este éxtasis que canta
golpeado por armas infinitas.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

A menina dos ovos de ouro

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 Para Carla Diacov e Larca Vódica  .  .  .  .

Saiu apressada da casca,
bem antes da mãe findar o choco
e do pai cacarejar seus advérbios,
a menina.

Já engatinhava sem meias palavras
e ciscava com os joelhos a terra
e o mar e o céu e o tudo e o caos,
a menina.

“Nunca que vou botar um ovo
branquelo ou beje ou avermelhado” – –   
decidiu. – –  “Ovos meus serão todos
de ouro, ouro do bom, sem impureza
que não seja clorofila, cedilhas e
borboletas bêbadas xingando a mãe
dos órfãos” – –  ô tinhosa, a menina!

E saiu ela pelas ruas a catar
moedas e pauzinhos de picolé,
conchas e guimbas de cigarro,
tartarugas, cobras e lagartos,
hidrantes, clipes e astrolábios,
meninos a empinar carros-pipas,
freiras plantando bananeira
e pensamentos libidinosos
na peruca de corocas e carecas – –
agora, sim, prontinha para botar
                                            toneladas de ovos de ouro..

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sábado, 28 de setembro de 2013

Poema inédito de Lispector?

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Eu, uma brasileira
Clarice Lispector   .  .  .  .  .  .  .  . . .  . .  .  .  .  . 
Uma russa de 21 anos de idade
E que está no Brasil há 21 anos
Menos alguns meses.
Que não conhece
Uma só palavra de russo
Mas que pensa, fala, escreve
E age em português,
Fazendo disso sua profissão
E nisso pousando todos
Os projetos do seu futuro,
Próximo ou longínquo.
Que não tem pai nem mãe –
O primeiro, assim como as irmãs
Da signatária, brasileiro naturalizado..
E que por isso não se sente
De modo algum presa ao país
De onde veio,
Nem sequer por ouvir relatos sobre ele.
Que deseja casar-se com brasileiro
E ter filhos brasileiros.
Que, se fosse obrigada a voltar
À Rússia, lá se sentiria
Irremediavelmente estrangeira,
Sem amigos, sem profissão,
Sem esperança.

(Trecho, “poemado”, de carta da escritora ao Presidente Getúlio Vargas, datada de 3 de janeiro de 1942)
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Fac simile da carta de Clarice Lispector

Importante: Embora existam dezenas de “poemas de Clarice Lispector” circulando pela internet, a escritora jamais publicou qualquer texto em versos. Tais poemas são, como este aqui, textos em prosa quebrados em versos por gente irresponsável como eu... ou, pior, poemas de outros autores a ela atribuídos.