sábado, 21 de abril de 2012

Ainda

. . . . Temeridade
. Eu temia criar o passarinho solto em casa, por
. causa do gato. Meu temor procedia: o bichano
anda deprimido, humilhado com os voos da ave.
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. . . . Triângulo perfeito
.  . .  .  .À primeira amada, juntara uma segunda, para compor um triângulo perfeito. .  . .  . .  .Mas a perfeição só viria quando as duas o trocaram por uma terceira.
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 . . . .Cinófilo
.  .  .  . Todos lhe diziam que era bom ter um cão. Resolveu pensar no assunto. .  . . . . Nunca se decidiu, tornando-se um grande especialista em cinofilia.

 . .  .Coesão e força
..  Quanto menor o grão da argila, mais coesa e forte a cerâmica que dela resulta.. . Assim também, a humanidade. Mas os pequenos não sabem disso.
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  . . Consolo
. .   .   . . . . Queria a fé, queria a paz e a força dos que crêem em algum deus.  . . . . . .   
 Tocou sua vida com tudo o que pôde arranjar: um conformismo politeísta.
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    . . .Perdido no espaço
      . . Na Serra dos Órgãos localizaram o fígado, rins, pulmões e demais órgãos seus.     . Exceto o coração, perdido no rumo indicado pelo Dedo de Deus.
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 . . . Três meninos
        .     . Eram três meninos. O melhor deles foi morto pelo que venceria na vida.      .    .    O terceiro viu tudo e escreve essa história, em sua cela na prisão.
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  .  O .mar
Não foi a sua beleza, não foi o colorido das palavras que ela cantava.
O que o fisgou foi o mar... o mar que ela lhe fez aflorar do peito.
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  . . Sorte
.   .Loteria e fumo são seus vícios. Joga três vezes por semana e fuma 60  .  .
cigarros por dia. Tem sorte:ganhou sete vezes e só teve um câncer.
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  . .  A criação
           .     .Seis dias a catar e jogar fora todas as verdades espalhadas pela casa.     . . .                No sétimo, descansou, orgulhoso de sua vasta criação de mentiras.   
   .  .

  . .  Ainda
      . ..    Sei que a primavera jamais voltará a ser como nós. Sei quão inclemente é .  .  .   . o inverno no verão sem ti. Mas no outono que chega, ainda sorris para mim.


quarta-feira, 28 de março de 2012

Rinocerontes - 2ª manada



Em dezembro, postei uma manada de 12 rinocerontes criados por diversos amigos pintores, chargistas, caricaturistas e por mim, para comemorar o 102º aniversário do teatrólogo e romancista Eugéne Ionesco, cuja obra mais conhecida no Brasil é a peça Rinoceronte. Fiquei devendo uma continuação, com os trabalhos que na ocasião não pude postar por excesso de peso: 25 paquidermes é dose pra carreta – e o Blogger é um burro-sem-rabo. 
Acabei deixando a postagem da 2ª manada para hoje, 28 de março, quando Ionesco completa sua maioridade como defunto: 18 aninhos bem morridos e pouco lembrados – o que seria um absurdo, não fosse ele um dos expoentes, ao lado de Samuel Beckett, do chamado Teatro do Absurdo. Aqui vão mais 13 rinocerontes, ilustrados por textos absurdamente realistas.


Tetrarrinus, o rinoceronte brasileiro
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   Desenhista anônimo. . . . . . . . . .  . .  .  . . .

 O Tetrarrinus foi avistado e desenhado pelo naturalista polonês Jean-Cristof Zamenhof, durante a expedição científica que empreendeu pelo Alto-Oiapoque no início da década de 1890. A página faz parte do diário da expedição e o fac-simile nos foi enviado pela FB Editorial, que detém os direitos de publicação do que resta do diário e da tese de doutorado sobre ele, de autoria do pesquisador Modesto Leal.
Ocorre que recebemos também, do autor da tese, cópia de desenho anônimo que ele diz ser a prova de que tal página do diário foi falsificada pela FB Editorial. O pesquisador informa ainda que Jean-Cristof era esquizofrênico, tendo anotado, “sem desenhar”, a visão de um rinoceronte, durante a travessia da Ilha de Marajó. “Parece-me evidente – diz Leal – que o cientista delirou ao avistar algum búfalo da ilha.”
(Ambos os desenhos são, na realidade, do recém-falecido artista plástico Hélio Jesuíno, com quem eu vinha desenvolvendo a história dessa expedição fantástica. Ele chegou a fazer algumas páginas com vários desenhos a bico de pena “de Jean-Cristof” e a postá-las em seu blog: heliojesuino.wordpress.com/ ).

 
Súbito como uma interjeição
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 Hermé.. . . . ....... .  . .
  
Conheço o Hermé de nomes (ele tem vários) há tempos. Agora, nos reencontramos no feicebuque e já começamos a entabular grandes planos. O primeiro deles é bastante ousado, um desafio e tanto, mas temos fé que será possível realizá-lo nos próximos 20 ou 30 anos: nos sentarmos num boteco pra beber cerveja com nosso grande amigo comum, o Hélio Jesuíno.
Hermé teve intensa participação nesta postagem, com dicas enigmáticas e críticas codificadas sobre questões que nada tinham a ver com o assunto. Tudo, graças a sua gentileza rara e também à profunda ignorância que vem acumulando sobre rinocerontes desde a Páscoa de 2002, quando encontrou, por acaso, uma pequena manada deles dançando minueto na sala de espera de seu psiquiatra.
– Eles conseguem voar sem bater as asas, já reparou, doutor?
– Os rinocerontes, Hermé???
– Não. Os aviões.


O Carroceronte
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Jorge Eduardo. . . . ...... .

 Isso é só um esboço, o embrião de um projeto. Mas quando o Jorge Eduardo terminar de pintar, ele e seus pincéis-de-condão de hiperrealizar... o motor vai roncar – ou melhor, vai bramir, como todo rinoceronte que se preza. Então, embarcaremos nós dois no Carroceronte e ganharemos as ruas, Jorge dando tiro de meta em tudo que é carro murrinha e buzinador, e eu selecionando, para ele catapimbar, certas velhinhas que, chova ou faça sol, saem às ruas com o único objetivo de enfiar as barbatanas da sombrinha no meu olho. Ah, mandaremos essa corja toda à rinogenitora que a pariu. Mandaremos mesmo, sem dó nem cascadura, em defesa da sagrada pátria de havaianas!
--- Aiôôô, Rin-tim!!

 
O Ornitorrinoceronte
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Luiza Nogueira Maciel. . . . ....... .

 A Luiza foi à Austrália para nos trazer esse belo espécime de Ornitorrinoceronte. Ela trouxe também mais três rinos daquele país de animais estranhíssimos, o mais curioso deles um pequeno canguroceronte, com 0,35 quilo de peso. Mas esses só serão postados um de cada vez, nos próximos eventos ionescos anuais do Desinformação Seletiva.


Bronze de argila / Argila de bronze
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Salvador Guilherme Dalí Toledo . . . . . . . .. . . . .. . . .


Guilherme Toledo, meu querido mestre de cerâmica, não pôde participar desta farra rinocerôntica, por problemas particulares. Não pôde? Não podia. Porque esbarrei numa foto desse rinoceronte esculpido por Dalí e, brincando com a imagem, descobri que, na inversão de cores, o bronze azinhavrado “virava” terracota. Na brincadeira não podiam faltar os piões de Mestre Gui, alguns tão grandes que ele precisa recorrer à queima em forno de cerâmica industrial. O maior deles (por enquanto!) tem quase 3 metros de circunferência – número superior, provavelmente, ao de neurônios da cliente que o encomendou. Para ter o piãozão em casa, a desvairada senhora precisou fazê-lo entrar pela janela... no 17º andar!

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O Minhoceronte
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 Theopha . . . . . . . .. . . . . . .

Esse exótico rinoceronte foi encontrado, como divulgou amplamente toda a mídia, no jardim de um condomínio de luxo da Barra da Tijuca, país vizinho ao Rio de Janeiro. Foi batizado de Minhoceronte pelo jardineiro que, ao revolver a terra de um canteiro, o encontrou contorcendo-se feliz da vida no meio das minhocas. Zoólogos já descobriram características interessantíssimas sobre a nova espécie, tais como:
1 – O animal é hermafrodita – metade macho, metade fêmea;
2 – A metade fêmea tem a língua bem maior que a da metade macho – e fala, numa língua ainda não identificada;
3 – A metade macho tem orelhas muito menores e não ouve nada do que a metade fêmea diz;
4 – A metade fêmea tem a bossa cervical bem menor, o que levou os cientistas a acreditarem ser ela menos inteligente. Num segundo momento, porém, verificou-se que a bossa não continha o cérebro – e sim o intestino;
5 – A metade macho é mais chifruda;
6 - A prática sexual do minhoceronte resume-se ao beijo, durante o qual o animal assemelha-se a uma grande rosca;
7 – A reprodução, especula-se, dá-se por cissiparidade. Conforme explicou um zoólogo, “o bicho cresce esticando, e com tal intensidade que, a qualquer momento, poderá arrebentar no meio e formar dois novos indivíduos”.


A Lelenocerontenina
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  Lelena Terra . . . . .. ... .. .

A Lelenocerontenina, um dos muitos tipos arbóreos popularmente conhecidos como pé de nuvem, é figurinha fácil nas savanas hipotéticas e nos psicopampas. Como todas as mais de setecentas espécies conhecidas da família Nebuliaceae, distingue-se por apresentar, em vez de folhas, nuvens e, em vez de flores, seres nube-passeantes, que variam conforme a espécie. No quintal, tenho meu pé de nuvem: uma Lelenopódia Mimoesquerdata, cujas nuvens são passeadas por pés esquerdos femininos. É a mais imponente e delicada das nebuliáceas.  O único – e mínimo, irrelevante! – inconveniente é que, quando sua nuvagem amua e cisma de passar muitos dias sem chover, as lelenopódias (a Mimodestrata, igualmente) contaminam uma vasta área em torno de si com um insuportável cheiro de chulé. Eu, porém, que tenho pouco olfato e nenhum guarda-chuva, devo admitir: prefiro mil vezes tal olor às trombas d’água de rinocerontes das lelenoceronteninas.


Flávio facing a beast
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 Fernando Domingues . . .  ..   . .. .. . .
 
Se você achou ruim essa moldura de garrafas, experimente beber o que elas trazem dentro: Underberg, a bebida predileta do Flávio Pinto Vieira, o paquiderme que o Fernando retratou à direita. Dizem que o Flávio morreu e foi para o Inferno, porque não acreditava no Céu. Mentira: ele jamais iria para um lugar no qual, sabidamente, o Underberg evapora. A verdade é que ele voltou para o Egito (onde estivera exilado nos tempos da ditadura), para mumificar-se – com Underberg – e tornar-se um charmoso e imortal hipopótamo.


 Rinocerontem
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 Marcel Zaner. .  .. ..... .  .

O rinocerontem, segundo o Marcel, é um ancestral já extinto do rinoceronte. Tenho cá minhas dúvidas. Para mim, esse animal é simplesmente um produto de orgias, não muito antigas, entre um rinoceronte moderno, uma lagartixa, um pernilongo e o camundongo Mickey.


    Face contra face
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Marcantonio Costa. .  ... . ... .  .

Aos 13 anos, Marcantonio decidiu o que seria quando crescesse: rinoceronte. Pretensioso, como todo adolescente normal, tratou logo de sair por aí testando a vocação especialíssima. Seu alvo preferido: as fêmeas – e a primeira a provar de sua chifrada sedutora foi “tia” Neolinda, a professora de História. Numa prova que constituía-se de uma única questão dissertativa – “O que foi o Tratado de Tordesilhas?” –,  o poeta mais badalado do momento no Baixo-Baixada respondeu em versos, com uma interpretação um tanto pessoal do famoso acordo luso-espanhol. Das cinco quadras de “Pra lá das Tordesilhas, Tiazinha” – em impecáveis redondilhas com rima que br(ilha) soberana do princípio ao fim –, reproduzimos as três centrais (que a primeira é descartável e a quinta, impublicável!): 

O rinoceronte, filha,
No além-fogo da braguilha,
Será tua luz que rebrilha
Em cada tordo, toda ilha

E nas demais maravilhas
Mapeáveis em ti, por milhas,
Dos Andes das panturrilhas
À Amazônia das virilhas,

A levar a cima, em quilha,
Os meus olhos que estribilhas
Com, dos seios, as redondilhas
Que a minha língua dedilha.

Anotação de dona Neolinda na prova: “Nota 9,5. Não dou 10 porque sou ruim em Geografia. Se fosse boa, eu dava.” E esta última frase, sem objetos direto e indireto explícitos, tornou-se a frondosa dúvida que ainda hoje martela e instiga a libido lírica do bardoceronte já feito.

 
Veja a primeira manada, aqui.
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