sábado, 5 de novembro de 2011

O safári íntimo



O SAFÁRI ÍNTIMO – regulamento e origem antes que a girafa me morda, antes que o abutre me pise e antes que a tartaruga me alcance.

Carla Diacov

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“Estou vivendo de hora em hora, com muito temor. Um dia me safarei - aos poucos me safarei, começarei um safári.”
 Ana Cristina César
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POR TRATAR-SE DE UMA PROFUNDA BUSCA DO SER POR SIGO MESMO, SEGUE, EM PRIMEIRO PLANO(?), AS REGRAS EM SE COISAR NO SAFÁRI ÍNTIMO. NUNCA. SEMPRE.

1
O forte do safári íntimo não é o forte. Nunca.

2
No safári íntimo, a idéia que temos de nós não exerce função. Nunca.

3
Há chances de coisas absolutas tornarem-se desenxabidas ou irresolutas no safári íntimo. Sempre.

4
No safári íntimo a aproximação ou até a amizade com a onça deve ser evitada. Sempre.

5
Quem comove, equilibra e desequilibra os ares do próprio safári íntimo. Sempre.

6
Só no safári íntimo o cuspe contém sérios pensamentos. Sempre.

7
No safári íntimo as leis da física exercem efeito nenhum sobre as idéias românticas. Terrível, mas sempre.

8
No safári íntimo o desejo não é elástico. Nunca. Terrível, mas higiênico.

9
Só no safári íntimo a chuva é mais usada e mais fina e mais quentinha e molha mais. Sempre.

10
No safári íntimo as manias que a gente tem são como espetos espinhados e venenosos. Sempre e nunca, nessa ordem.

11
Só no safári íntimo a função de alguns órgãos do corpo humano é provisória. Sempre.

12
No safári íntimo nada supera a carcaça. Nunca. Em nada.

13
No safári íntimo a areia movediça despe e gela. Sempre. )Mas existem muitas folhonas por lá.(

14
No safári íntimo não se usa espelhos do lado direito por se considerar alto o risco em se ver. Nunca. )As folhonas não refletem. Nunca. Graças a Deus.(

15
Safári íntimo sem carcaça não vale. Nunca. )A carcaça não é coisa que se leva ao safári íntimo. Carcaça é coisa que deve ser descoberta e, por favor, cada um que descubra a sua.(

16
Iniciar-se no safári íntimo pode ser muito vantajoso visto que o prêmio )Só para os que conseguem entrar e sair de lá/ não é o meu caso.( É a própria cabeça a ornamentar a parede mais concretizada do ego. )Deve haver alguma. Parede. E cabeça. Conforme for o caso. Ou esqueça. O prêmio e a cabeça.(
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)A carcaça existe desde muito antes dos primórdios e surgiu junto com os ventos e ovos) é o ovo uma espécie reinadelascascas de carcaça (do safári íntimo. )Desde muito antes da carcaça, venta.( Na carcaça não há órgãos, só danos. A única curiosidade do homem em relação à carcaça é de ordem desconhecida o que faz com que a carcaça fique onde está, por isso, investir na ciência da carcaça seria um projeto viável, técnica e economicamente, para uma nação e para uma noção, não fosse a humanidade besta como é.
)Uma vez, num supersafári íntimo, uma carcaça foi encontrada. Uma outra vez, nesse mesmo safári, a mesma carcaça foi perdida. Mas na vez em que a carcaça foi encontrada, ela foi encontrada por uma menina enterradíssima. A frase anterior seria uma contra arbitragem, não fosse pelo sentido supralegítimo, ou seja, a carcaça em questão pertencia aos restos mortais da própria menina, também em questão, ou seja, a menina era uma menina-múmia datada de desde muito antes da carcaça, portanto, dados mais sólidos da carcaça teriam sido utilizados como parâmetros de avaliação para as informações geradas pelo sistema de identificação do safári íntimo da menina-múmia, evitando assim, a perda da carcaça, não fosse a perda da carcaça. Daí esse meu safári íntimo.((
Postado originalmente em  OVOS, aqui.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Deus e outros contos de réis

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Triângulo isósceles
Carregou a esposa até a casa da outra. “Sua mulher está morta”, disse a amante. “Sim”, assentiu, junto com um tiro na testa dela e, logo, outro na própria fronte.
 
À flor da pele
Podia vestir-se do pés à cabeça que, ao sair à rua, todos a viam completamente nua. Preferia correr pelas matas, em dias assim – de alma à flor da pele.

A maneira
Sabia o que queria. Só não soubera, pensou, pedi-lo da maneira correta. Então mentiu, e deu tudo certo.

 Demanda
“Mais rápido, muito mais rápido” – decidiu. – “Até conseguir escrever na mesma velocidade com que chegam as idéias que jogo fora.”
 
Janela
Chegou à janela: ninguém na rua. Fechou a janela: a multidão dentro de si. Abriu-se, e uma cascata de gente inundou a rua, a cidade, o mundo.

O baque
 Vê a bola rolando pela rua, vê o menino correndo atrás da bola, vê o carro passando. Ouve a freada, fecha os olhos... sente o baque: já não é mais o menino correndo atrás da bola.
 
Altitude
'Elogio não levanta o moral, sucesso não sobe à cabeça, leitura não eleva ninguém: você é que inventa a altura que supõe merecer' – supôs ter lido.

O homem dos sonhos
Cobria-se de sedas, jóias, cosméticos e perfumes, à espera do homem dos seus sonhos. Quando ele enfim surgiu, não viu nada: olhara somente para dentro dela.

Metades
 Ia morder a maçã, mas lembrou-se da mulher que se foi. Meteu-lhe, então, a faca. Bem no meio. Metades tão perfeitas que não pôde comê-las. Uma, epitáfio em versos; a outra, natureza morta.
 
Deus
Um homem maltrapilho, imundo, abatido, pés descalços, vindo em sua direção. Parou tão perto que ela pôde sentir o hálito de fumo, álcool e éter. Tirou algumas moedas da bolsa mas não chegou a oferecê-las, porque ele a afogou num beijo divino. 
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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Ao botafoguense, esse ser trágico


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(sem título)  .  . . ..  . ..  .  .  .  . . .  .  .  .  .  .  .  .  .  .

Lúcio Cardoso      .   .  . ..  .  .

Ó Estrela, carne fulgurante, rosa do mar,
guia do solitário navegante, amante dos heróis
–– .que nesta hora plena tua alma nos conduza
à amplidão sem fim, perpetuamente recomeçada,
onde o perigo fala, e tu, Estrela,
apascentas o rebanho noturno das vagas.

Ó Estrela, dá-nos a morte da surpresa,
o alfange erguido como o castigo,
a recompensa dos fortes, o teto puro
do céu desdobrado sobre o mar...

Dá-nos a glória do naufrágio.

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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Pólen Radioativo


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Para Adriana Araújo .
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 pólen de urânio
bomba de gerânio
primaver.(amar).anhão
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Hoje tem bolo e muito reggae no blog da poeta maranhense, aqui.
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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Musas da minha vida obtusa


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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . A de morte
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . Ser eu uma lesma
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . É a sua sorte.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . Sem o meu aporte,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . A pequena de morte
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . Mataria a si mesma.
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . A santa
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . A santa madre
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . Do pau oco.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . A cada milagre
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . Me embriaga um pouco
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . Com vinagre.
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . A muda
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . Para que palavra?
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . É o seu mutismo
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . A única lavra
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . Que funda e agrava
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . O meu abismo.
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . A Senhora
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . Seu maior dote
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . É o meu reinado.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . E seu mote,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . Arame farpado
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . No meu desejo-lote.
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . A faz tudo
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . Por ser assim,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . Não dá trabalho:
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . Me sangra sem fim
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . E ainda afaga em mim
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . A arma do talho.
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domingo, 25 de setembro de 2011

Dicas para as provas do Enem

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Elza Magna
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1 – Por que há mais mulheres do que homens no mundo?

R.: Porque os homens engravidam menos.

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2 – Onde fica o hipotálamo?

R.: Na água, como todo mamífero aquático.

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3 –. Para os pintos saírem dos ovos, o que faz a galinha?

R.: Chupa eles.

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4 – Qual é o polígono com menor número de lados?

R.: O círculo.

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5 – Por que o coração é associado ao amor?

R.: Porque, se ele pára, a gente broxa.

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6 - Como morreu o Bispo Sardinha?

R.: Enlatado

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7 – Por que Vênus é chamada de estrela?

R.: Porque ficou rica e famosa fabricando camisinha.

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8 – Para que servem as amígdalas?

R.: Pra agarrar pentelho.

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9 – Que animais dependem das guelras para viver?

R.: Os militares.

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10 – O que é piroga?

R.: O marido da jojota.

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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Pra dizer tudo e mais alguma coisa

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Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela (…). Quem não se arrisca não pode berrar.

Torquato Neto

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Só conheci Torquato de vista e, claro, de lê-lo e de, por outras vozes, ouvi-lo. Por duas vezes o vi, sozinho, bebendo num bar que eu passara a freqüentar no final da adolescência – e que, anos mais tarde, eu acabaria comprando. Não podia imaginar que a grande importância que ele tinha na minha vida naquela época se tornaria tão maior com o tempo.

Lembrei-me do poeta ainda há pouco, ao acordar meio deprimido. Não sei bem por que, sempre me levanta o astral ouvir a sua – e de Edu Lobo – tristíssima “Pra dizer adeus”. Talvez porque soem como as "últimas palavras" mais suntuosas que alguém já deixou, finamente embaladas musicalmente e ditas e repetidas até hoje nas vozes sensibilíssimas de intérpretes como o seu parceiro, como Nana Caymmi, Elizeth Cardoso, Orlando Silva, Bethania e, sobretudo, como Elis, que partiu tão cedo também.

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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Abaixo as cores inimigas!

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Anga Mazle e Teopha

O fanatismo de muitos torcedores de futebol produz , freqüentemente, pérolas de boçalidade. É o caso de uma parte da torcida do Botafogo (nosso time!), que vem protestando contra a pintura das cadeiras do estádio alvinegro – o Engenhão – com as cores vermelha e branca de um patrocinador. Na visão (?) desses torcedores, o vermelho lembra um grande rival (ou a metade dele, se não nos falha a aritmética), o rubro-negro Flamengo, e por isso cobram da diretoria botafoguense que mude as cores, pouco importando os prejuízos decorrentes dessa mudança..

A situação não é nova, já aconteceu com outros clubes, e certamente vai continuar acontecendo. Afinal, ser boçal é lindo, né não?.

Fiéis à nossa missão de bem desinformar seletivamente, apresentamos algumas sugestões para incrementar essa onda colorida de boçalidade:

1. . . . Extintores personalizados – para botafoguenses, corintianos e demais alvinegros que não suportam o vermelho – do Flamengo, do São Paulo etc.



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2. . . . Campo com grama cor de rosa – para são-paulinos, cruzeirenses, fluminenses e demais torcedores que têm chilique quando vêem o verde do Palmeiras, do América mineiro etc.



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3. . . . Máscaras vermelhas – para jogadores e torcedores brancos do Flamengo, Atlético paranaense, Vitória e outros clubes rubro-negros que odeiam a mistura de brancos e pretos, que lembra os times alvinegros.



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4. . . . Sangue azul – para os gremistas e demais torcedores alérgicos à cor vermelha.


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5. . . . Céu nublado – para torcedores que abominam o Cruzeiro e outros times azuis (como é o caso do poeta Marcantonio Costa, que apresentou esta sugestão, ainda ressacado da trauletada que o celeste Avaí aplicou no seu Flamengo lá na Ressacada!)

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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Palavra de especialista

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Teopha . . . .
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Pescador, por circunstância;

analfabeto, por vocação.

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Poesia, ele pesca fácil,

como o pai, o avô, o bisavô:

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“A palavra é só um peixe

com escama até na língua.”

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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Ato de Protesto e Solidariedade

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Meu mano Paulinho Saturnino postou no Facebook uma foto de um grupo de mocréias alcoolfóbicas. Indignadas, ninfas lá do FB fizeram uma passeata (pelos bares) em protesto contra o cardume de dragões – e também em solidariedade a minha querida Shirley Fioretti, que foi proibida de beber pelo médico, uma revoltante atitude desumana.
Para registrar o excelso evento, fiz as devidas correções na velha foto (que reproduzo abaixo, com a legenda do Paulinho). Eis o timaço das alcoólfilas: da esquerda pra direita, Katinha Saturnino e Raíssa Balela (ao fundo); Emily 'Monalisa' Vaz, Lelépida Lelepidóptera, Shirley, Quadrúpede Latinte (representando Lelena Camargo, a Bípede Falante), Adriana Radioativa e Yula Leroy (em segundo plano), e as Feijó Catita (mão no queixo), sua avó Ceci, sua irmã Cissa e sua mãe Sofia.
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