segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Palavra de especialista

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Teopha . . . .
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Pescador, por circunstância;

analfabeto, por vocação.

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Poesia, ele pesca fácil,

como o pai, o avô, o bisavô:

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“A palavra é só um peixe

com escama até na língua.”

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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Ato de Protesto e Solidariedade

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Meu mano Paulinho Saturnino postou no Facebook uma foto de um grupo de mocréias alcoolfóbicas. Indignadas, ninfas lá do FB fizeram uma passeata (pelos bares) em protesto contra o cardume de dragões – e também em solidariedade a minha querida Shirley Fioretti, que foi proibida de beber pelo médico, uma revoltante atitude desumana.
Para registrar o excelso evento, fiz as devidas correções na velha foto (que reproduzo abaixo, com a legenda do Paulinho). Eis o timaço das alcoólfilas: da esquerda pra direita, Katinha Saturnino e Raíssa Balela (ao fundo); Emily 'Monalisa' Vaz, Lelépida Lelepidóptera, Shirley, Quadrúpede Latinte (representando Lelena Camargo, a Bípede Falante), Adriana Radioativa e Yula Leroy (em segundo plano), e as Feijó Catita (mão no queixo), sua avó Ceci, sua irmã Cissa e sua mãe Sofia.
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terça-feira, 26 de julho de 2011

Ela (!) e ele (?)

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Presença

A nudez da vizinha de frente logo se tornaria mais constante em sua vida do que sua própria sombra.
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A barreira

Seria dele ou seria dela mesma a invisível barreira que a impedia de se aproximar de mais?



A única

Ela era tantas – e todas tão irresistivelmente sedutoras ­– que, no fundo, a única unidade que a ele restara era a de sua própria solidão.

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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Eu sou neguinha?

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Você alguma vez já se pegou cantando uma música da qual não gosta? Isso acontece muito comigo. Mas esta manhã, meu inconsciente exagerou, e eu acordei cantarolando:

“... eu tava rezando ali completamente/ um crente, uma lente, era uma visão/ totalmente terceiro sexo/ totalmente terceiro mundo, terceiro milênio/ carne nua nua nua nua nua nua nua/ era tão gozado/ era um trio elétrico, era fantasia/ escola de samba na televisão/ cruz no fim do túnel, becos sem saída/ e eu era a saída, melodia, meio-dia dia dia/ era o que dizia:/ Eu sou neguinha? Eu sou neguinha? Eu sou neguinha?...”

Sai pra lá, abacaxi... tomei leite!

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Bueiros Aires

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O inferno tem muitas bocas.

Por elas, cospe fogo

e, às vezes, uma ou outra alma fibrosa

que lhe fica entalada entre os dentes.

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O inferno tem cara para infinitas bocas.

E essa cara, hoje, com certeza é o Rio.

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sexta-feira, 24 de junho de 2011

Gol de poeta

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Bissolcleta
A onze. poetas rubro-negros
Raul defende com o pé, de verso,
e serve a Domingos da Guia
que passa, de letra, para
Carlos Alberto Torres, que toca
bola bem redondilha
para Leandro inverter o jogo,
em passe alexandrino para Júnior,
que dispara em velocidade
e rima com Andrade,
que faz uma trova chistosa,
com caneta, num rival
e passa para Geraldo assoviar
um soneto, antes de lançar
para Zico, que aplica
um hacai que derruba
dois adversários e encontra,
em verso livre, Dida, que centra,
alto como uma elegia, na área.
Leônidas da Silva tenta uma
bicicleta, metrificada nas nuvens,
e não alcança a bola, mas
Marcantonio não perde o mote:
chuta o sol para o fundo da rede.
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* . . . . . . . * . . . . . . . *
Este poema e a ilustração eu fiz para uma postagem coletiva, no blog da Cris de Souza, em homenagem ao aniversário do poeta Marco Antonio Costa. Como a Cris me pediu para inserir na imagem fotinhas dos participantes, precisei fazer outra ilustração (e outro texto), guardando a Bissolcleta para o DS.
Parabéns, Marcantonio! Parabéns, Cris! E parabéns, também, Tânia Contreiras, que organizou uma excelente entrevista com o poeta.
Abaixo, as ilustraçoes que fiz para a entrevista e para a postagem coletiva, mais os links dos três:




A postagem coletiva, no Trem da Lira
A entrevista, no Roxo-violeta
Blogs do Marcantonio: Azul temporário e Diário extrovertido.
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terça-feira, 14 de junho de 2011

Parabéns, Fernandinho! – 2

O Hermé, com seu traço enxuto que contraria a moda da caricatura tridimensional e segue a trilha dos maiores craques do desenho de humor, postou no Facebook três charges em comemoração aos 123 anos de Fernando Pessoa. Esta é uma delas, gentilmente cedida para publicação no desinformação seletiva. Obrigado, Hermé; obrigado, Pessoa!

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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Parabéns, Fernandinho!

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Fernando António Nogueira Pessoa . .

13 de junho de 1888 . .. . .. . .

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Sou, em grande parte, a mesma pessoa que escrevo. Desenrolo-me em períodos e parágrafos, faço-me pontuações, e, na distribuição desencadeada das imagens, visto-me, como as crianças, de rei com papel de jornal, ou, no modo como faço ritmo de uma série de palavras, me touco, como os loucos, de flores secas que continuam vivas nos meus sonhos.

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Bernardo Soares Livro do Desassossego

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Teopha. .

Obs.: .O Tuca sugeriu que eu citasse um texto de cada heterônimo. Argumentei – e ele concordou – que, se estou citando um trecho da Bíblia, não preciso citar mais nada.

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terça-feira, 7 de junho de 2011

Diálogo

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Agora, sim

A palavra da mulher nunca fez parte do cotidiano do casal. Mas desde que enviuvou, ele ouve tudo o que ela tinha a dizer.

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Esforço

Os dois bem que se esforçavam para entender o que o silêncio do outro queria dizer. Em vão: ambos os silêncios eram mudos.




Consolo

Perdeu a fala num AVC, coitada. Por sorte, tinha o cão, que sempre ouviu o que ela pensa.



Crescente

De repente, parou de falar com os amigos. Depois, parou de falar com a mulher e os filhos. Hoje, não fala nem com seus botões.

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Ilustrações: Hélio Jesuíno (extraídas de seu blog, aqui).

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domingo, 5 de junho de 2011

A Beleza, enfim!

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Anga Mazle . .

procurava a Beleza

nas ruas

nas lojas

no horizonte

na noite interminável

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procurava a beleza

colorida

luminosa

extasiante

infinita de felicidades

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encontrou-a por acaso

murcha

desbotada

triste porém plena

na ária que um livro assobiava

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o . . . . o . . . . o

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Imagem: cena do filme Morte em Veneza, de Luchino Visconti, baseado na novela homônima de Thomas Mann e que tem como música tema o Adagietto da 5ª Sinfonia de Gustav Mahler.

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quinta-feira, 26 de maio de 2011

18 pelos 18 da Raíssa - 2

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Continuamos aqui a postagem anterior, comemorativa dos 18 anos de nossa querida amiga e blogueira Raíssa Medeiros. Era para sair tudo junto, mas fomos assolados por um tsunami de problemas técnicos com o “blogstop”. Raíssa (na foto dupla acima, a de pernas mais longas) fez aniversário na segunda-feira. Para comemorar este importante marco na História da Zona Oeste do Rio, o desinformação seletiva convidou 18 escritores: o andarilho Seu Juca Sem Fio, que foi quem nos apresentou a Raissa há três anos, e 17 blogueiros – entre eles, Suzana Guimarães (a de pernas não tão longas, na foto). Cada texto é ilustrado com uma foto de Raíssa, acompanhada pela foto do perfil do respectivo autor. . (Anga, Elza, Teopha e Tuca)


Vestido em vento

Suzana Guimarães

omedodesuzana.blogspot.com


Vá. Alcance a mochila, deixada ali no canto, aquela que você comprou para alcançar mundos, alheia a bailes, a beijos roubados no portão, alegre por ser qualquer coisa aos quinze, mas qualquer coisa livre, solta, sem amarras, metamorfoseada pelas crianças que dançavam a roda dentro de ti. Vá. O que seriam dezoito anos? A distância entre duas pessoas, a distância daquelas terras à espera ou sinal dos céus, que grita ao seu ouvido? Não sei, eu pouco sei de dezoito anos... mas lhe garanto, a França, você ainda não pisou, mas os franceses podem a ti chegar. O Nepal pode ser um sonho impossível, distante, distante, mas, amanhã, a moça do Nepal desenhará tuas sobrancelhas... Vá. Pegue um caderno, um lápis, dois batons de cor, algum cheiro, vestidos, vestidos, quanto mais ao vento melhor, e vá.

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Iluda-me . .

Paulinho Saturnino

rindodenervosoainda.blogspot.com

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O raio de sol iça minha alegria

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . na manhã desse Rio

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . de eterno verão.

..

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Dura pouco.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A dor que uma tal moça

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . mossa

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . no velho coração sofrido

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . impede futuro que seja.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A tarde sempre volta

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . caindo pra me lembrar

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . da insanidade contida

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . nos amores eternos.

..

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Moça, mulher,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . anseio pela tempestade

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . que te lavará

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . de minha lembrança.

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Veleidade

Cris de Souza

tremdalira.blogspot.com


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . releva a natureza da idade

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . nesse mar de identidade

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . não sou onda que se meça:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . posso surgir devastando

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ou sumir submersa

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Indolescência

Marcantonio

diarioextrovertido.blogspot.com


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Pareciam dezoito minutos,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . mas eram dezoito anos,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . e de repente fiz-me adulto

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . por engano, uma fraude:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . trinta primaveras depois

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ainda não nasceu em mim

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . a sisuda flor da maioridade.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Seria benção essa indolência,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . viver meio século de adolescência?

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Neverland

Betina Moraes

betinamoraes.blogspot.com


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . É meu aniversário,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o corsário do tempo

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . navega novo mar.

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Tudo está lá

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . já, adiante,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . até o nunca!

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Papel solitário,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . só calendário

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . trafega em segredo.


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Meus 18 anos meus

Wilden Barreiro

maracasecangalhas.blogspot.com


Eu queria tudo e não tinha nada. Nada. Nem nariz. Usava às vezes o do meu pai, mas principalmente o do meu avô, maior e mais disponível, ainda que sempre entupido. Então eu falei pros botões da minha camisa (que eram da minha madrinha): “Amanhã eu vou fazer 18 anos, e vou fazer pra mim, pra mim e pra mais ninguém.”

Naquela noite, eu gritei que tinha um rato dentro do guarda-roupa. Toda a família entrou na caça ao invasor, munida de vassoura, faca, garfo, serrote, estilingue, detefon... Meu avô, o mais lento, foi o último a entrar no armário, mas de bengala em riste. Quando passei a chave, todos desandaram a gritar, socar a porta, me xingar. Meu pai prometia uma surra especial, minha mãe e minhas três irmãs choravam, meu irmão carola rezava pra São Longuinho (não sei se pro santo achar uma saída ou o rato), o caçula se mijou de medo do escuro, o cachorro lambeu o pé do vovô, vovô pediu uma vela, pra procurar a dentadura que escapara-lhe da boca com o susto que tomou ao pensar que as lambidas do cão fossem do rato. Mas a vela (um cotoco de vela, a única que tínhamos em casa) já estava reservada pra minha festa de aniversário no dia seguinte.

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Anotações de uma jovem

Rita Santana

barcacas.blogspot.com


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Eu não diria a tristeza desse maio.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Haverá tempo para a amêndoa azedar o universo de carmim?

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..Os trabalhadores rurais, muito cedo, cheiram a sabonete Solis.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..E a solidão não desce do muro: espia minhas espinhas

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E tripudia com minhas esperas.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Vivaldi invade de alegria as tardes da memória:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..– Aos dezoito não se pode ser feliz!

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Desmaio! A noite esmagou a dança dos olhos

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E desfez o frio das canoas.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Preciso sair para outras ruas,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Poderei morrer amanhã,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Por isso, é preciso que saibam: amei.

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o prazer cálido das manhãs inexistentes

Patrícia Gonçalves

diasgenericos.blogspot.com


. . . . . . . . A maciez da noite cai translúcida

. . . . . . . . tímida ante seu olhar tremulo de moça jovem

. . . . . . . . a alma voa livre para encontrar o amor perdido na madrugada dos tempos

. . . . . . . . seu toque suave insiste na lágrima que molha caminhos

. . . . . . . . dedos ao acaso revelam um amor doído

. . . . . . . . seu olhar jamais volveu ao meu, e no entanto, ainda te busco nos

. . . . . . . . amanhãs que nunca chegam




tempo em chamas . . .

Jorge Pimenta

viagensdeluzesombra.blogspot.com


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .pela estrada
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .desci barragens e subi promontórios,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .chovi mágoas e acendi fogueiras
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .deitei-me sobre a terra e corri à beira-mar
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .naveguei artérias e perdi corações
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .anoiteci ao meio-dia e enganei primaveras.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .e, no final, o círculo do tempo
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .encosta o crepúsculo à aurora
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .como se o ontem e o amanhã se ligassem
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .pelo batom de lábios redondos
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .em permanente incêndio.




Velha é a vovozinha!

Ira Buscacio

irabuscacio.blogspot.com


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Espelho, que nada!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Vejo-me de olhos fechados,

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Inoxidável!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Na espuma do tempo,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Há essa adolescência

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Incurável.

..
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O que restou

Marcel Zaner

marcelzaner.blogspot.com


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Dos meus dezoito anos,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .passados mais dezoito,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .pouca coisa restou:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .a ânsia de entender quem eu sou,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .o pé atrás na vida amorosa,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .a incapacidade de ver nexo no real,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .a absoluta falta de fé nesta humanidade

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .endiabrada pelos deuses que cria,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .o medo de ter mais medos

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .além dos incontáveis que sempre tive,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .a preguiça, a dureza, a insônia

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .e esta sombra estúpida

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .que me segue feito um cão

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .e morde meus calcanhares,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .como a dizer: “Cresça, cara,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .para que eu apareça!”

.

...
.
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Novas veredas

Márcia Luz

marcialuzmg.blogspot.com


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .do desconhecido sei pouco

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .mas vou deixando os olhos se descarrilarem

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .pelas paisagens de açucenas

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .é que um dia chega a hora de os pés.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ... .t

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ... . . .. . ... .ri

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . .......... . ... .. ... lh

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .... ;..... . .. a

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .... . . ...... . . re

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ........ . . ......... m

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .............. novas veredas

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . sobretudo na tenra e terna idade

.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . viver é

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . (o)posição (s)em mudança

.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Empresto meu corpo às armadilhas do óbvio.

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Com Memorar...

Pólen Radioativo (Adriana Araújo)

polenradioativo.blogspot.com


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Este ano vou brincar de contar a idade que eu tinha

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Quando minha maior aventura era fugir pra outra rua

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Ou aquela quando me flagrei envergonhada menina

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Ao sentir o gosto da minha mão esbarrando na tua.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .A existência tem a medida do que dela não se furta:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Em cada luz que assopro, acendo no passado a alegria.


.
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Asas de fruto do mar

Seu Juca Sem Fio

(Recados, no bar do Luís, em Vila Valqueire, Zona Oeste do Rio)


Quem é de andar... anda / . e anda com ou sem as pernas, / . que o único entrave é o talho / . nas córneas d’alma, mal querência do fio / . do maldito horizonte comum.

Por isso, poucos andam, de fato, / . embora muitos pensem que sim, / . que andam, que caminham, que vão / . rumo aos rumos não-circulares / . vedados a eles, pobre diabos que / . apenas rodam a passo mecânico, / . ponteiros de relógio que são.

Ah, quem anda mesmo encontra o chão / . e, no chão, até o que é dos ares e das águas. / . Como essa moça que outro dia eu vi menina / . a saltitar pelas areias do céu de Bangu / . e a me gritar, bem lá da esquina / . de Vega com Aldebarã: – Ei, seu moço, / . aceita umas asas de fruto do mar?

Eu sorri, e lá veio ela atrás de mim, / . a me chover, por mais de légua ou légua e meia, / . uma garoa luminosa infinita de conchinhas / . que catava com os olhos alumbrados / . e pelo coração cuspia no mundo.

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Os quatro textos postados anteontem – de Ana Jácomo, António Cabrita, Jenny de Paulla e Assis Freitas:



Ana Jácomo

anajacomo.blogspot.com

Indagada, na entrevista, sobre aprendizados do tempo do casulo, a borboleta silenciou, movimentou as asas delicadamente, olhou para a margarida que acabara de abraçar, e sorriu. Contemplativa, revisitou na memória a atmosfera de alguns sentimentos que a pergunta lhe fez acessar. Findo o passeio, respondeu à repórter:

– Houve um momento em que o aperto foi tão extremo e aflitivo que eu imaginei não conseguir suportar. Eu nem sabia que, exatamente naquele ponto, a natureza tecia asas para mim, em silêncio, mas foi lá que senti que eu era feita também para voar. O aperto, entendi somente depois, era uma espécie de morte, um prenúncio da transformação, uma ponte que me levaria a outro modo de ser.

“É uma satisfação participar dessa homenagem. Toda felicidade para a Raíssa, que possa e saiba desembrulhar belos presentes ao longo do caminho.”Ana Jácomo

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O Coração maior que o Mundo

António Cabrita

raposasasul.blogspot.com

Ter aos 18 anos o coração maior que o mundo, diz o meu amigo de 19, é
uma “dramatulugia do caraças”, e os trens enamoram-se dos girassóis e
o silêncio apresenta-se dopado na linha de partida. Foi aos 18 que o
Plutarco afirmou ter visto uma lebre que mudava de sexo em plena
corrida. Há que dar passos maior que a perna e evitar que o coração
fique entalado no quarto – que pelo menos tenha tantas teclas como o
piano onde a Alice escondia os burriés. O resto é fado, mas nesta
dramatulugia quem não se estampa fica espampanante. É uma ulugia do
caraças, ainda que quem não raíssa não saiba.





Oficina

Bípede Falante

bipedefalante.blogspot.com

Desenrola os panos e os contornos para desvendar labirintos. Desenrola devagar, girando os punhos e as pulseiras como quem dá corda em relógios, provando da textura e da essência de cada segundo. Desenrola os ponteiros. Desenrola as horas. E, de cada uma, retira o anti-horário de acarinhar memórias. Depois levanta, salta, rodopia. Vai brincar de grão, calendário e aço, confundir as datas e as bússolas de quem se permite uma existência de abalar palavras.




Metamorfose apoteótica

O ritual de passagem do Livro dos Recém-Vivos

Jenny Paulla

jennypaulla.blogspot.com

. . . . . . . .Vista o eu com um punhal

. . . . . . . .E rasgue o caminho pela floresta sombria

. . . . . . . .Deixe-se levar pelos sons que tilintam de vasilhas penduradas em arames

. . . . . . . .Distantes

. . . . . . . .Feche os olhos Respire

. . . . . . . .Abra com calma o grande livro

.

. . . . . . . .Não tente lembrar todas as línguas que aprendeu na torre dos céus

. . . . . . . .Agora criará sua língua santa Imutável e despida de glorificações

. . . . . . . .Fará o ritual dos 18

. . . . . . . .E se embriagará com borboletas furta-cores, desenhos surrealistas e fractais

. . . . . . . .Afundará os pés descalços na terra molhada e sentirá a pulsação

. . . . . . . .Que floresce e emana das profundezas

.

. . . . . . . .Corra até perder todas as forças e chore pela dor que lateja

. . . . . . . .Anistia de todos os jazigos carregados

. . . . . . . .Largue-se

. . . . . . . .Completamente crua

. . . . . . . .Calmamente suculenta

. . . . . . . .Metamorficamente sua






poema de sedução para descaminho e descarrilo

Assis Freitas

mileumpoemas.blogspot.com

. . . . . . . . . . . . . . . . supostamente já tive idades mais queridas

. . . . . . . . . . . . . . . . em que sorriam verdes os lábios meus

. . . . . . . . . . . . . . . . o mundo era feito de alvíssaras

. . . . . . . . . . . . . . . . e eu nem tinha coração para imaginar


. . . . . . . . . . . . . . . . a sedução de tantos erros

. . . . . . . . . . . . . . . . na insólita passagem dos anos

.