quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Liberdade

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Luis Bento ... .

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. . . . . . . .À hora marcada os presos recolheram à rudeza fria e esfíngica das celas. Todos, excepto Manuel da Cruz de Sousa Tobias Lettermann. A kilometragem do nome não o impedira de tirar guia de marcha para a penitenciária com carimbo de dolo e burla agravada. Tomara todos os cuidados e precauções: unira-se ostensivamente aos indivíduos de maior índice de massa muscular por centímetro quadrado, untara as mãos aos guardas, habituara-se a olhar de soslaio por cima dos ombros, evitara deixar cair o sabonete no duche e passara uma estadia agradável e isenta de preocupações. As diversas contas em off-shore ali para os lados entre o cruzamento de Gibraltar com New Jersey almofadavam-lhe, comodamente, o sono na tarimba despida de lençóis e preconceitos. Contudo, a permanência no cárcere ao longo daqueles três anos, exacerbara-lhe o desejo e a ansiedade. A privação da liberdade, o carinho da mulher e da filha, os passeios de domingo, as viagens e as mordomias inerentes à qualidade de homem livre, eram chagas num crucifixo ferrugento arrastado, penosamente, num calvário de olho posto naquele dia gizado na parede. Foram sem conta, as cartas manuscritas numa caligrafia ávida de notícias, trémula de nervosismo e faminta de liberdade. Escrevia de rajada, sem pontuação porque não era concurso e sem acentos porque as relia de pé... Piada fácil de escritor, que acentuava a dor e a tormenta duma personagem farta dos exíguos metros quadrados do recreio, calcorreados numa "Ronda dos Prisioneiros" para a qual ele não tinha estofo. Mago de finança fraudulenta, sim! Mago da paleta, não! O daltonismo não lhe deixava margem para sentidos estéticos e pictóricos dignos de Rembrandt.

. . . . . . . .À hora marcada, vestido e perfumado, olhou uma vez mais para o relógio. Os portões começaram a rodar ruidosamente nos gonzos. Ouvia o bater compassado do coração atingir a velocidade da luz num nervosismo sem fim. O bater era cada vez mais forte, mais intenso, ensurdecedor, quase lhe cortando a respiração. Os portões giravam numa lentidão exasperante. Limpava o suor da testa com o suor das mãos. O esgar inicial tornou-se numa torrente de riso. Não agüentou mais! Com os portões escancarados num convite libidinoso, deitou a correr mal divisou a mulher e a filha no outro lado da estrada.

. . . . . . . .– GRRINCCHHHHH.!!! – Tarde demais... na ânsia, não reparara no camião basculante que se apresentava pela direita a alta velocidade... E ali mesmo, transformado em Ketchup, vendera a alma ao criador em papel de vinte e cinco linhas, livrança e estampilha fiscal...

. . . . . . . .MORAL DA HISTÓRIA: Podes querer ser livre, mas... convém olhar para a estrada!

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Liberdade é o título do post: o conto de Luis Bento não tem título na versão que extraímos de seu blog, aqui.

A foto original de Marian Chiriac tem enquadramento mais amplo, conforme pode-se ver em seu blog, aqui.

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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Humoristas tentando o Doutorado?

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Os comediantes Tiririca (ao alto), Batoré, Pedro Manso e Dedé Santana (acima) são profissionais que levam muito sério o humor. Os quatro são candidatos a deputado nas próximas eleições, o que denota que estão empenhados em enriquecer (seus conhecimentos humorísticos, é claro) estudando com a galera mais engraçada deste país.

Ou então... eles estão apenas fazendo a melhor piada de suas vidas e o tapado aqui é que não está entendendo mais nada!

.(Teophanio Lambroso)

Alguns Catedráticos do Humor no Congresso Nacional

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sábado, 11 de setembro de 2010

As cinco estações

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Outono

“As coisas boas que fiz na vida talvez fiquem por aqui“, pensou. “As más, estas vão comigo, ao vento... se é que ainda está ventando.”

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Inverno

Sou muito caloroso contigo, eu sei. Por isso mesmo é que estou partindo: não quero que te queimes no frio inclemente que começa a me tomar.

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Primavera

A primeira e última vez que vi flores enfeitando o nosso lar foi no dia em que a encontrei com o moço que me trouxera um ramo de chifres.

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Verão

----. .Muito prazer, meu nome não é o que me deram quando nasci, mas aquele que será, um dia, esquecido por todos.

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Cantagalo*

Saltando do metrô na Estação Cantagalo. Atravessando o Corte. Pensando, bêbado: “Vai ver, cortaram tão fundo na pedra foi pra livrar os cabritos das cantadas do galo.”

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.*O Corte de Cantagalo, no Rio de Janeiro, liga os bairros de Copacabana e Lagoa, e fica entre os morros do Cantagalo e dos Cabritos.

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Imagem: do blog Balela, da escritora e fotógrafa Raíssa Medeiros.

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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Office, sweet office – II

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Eu não gosto de ficar falando de trabalho fora dele. Mas, vocês vão me desculpar, hoje é inevitável.

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Há três semanas fiz uma postagem sobre o meu escritório (aqui), sem qualquer intenção que não a de apresentar a vocês, amigos leitores, um flagrante da minha árdua faina diária no cockpit de minha escrivaninha cativa na Adega da Praça. Não pretendia voltar ao assunto, mas... hoje é inevitável

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Imaginem que durante a semana retrasada bati ponto no escritório todos os dias, e ninguém me comunicou que haveria expediente extraordinário no sábado à tarde. Minto; o fotógrafo Americo Vermelho, membro da diretoria do blog Tira a mão do meu pé sujo, cujo escritório é geminado ao nosso nas dependências da Adega, comentou vagamente que talvez houvesse alguma atividade naquele horário. Mas não me revelou que o trabalho era de tal magnitude!

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Tratava-se, leitores, do trabalho que se vê na foto acima. Não era, reparem bem, um trabalho qualquer, já em fase de conclusão, praticamente pronto para ser arquivado. Não. Tratava-se de um processo, um volumoso processo em aberto... Eu diria até que em ESCANCARADO!

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E quando passei no escritório no próprio sábado, mas já de noitinha, do processo nada mais se sabia. O máximo que apurei é que teria sido enviado para uma vara de família, procedimento que considero imoral. Claro, pois quem não sabe que a nossa justiça, além de cega, é surda, muda e broxa, para dizer o mínimo? Portanto, o belo e volumoso processo passou o fim de semana numa vara inativa, sem ninguém que lhe desse a devida atenção carinhosa e ardente.

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Ora, sabendo que o escritório conta com um funcionário exemplar como eu, não seria mais lógico – e justo – que o processo fosse entregue aos meus cuidados? Todos sabem que eu viraria a noite se fosse necessário (e sempre é ) analisá-lo minuciosamente. Eu não hesitaria em sacrificar também todo o meu santo domingo para reanalisá-lo, com zelo redobrado, em seus mínimos, médios e máximos detalhes!

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Enfim, agora é tarde. O que me resta é continuar trabalhando com o afinco habitual e esperar que da próxima vez seja diferente. Porque – acreditem se puderem – é a 16ª ou 17 ª vez que um processo dessa grandiosidade surge no escritório sem que eu esteja presente. Sei não... ou sou o trabalhador mais azarado do mundo ou... tem traíra gorda no pedaço!

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Mais páginas do sigiloso e escultural processo

(clique nas fotos para ampliá-las)





Para folhear melhor todo o processo, veja o vídeo aqui.!!!


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O FRAMENGO precisa de você!!!

Não deixe de participar da nossa enquete (à esquerda), que visa à garantir ao time mais querido de Bangu I, II, III etc..uma sobrevida .nem que seja na segunda, na terceira ou (se o Senhor Jesus do técnico Silas ajudar) lá pela trigésima-sétima divisão do futebol brasileiro!!!.


quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Gotas Purgativas do Dr. Camelo

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“O que é que há de mais pesado para transportar?” — pergunta o espírito transformado em besta de carga, e ajoelha-se como o camelo que pede que o carreguem bem.


Vós dizeis-me: “A vida é uma carga pesada”. Mas, para que é esse vosso orgulho pela manhã e essa vossa submissão, à tarde?

No deserto têm vivido sempre os verídicos, os espíritos livres, como senhores do deserto; mas nas cidades residem os sábios célebres e bem alimentados: os animais de tiro.

Chamas-te livre? Quero que me digas o teu pensamento fundamental, e não que te livraste de um jugo.

Não me precaver: tal é a providência que preside ao meu destino.

E aquele que não quiser morrer de sede entre os homens deve aprender a beber em todos os vasos, e o que quiser permanecer puro entre os homens deve aprender a lavar-se em água suja.

O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher, o jogo mais perigoso.

Ai, meu irmão! Nunca viste uma virtude caluniar-se e aniquilar-se a si mesma?

Onde cessa a soledade principia a praça pública, onde principia a praça pública começa também o ruído dos grandes cômicos e o zumbido das moscas venenosas.

A nossa fé nos outros revela aquilo que desejaríamos crer em nós mesmos. O nosso desejo de um amigo é o nosso delator.

Desde que há homens, o homem tem-se divertido muito pouco: é esse, meus irmãos, o único pecado original.

Tranqüilo é o fundo do meu mar. Quem adivinharia que oculta monstros divertidos!

Realmente vive uma grande loucura na nossa vontade; e a maldição de todo o humano é essa loucura haver aprendido a ter espírito.

A mudança dos valores é mudança de quem cria.

É preciso honrar no amigo o inimigo. Podes aproximar-te do teu amigo sem passar para o seu bando?

Não poucos, que queriam expulsar os demônios, se meteram com os porcos.

Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar.

É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante.

Que pelo menos Nietzsche me perdoe por esta “exploração comercial” de trechos do seu Assim falava Zaratustra (eBookLibris, tradução de José Mendes de Souza). Porque o prof. Auterives Maciel certamente não me perdoará pela foto fora de foco.

(Divido a culpa com o prof. Marcelo Nicolau, que a publicou no Facebook.)

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Cuidado! Uma dessas gotas não pingou do Zaratustra. Para descobrir qual é, basta ler o livro inteiro.

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