domingo, 14 de novembro de 2010

Paulista de cabeça chata

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Teophanio Lambroso . .

Meu parceiro Tuca Zamagna anda todo empolgado com o novo CD de sua amiga Simone Guimarães, cantora e compositora de Santa Rosa de Viterbo, megalópole paulista cuja periferia abrange cidades como Franca, Sertãozinho e Ribeirão Preto. Para o Tuca, o disco, que será lançado em dezembro, é um dos mais bonitos que ele ouviu nos últimos tempos. Disse que ficou muito comovido com a escolha do repertório, todo ele de músicas cearenses, compostas por um tal de Isaac Cândido e letradas por diversos poetas, todos também cabeças-chatas da terra do Fagner – que aliás dá as caras (a tapa?) nessa bolachinha, intitulada Cândidos.

Nem ouvi o CD e já não gostei. Minha indisposição já começa pelo título. Por que Cândidos? Esse nome lembra o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, que passou a vida toda mais preocupado com os índios do que com os inúmeros deveres de um graduado oficial na caserna. Lembra também o João Cândido, arruaceiro naval cognominado o Almirante Negro, por liderar a famosa Revolta da Chibata. Ora bolas, se era para homenagear alguma alta patente militar indisciplinada, que o CD se chamasse Castelos brancos, que além de soar muito mais poético homenagearia um indisciplinadíssimo marechal cearense – Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro ditador empossado pela trupe de trapalhões golpistas de 1964.

Pra piorar, o Tuca ainda veio me dizer que o Isaac Cândido é um puta talento, compositor de melodias sofisticadas e harmonias ousadas. Ah, sai pra lá. Talento pra mim têm os compositores de funk, pagode e forró eletrônico, que fazem as tchutchucas e preparadas sacudirem o esqueleto bem forrado de filé mignon e abanarem o abundante rabinho, encachorradíssimas pra cima do Teopha aqui. Isso, sim, é sofisticação e ousadia que tocam o coração e outros órgãos pulsantes do canalha do bem que vos bloga!

Não estou nessa, não, meu caro Tuca. Vão você e o (Brigadeiro?) Isaac procurar sua turma, que é essa com a qual a Simone Guimarães vive metida, nos palcos, nos discos e nas parcerias: Milton Nascimento, Dori Caymmi, Francis Hime, Ivan Lins, Toninho Horta, Guinga e outras estrelas que não brilham nem jamais brilharão no céu enluarado de mulheres lindas e gostosas do universo teophânico!

Pra não dizerem que não sou justo

A paulista Simone Guimarães nega a "raça", ao seguir na contramão da última moda em São Paulo, que é atacar ferozmente o povo nordestino, o qual, segundo uns autonomeados porta-vozes da classe média de Sampa, estaria eclipsando a cultura paulista e brecando o desenvolvimento político-econômico de seus próprios e superiores umbigos.

No entanto, para ninguém dizer que estou sendo injusto com a moça, psicografei de próprio punho uma mensagem (não do Além, que pra defunto não dou essas intimidades) da Simone Guimarães quando criança (essa da foto lá em cima). Pedi a ela, naturalmente, autorização para publicar o manuscrito aqui. Como a cantora me garantiu que nunca disse nem escreveu o que está no texto por mim recebido do passado, façamos de conta que a mensagem é mera ficção. (Mas, cá entre nós, leitor(a) amigo(a): veja como a garotinha já dava toda a pinta de que um dia trairia, com ímpios nordestinos, a casta casta mediana paulista de cujo ventre a ingrata nasceu!)

Mensagem do Aquém

Alô, ceguetas: cliquem na imagem para ampliá-la!
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A palavra mágica

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Ao companheiro Horacio Companheiro

Era uma vez, muito tempo atrás, dois meninos que viviam em lados aparentemente opostos: Luisinho engraxava sapatos, com a graxa que a família de Zezinho fabricava. Um dia, calhou de Zezinho ter seus sapatos engraxados justamente por Luisinho. E Zezinho logo percebeu que Luisinho conversava muito melhor do que engraxava sapatos.

– Onde você estuda, Luizinho?

– Estudar? Não tenho tempo pra isso, não. E você, Zezinho?

– Também larguei os estudos faz tempo. Por falta de tempo também.

– Você engraxa onde?

– Em lugar nenhum. Nunca engraxei sapatos.

– Nunca? E como um menino pode levar a vida sem engraxar sapatos?

– Às custas de vender a graxa que os meninos que engraxam sapatos usam.

– Puxa, Zezinho, então nós somos dois diferentes praticamente iguais!

– E não é que é isso mesmo, Luizinho? Bem que eu percebi que você falava muito melhor do que engraxava sapatos.

Serviço terminado, Luizinho guardou a graxa e a escova na caixa de engraxate, pendurou-a nas costas e saiu caminhando e encompridando a conversa, orgulhoso e envaidecido do brilho dos sapatos de Zezinho, também orgulhoso e envaidecido de merecer a conversa brilhante que estava tendo com Luisinho. Conversa vai, conversa vem, acabaram chegando a uma ladeira que levava a um palácio no qual parecia que dois meninos como eles podiam fazer muita coisa boa juntos, desde que descobrissem, segundo Zezinho, a palavra mágica que abria as portas do palácio.

– Que palavra será essa, companheiro?

– Eureka!

– Eureka?

– Não, Zezinho. Companheiro!

– Companheiro, companheiro?

– Sim. Você descobriu a palavra mágica: companheiro, companheiro!... Veja.

As portas do palácio acabavam de se abrir.

E eles trataram de subir a ladeira, juntos, e entrar no palácio. Lá dentro, fizeram muita coisa boa juntos durante vários anos. Não todas que sonhavam fazer, mas muita, muita coisa boa. Dentre elas, outra descoberta importante: a de que a palavra mágica abria muito mais do que as portas daquele palácio, porque era ela a chave-mestra para abrir as portas de todos os palácios do mundo.

Daqui a pouco, os dois meninos vão deixar o palácio. Descendo a ladeira juntos, deseja Luisinho. Juntos, sim, garante Zezinho, mesmo que um deles não possa fazê-lo de corpo presente. Porque não há palavra nesta vida, nem em outras que porventura existam, companheiro leitor, que possa fechar as portas que ligam dois companheiros de verdade.

W..... ............... M..... ............... W

A história de Luisinho e Zezinho me foi contada pelos olhos desses senhores que aparecem na foto acima. Mas a palavra mágica, eu já a conhecia há mais de 30 anos. Há uns 25, quando o seu poder mágico era reconhecido e respeitado por quase todos os brasileiros, escrevi o texto que está no boxe abaixo. Uma sátira ao seu uso generalizado nos meios sindicais e também entre os integrantes do jovem Partido dos Trabalhadores. Hoje, republico esse texto em homenagem ao companheirismo de Luisinho e Zezinho.

Clique para ampliar.!!!

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sábado, 30 de outubro de 2010

Mulher em drágeas

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Um desejo a mais

Deseja tanto quanto desejava antes. Não, deseja mais. Deseja que o mar de possibilidades que evaporou no tempo evapore também no desejar.

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Malabarismo

A necessidade de entendê-la era um veneno. Troquei a consciência pela fé nos seus desejos. Deu certo, mas só eu sei quanto isso me custava.

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A cerimônia

Não se atrasara a arrumar-se, mas quando chegou à igreja o noivo já não a esperava. Nem os convidados, que foram todos para o velório.

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.Caramelada

Chegou correndo, brilhante de suor. O olhar de mel derramava-se: “Vamos?” E o hálito de caramelo enredou-me para sempre.

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Traição

Nunca traiu o marido de verdade. Traía, isto sim, o terrível medo de atravessar as noites sozinha.

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O sonho dos homens

As três eram meigas, discretas, bem-humoradas. Dariam ótimas esposas, ele sonhava. Mas o pai delas, não: queria porque queria três genros.

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Fogo de artifício

Nenhuma dor ou concessão era maior que o prazer de dominar. Enlouquecia os homens, enquanto ia construindo sua solidão fria e sem cor.

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O homem dos sonhos

Cobria-se de sedas, jóias, cosméticos e perfumes, à espera do homem dos seus sonhos. Quando ele enfim surgiu, não viu nada: olhava somente para dentro dela.

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Imagens:

Um desejo a mais – Juan Carlos Eberhardt jceberhardt.blogspot.com

Malabarismo – thehottestshit.blogspot.com

A cerimônia – Sheyla Castellanos Romero pintoracubana.blogspot.com

Caramelada widelec.org

Traição Spicy Mistery (agosto – 1935)

O sonho dos homens mariacaleis.blogspot.com

Fogo de artifício – Christian Fernandez Glazer dealma-da.blogspot.com

O homem dos sonhos Calendário Eizo apollonnews.blogspot.com

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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

35 anos do "suicídio" de Herzog

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Perícia para Vladimir Herzog*

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . 25.10.1975. –– .25.10.2010 .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Ricardo G. Ramos .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Resta hoje o inquérito

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Porque o corpo sem voz

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Não serve mais

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Nem corre nem nada

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Porque no corpo sem vida

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Não batem mais

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Resta

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .A dificuldade técnica

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Do morto

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Subir no colchão

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Do morto

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Na grade metálica

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Da laçada de nó corrediço

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .De uma cinta de tecido verde

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Eis a dificuldade única

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Do morto suicidar-se

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Do morto assinar-se

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Na TV colorida do sábado


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . *do livro O Santo Sumário




Suicidado pela ditadura

O jornalista Vladimir Herzog, 38 anos, casado, pai de dois filhos e diretor de jornalismo da TV Cultura, foi encontrado morto, supostamente enforcado, nas dependências do 2ª Exército, em São Paulo, em 25 de outubro de 1975, durante o governo do ditador Ernesto Geisel. No dia seguinte à morte, o comando do Departamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), órgão de repressão do exército brasileiro, divulgou nota oficial informando que Herzog havia cometido suicídio na cela em que estava preso.

A versão oficial foi refutada pelos movimentos sociais de resistência à ditadura militar. Uma semana após a morte do jornalista, cerca de oito mil brasileiros participaram de uma missa ecumênica organizada por D. Paulo Evaristo Arns, pelo reverendo James Wright e pelo rabino Henri Sobel.

Três anos depois, no dia 27 de outubro de 1978, o processo movido pela família de Herzog revelou a verdade sobre sua morte. A União foi responsabilizada pelas torturas e pelo assassinato do jornalista. Foi o primeiro processo vitorioso movido por familiares de uma vítima do regime militar.

Fonte: PortalTerra

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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Faça Você Mesmo - II

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. . . . . . . . . . . . . . Prof. Edson Rocha Braga

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Dito chistoso

Pegue um dito comum, condensado e de peso reduzido. Ou seja: pegue leve.

Examine o dito cujo cuidadosamente por todos os lados, de modo a assegurar-se de que esteja completamente destituído de sujeiras ou duplo sentido.

Acrescente ao propriamente dito um adjetivo sonoro, porém incolor, inodoro e de transparência leitosa. Apare bem as pontas, com uma lixa de unha.

E voalá! Está pronto o seu Dito Chistoso. Moderno, limpo, inédito e personalíssimo.

Usado apropriadamente, irá render-lhe saúde, prosperidade, poder, fama e total satisfação sexual, embora sempre com o risco de um ou outro incômodo cachação no pé-do-ouvido. Enfim, nada é perfeito.

Importante: para nunca ter que dar o seu dito por não dito, use-o somente após lavar a boca com sabão de coco e bombril. E dedique-o à sua querida mamã, com um beijo no coração.

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Esta postagem é patrocinada pelo CONCUCOPERBRARB Conselho dos Cupinchas de Copo do Prof. Edson Rocha Braga no Rio-Brasília. O bar, o conselho, o professor e os copos (sempre cheios de cerveja geladíssima) ficam na Av. Nossa Senhora de Copacabana, em frente à Rua Inhagá, em Copacabana.

(Este patrocínio garante aos quatro diretores do desinformação seletiva a bagatela anual de 2 (duas) cervejas, per capita, no pendura!)

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Ilustração principal: extraída (e photoshopeada) do Blog do Dito
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domingo, 17 de outubro de 2010

Cinco contos de réis

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Coro

Cochilava na rede, a ouvir os adultos tagarelarem na sala. As vozes viraram música, um coro que embalava sonhos de paz e eternidade.


Pseudo-vegetarianismo

A pouca habilidade com facas e raladores sempre comprometeu a sua culinária vegetariana.


Limpeza

Catou meias, cuecas, tênis e outras peças espalhadas pela casa. Ensacou tudo e jogou no lixo, enquanto se indagava, sem dor, por que não vira pelo chão qualquer vestígio de afeto.

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Ego

“O universo é infinito” ––odisse, apontando para si mesmo. “Maior que ele” –– ocorria as mãos pelo ar ––o“só eu.”


Multiplicação

Seu amor era pelos meus seios. E se multiplicou até a exaustão, sem que ele nunca se apercebesse que, logo ali atrás, alguma coisa em mim pulsava.