quinta-feira, 20 de maio de 2010

Entralhar as malhadeiras

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Dez bobajadas

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Antonio Rebouças Falcão . . . . . . .

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1. "Entralhar as malhadeiras": significa costurar redes de pesca na Amazônia, mas também dilacerar-se em raiva aqui dentro de mim, sem razão aparente.
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2. Minha cabeça me obedece ou obedeço à minha cabeça? Com essa elucubração, mergulhei para dentro da noite, sem nenhum pingo de sono.
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3. O sonho contado é como queijo que já vem ralado, cuja autenticidade não pode deixar de ser suspeita.

4. A missa certamente é a imaterialidade que se faz rito e verbo, para mais tarde desfazer-se e, novamente, apresentar-se névoa. Na infância, a gente era obrigado a não entender.
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5. Os cachorros têm, sem sombra de dúvida, muitas virtudes; mas um único e letal defeito: latem. Duas vezes com serventia; nas outras, intragável groselha.
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6. Fumar gostosa e distraidamente um cigarro, tendo por retaguarda uma criança tagarela e pau-mandado a dizer "fumar faz mal à saúde" firma-me a convicção de que o repressor nasce reprimido; ou por outra: o torturador nasce torturado.
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7. Quando ouço um "educador", a dois passos de mim, dizer coisas como "há males que vêm pra bem" ou "o pior cego é o que não quer ver", sinto-me honestamente, no mais fundo de mim, um homicida sem culpa e sem pecado.
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8. Uma fervorosa burocrata da educação é uma senhora de 150 anos e quilos, semianalfabeta e claudicante, que senta à mesa e vocifera: "Quero examinar, em papel, a escrituração errada!". Há um outro tipo: chegou da França e ainda não desfez as malas. Vocifera o que soube de orelhada, mas na tela.
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9. Com roupas de ginástica, celular, ipod e sorriso de freira, senta-se cansada e feliz, cheia de autoestima e qualidade de vida. Por que essa gente não morre ou desaparece logo? Seria profilático.
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10. Li em algum lugar algo parecido:
- O que você faz para conservar-se tão jovem e com essa pele de porcelana?
- Bebo gim pouco a pouco e sempre. É o que funciona.

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Texto e ilustração foram extraídos do blog do autor:

Dilema paulistano

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domingo, 16 de maio de 2010

Quatorze contos de réis

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1. Quebra-cabeça

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Ela ruiu por completo, mas aos poucos foi se remontando, como num quebra-cabeça. No fim, faltava uma peça: justo a que a levara à ruína.

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2. O traidor

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Toda palavra sua era medida, exata. Os gestos, enfáticos e convincentes. Só o coração destoava, batucando descompassado o desvario a caminho.

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3. Como convém

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Sobrevoou a cordilheira movediça dos automóveis. Qual deles o catapultara, não sabia – como convém aos atropelados que têm morte instantânea.

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4. Meteorologia

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Olhar pela janela o céu azul causou-lhe um bem estar profundo. Porém, breve. Sua mulher continuava nublada, sujeita a chuvas e trovoadas.

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5. Hierarquia

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O canoeiro viu uma pedra que falava. Tratou de embarcá-la e levar para casa. Mas a canoa virou – no rio, que falava mais alto que a pedra.

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6. Silêncio injusto

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Ele justificou-se, chorando; caiu de joelhos, suplicando perdão. Mas ela se foi, sem dizer nada, sem sequer aplaudir o seu ótimo desempenho.

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7. Inseparáveis

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Cresciam juntos, amigos inseparáveis. Aos 3 anos, o menino montou-o pela primeira vez: “Vamos, mano!” E o potro disparou, sumindo no mundo.

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8. Mau caráter sem jaça

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Transgressões, cometeu todas. Crimes, só os vantajosos. Morte, uma única – e a contra-gosto: bem que tentou burlar a derradeira lei da vida.

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9. Notícia boa

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Ele vinha muito deprimido há tempos. Liguei-lhe, e sua mulher, exultante, deu-me a notícia boa: “Está ótimo, hoje até gritou comigo!”

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10. Auto-escultura

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Na lida da extração de cimento preenchia, no ritmo da respiração, o estofo do próprio busto – com a concretude da silicose pulmonar.

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11. Sorte

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Certa manhã, Gregor Samsa poderia ter acordado e se visto metamorfoseado num monstruoso inseto. Por sorte, haviam dedetizado a casa.

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O fim do mundo

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12. O mundo vai acabar em breve , leu no jornal, às gargalhadas. “Eles falseiam todo dia o ontem, que dirá o amanhã.”

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13. Beleza e dor

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Em cada cova, três grãos de milho e um brilhante roubado. O milharal vicejou bonito, mas muita minhoca sofreu para descomer as pedras.

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14. À mercê dos ventos

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Exausta de tanto caminhar, sentou-se à beira do caminho, à mercê dos ventos que, pouco a pouco, a levariam de volta ao nada de onde partira.

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Leia mais 13 contos de réis aqui, 12 aqui e 11 aqui.

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sábado, 15 de maio de 2010

Um conto de réis enquanto os 14 não vêm

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.Aritmética existencial

Somava fracassos, diminuía-se perante todos, multiplicava dívidas. Dividiu-se, enfim: metade mandou tudo à merda, metade foi com tudo a ela.

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quinta-feira, 13 de maio de 2010

A pátria de chuteiras... de chumbo!

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Não queria comentar aqui no blog sobre a Seleção Brasileira. Não sou bom cronista esportivo; e de maus cronistas esportivos a grande mídia já está abarrotada. Nem do título de campeão carioca recém-conquistado pelo Botafogo, meu time, eu falei aqui. Mas não consegui amordaçar todos os meus nove cotovelos (pelas minhas modestas contas; meu amigo Hélio Jesuíno diz que são bem mais). Tarefa impossível, diante das asneiras ditas pelo Dunga por ocasião do anúncio oficial da sua pífia lista de jogadores convocados para a Copa.

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Não que falar asneira seja algo incomum na curta carreira de treinador do ex-cabeça de bagre canarinho. Pelo contrário, emitir zurros é um hábito que ele cultiva com esmero, tanto que fez questão de ter como auxiliar-técnico o Jorginho. Sim, aquela cavalgadura carola que, tempos atrás, ao assumir a direção técnica do time do América, propôs a excomunhão do tradicionalíssimo símbolo do clube – o diabo –, sugerindo, para substituí-lo, a celestial imagem da águia norte-americana!

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Mas o que me incomodou mesmo, dentre as várias besteiras proclamadas em tom patriótico pelo Dunga, foi aquela tentativa de justificar os seus critérios de convocação afirmando que só sabe daquilo que presencia e que, portanto, não poderia dizer, exemplificou, “se a ditadura militar foi boa ou não”. Valei-me, todos os mártires da quartelada! Devo deduzir que o católico Dunga, provavelmente de braço dado com seu evangélico assistente exorcista, testemunhou a crucificação e a ressurreição de Cristo?

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Ora, mano Caetano (este é o segundo nome – altamente sugestivo, não? – do treinador que fala tanta bobagem), você nasceu no ano anterior ao do golpe de 64. Como conseguiu passar toda a infância e adolescência sem tomar conhecimento de que vivíamos sob um truculento regime militar? Além do mais, como jogador e treinador de Seleção, você é um dos filhos da grande mãe de todos os treinadores que passaram pela Seleção em Copas do Mundo nos últimos 40 anos: Zagallo, o que trouxe, no auge das trevas ditatoriais, a Taça Jules Rimet de vez para nós – ou melhor, para os ladrões que a derreteram e venderam o seu ouro.

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(Obs.: Telê Santana não passou pela Seleção; a Seleção é que passou por Telê Santana em duas Copas, sem guardar, infelizmente, as lições de futebol que ele deixou.)

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Sim, Dunga, você é um zagalídeo (trocadilhando com o Dr. Toledo, por favor), como Parreira, Coutinho, Lazaroni e Felipão. Uma gente que gosta pouco de futebol e demais de resultado. Uma gente cheia de teorias e crenças duvidosas, como essa de que o importante é o grupo, ou a de que jogador precisa ser testado com a camisa amarela antes de ir a uma Copa do Mundo.

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As teses fundamentais do futebol de resultado

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Citei essas duas teses, especificamente, porque ambas foram lançadas na Seleção por Zagallo. A do “grupo" tem como referência o grupo campeão de 70, que o vaidoso e arrogante “vencedor de quatro copas” diz ter sido criado por ele. Mentira. Ele herdou o grupo que João Saldanha havia convocado para a Copa e fez o possível para piorá-lo, cometendo as seguintes barbaridades:

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. . . . . - Convocou o trombador Dario, para satisfazer o ditador Médici, ficando com dois homens de área típicos (o outro era Roberto) e nenhum reserva com as características de Pelé e Tostão;

. . . . . - Cortou o ponta-direita Rogério, machucado, e convocou um terceiro goleiro, Leão, deixando Jairzinho sem reserva;

. . . . . - Encaixou Rivelino no time, o que foi ótimo, mas levou para o México os dois pontas-esquerdas convocados por Saldanha, porque não teve peito para cortar o Edu e enfrentar a fúria dos paulistas;

. . . . . - Cortou o grande Dirceu Lopes, deixando Gérson sem substituto, e levou dois reservas (Joel e Fontana) para o improvisado quarto-zagueiro Piazza, o que fez também com que Clodoaldo não tivesse quem o substituísse. Dizem que o cortado seria o Fontana, como era mais lógico, mas que o violento zagueiro do Vasco, ao ser comunicado de seu corte, deu um soco na mesa e ameaçou matar o Zagallo, fazendo-o voltar atrás e cortar o meia do Cruzeiro. Há pouco tempo, o próprio Dirceu Lopes confirmou essa versão, dizendo ainda o seguinte: “Eu era muito tímido, não sabia bater na mesa.”

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E esse foi o grupo que inspirou a “tese do grupo”...

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A amarelinha e o amarelão

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Quanto à outra tese, a do teste com a “amarelinha”, ela tem o seu fundamento mais importante forjado lá mesmo, na Copa de 70, com a “amarelada” do jovem lateral-esquerdo Marco Antonio. O fato é notório, indiscutível. Só que Marco Antonio amarelou não porque tivesse pouca idade, mas porque era naturalmente complicado, tanto que continuou amarelando durante toda a carreira. E mais: Clodoaldo e Paulo Cesar, que eram tão pouco experientes quanto o amarelão, não amarelaram. Como Edu, que tinha a mesma idade de Marco Antonio, não teria amarelado se tivesse sido escalado: quem estreou no time do Santos com 16 anos, jogando ao lado de Pelé e Coutinho e comendo a bola, só amarelaria de vergonha, por não ter a menor chance de ser titular naquela seleção - como não teria em qualquer time dirigido por Zagallo, que não gostava de ponta-esquerda muito ofensivo, só dos que jogavam recuando para marcar, à imagem e semelhança da “formiguinha” de 58 e 62.

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E o fantasma do amarelão passou a assombrar uma sucessão de treinadores frouxos, fechando as portas da Seleção para inúmeros jovens talentosos que podiam ter reforçado o time do Brasil em várias Copas de lá para cá. Alguns exemplos retumbantes:

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. . . . . - Em 74, Zico. Mesmo após a contusão de Leivinha, Zagallo não convocou a maior revelação do futebol brasileiro da época. Preferiu chamar o Mirandinha, que chutava com a canela mas tinha experiência. E não é que Zagallo até hoje se gaba de ter “descoberto” o Zico, lançando-o no time do Flamengo em 72?

. . . . . - Em 78, Júnior e Falcão, já então titulares absolutos no Flamengo e no Inter, respectivamente. Claudio Coutinho preferiu improvisar Edinho, ótimo zagueiro mas lento como lateral-esquerdo, e levar o grandalhão e violento Chicão, abrindo mão do futebol refinado dos dois “inexperientes” craques.

. . . . . - Em 94, Ronaldo Fenômeno e Roberto Carlos. Ronaldo só foi à Copa porque Parreira, pressionado por toda a imprensa e opinião pública, convocou-o para o último amistoso preparatório. Lançou-o em campo no final do segundo tempo, só para não dizerem que não dera chance ao garoto. E não é que o raio do artilheiro inexperiente entrou e comeu a bola, fazendo até gol? Ah, mas naquela final que a Itália estava pedindo para perder não cabia lançar o craque. Melhor era botar o pesado Viola, que era medíocre mas tinha experiência. Quanto a Roberto Carlos, considerado por todos o melhor lateral-esquerdo do Campeonato Brasileiro daquele ano, perdeu a vaga para o velho “homem de grupo” Branco, que mesmo contundido foi convocado para ser o reserva de Leonardo – o jovem mas experiente jogador que fez aquela lambança no jogo contra os Estados Unidos e foi excluído da Copa. Por sorte nossa, parece que os holandeses ignoravam que Branco não estava 100% e que tinha chute forte e preciso, quase tão forte e preciso quanto o do inexperiente Roberto Carlos.

. . . . . - Este ano, Paulo Henrique Ganso – o melhor dentre os armadores jovens, habilidosos e inteligentes que surgiram ultimamente, todos mais criativos do que os que fazem parte do “grupo”. Ou alguém que torce para um clube grande sonha em ver brilhando no meio-de-campo do seu time “craques” como Elano, Felipe Melo, Ramires, Kleberson, Julio Batista etc. São tão medíocres que não será nenhuma surpresa se os dois laterais reservas (Daniel Alves e Gilberto) acabarem ganhando uma vaguinha ali no meio.

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Li há pouco que o Botafogo já acertou com o Hoffenheim, da Alemanha, o retorno do Maicosuel. Tomara, porque taí outro “inexperiente” que joga mais bola que toda a cambada de meio-campistas do Dunga, com exceção do Kaká, é claro.

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A colagem que ilustra este artigo foi feita a partir de outra – esta, abaixo, de John Heartfield, um dos precursores da técnica.



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sexta-feira, 7 de maio de 2010

Treze contos de réis

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1. Água-viva

Miúda e tímida, chegava e nem era percebida. Que a

molestassem, porém, por intento ou descuido, para ver o quanto

ardia tanta transparência.

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2. Tarde demais

Concluiu que a vida é para ser vivida, mas tarde demais: não tinha onde sepultar o enorme cadáver do nada que vivera até então.

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3. Feia e azarada

Era uma lagartixa tão feia que só conseguiu seduzir um sapo. Que logo estragou tudo, virando príncipe.

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4. O Fim da espera

Cansou de esperar. Por qualquer coisa, até mesmo pelo sinal abrir. Então abandonou o carro e foi, calmamente, a pé para casa.

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5. Queira Deus

Na casa dos espelhos, já não sabia qual das mil imagens do filho era ele. Catou quantas pode e saiu. “Queira Deus que uma dessas seja ele.”

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6. De verdade

Um cara inteligente, sensível e verdadeiro. Assim se via, até descobrir que a única mulher que amou de verdade era uma grande mentira.

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7. O olho

É cega de um olho, mas isso não me incomoda, não.

O problema é o outro, que enxerga demais.

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8. Guardados inúteis

Nem lembrava mais o que havia no baú. “Se nunca precisei de nada, ele vai é pro lixo.” Foi preso, tão-logo acharam a ossada da ex-mulher.”

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9. Perguntas

Por que tenho de trabalhar? Para que ter casa, mulher, filhos? Tais perguntas nunca mais se fez, desde que, há muito, saiu a andar por aí.

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10. O intermediário

Amava-o ainda, não tivera ninguém depois. Quando ele quis voltar, ela disse não. Acostumara-se a falar para as paredes, sem intermediário.

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11. Anão gigante

.“Dou o que você quiser, Diabo, para me tornar grandão”, disse o anão. Agora tem 2 metros de altura, mas reclama muito de fazer xixi sentado.

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12. O terço final

Um terço da vida a juntar retalhos; mais um terço, a emendá-los. Com a colcha pronta, cobriu-se toda, emendando o terço final na eternidade.

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13. Trocas

Trocou os patins pela bicicleta, a bicicleta pelo carro,

o carro pelo barco a remo. Remaria para alto-mar,

já de olho num submarino.

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Leia mais contos de réis: 12 aqui e 11 aqui.

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quinta-feira, 6 de maio de 2010

O inconsútil Hélio Jesuíno

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Além de ser um dos maiores artistas gráficos do país, o Hélio Jesuíno é o cara mais chato do mundo. E isso é um elogio, considerando que ele me considera o ser – ou até o não-ser – mais chato do universo. Mas quando nos encontramos, somos compassivos um com o outro, e só praticamos o Bem – no mais elevado sentido, qual seja o de encher a cara e falar mal do resto da humanidade.

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Não, a ilustração acima não é um auto-retrato dele (isso seria impublicável!). É apenas um detalhe de uma das obras que compõem a sua Suíte Inconsútil, em exposição de 13 de maio a 5 de junho, na Casa Benet Domingo, em conjunto com trabalhos de Rogério Camacho. Saiba mais sobre a mostra no convite abaixo, clicando para ampliá-lo.

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Contos de réis: vêm mais 13 aí, já, já!

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É só uma provinha. Os outros 12 estarão saindo do forno antes do pôr-da-lua!

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