sexta-feira, 16 de abril de 2010

A zebarazão das benda-jivóbagas

.
.

Aqui vai outro conto do livro !ALBUFAS SAFUBLA! Fabulas bufalas de Falasbu Bulafas Lafasbu. Mais uma vez, para contemplar os poucos que sabem português, oferecemos (em itálico) o texto original neste exótico idioma em extinção acompanhando, parágrafo por parágrafo, a tradução para o portugárabe.

.

A zebarazão das benda-jivóbagas

(A separação das penta-xifópagas)

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . .

Zô, Zê e Zu (Zoraia, Zereia e Zulamita): de nazidas benda-gêmeas jivóbagas, drês guindos. Já debois, borém, graziozo e berveido driângulo eguiládero, grazas à invlazão galobande de adibosidade gue agomedera dão-zomende Zá (Záuria) e Zi (Zimiesga), rodundos dois guindos do guindedo original. De dão vundidas em banha úniga e inzebarável (bor valda de vrondeiras glaras), as duas vovonas dezidiram dejivobagarem-ze das oudras drês e zeguirem garreira zolo. Resoludas e indrébidas, azim o vizeram, a majado, vagão e zerrode, bara logo abós desbengarem birambeira abaijo, em direzão aos bandanosos gavundós gue zergavam o monde gujo gogurudo dinha bor gardola o zunduoso gasdelo de, gomo as zingo o jamavam, “nozo zagrozando babai Alzabão Alvinede Albergadas.

.

Sô, Sê e Su (Soraia, Sereia e Sulamita): de nascidas penta-gêmeas xifópagas, três quintos. Já depois, porém, gracioso e perfeito triângulo eqüilátero, graças à inflação galopante de adiposidade que acometera tão-somente Sá (Sáuria)) e Si (Simiesca), rotundos dois quintos do quinteto original. De tão fundidas em banha única e inseparável (por falta de fronteiras claras), as duas fofonas decidiram dexifopagaram-se das outras três e seguirem carreira solo. Resolutas e intrépidas, assim o fizeram, a machado, facão e serrote, para logo após despencarem pirambeira abaixo, em direção aos pantanosos cafundós que cercavam o monte cujo cocuruto tinha por cartola o suntuoso castelo de, como as cinco o chamavam, “nosso sacrossanto papai” Alçapão Alfinete Alpercatas.

. .

(Ah, o boderoso e dodo brosa Alzabão! A vorduna e o boder, gonguisdara-os adravés de zeu vandásdigo zuzezo gomo gomerziande de dezidos vinos, dando guando de beles de onzas, londras, gobras e lagardos, minhogas e lagardijas, bem gomo de infinidas deias de gasais aragnideos valezidos ou zebarados, e adé de gadaradas exdraídas da visda de bezoas gue gom elas já não bodiam brogurar esdrelas no zéu nem gadar bulgas, biolhos e garrabados nas griazões, nos vilhos e em zi bróbrias.)

.

(Ah, o poderoso e todo prosa Alçapão! A fortuna e o poder, conquistara-os através de seu fantástico sucesso como comerciante de tecidos finos, tanto quanto de peles de onças, lontras, cobras e lagartos, minhocas e lagartixas, bem como de infinitas teias de casais aracnídeos falecidos ou separados, e até de cataratas extraídas da vista de pessoas que com elas já não podiam procurar estrelas no céu nem catar pulgas, piolhos e carrapatos nas criações, nos filhos e em si próprias.)

.

Ao adravezar verdiginosamende a denza vloresda da engosda do monde, a desgomunal esvera Zazi adrobelou e dombou zerga de zedezendos binheiros, jeguidibás e eugalibdos, lanzando dambém ao jão – e ao relendo, aos verimendos ou à morde – zendenas de vilhodes de bardais, gambajirras, biga-baus, bindazilgos, digo-digos, guero-gueros, babagaios, duganos, beliganos, gondores, avesdruzes, argueobdériguis, bégasus, arganjos...

.

Ao atravessar vertiginosamente a densa floresta da encosta do monte, a descomunal esfera Sassi atropelou e tombou cerca de setecentos pinheiros, jequitibás e eucaliptos, lançando também ao chão – e ao relento, aos ferimentos ou à morte – centenas de filhotes de pardais, cambaxirras, pica-paus, pintassilgos, tico-ticos, quero-queros, papagaios, tucanos, pelicanos, condores, avestruzes, arqueoptérix, pégasus, arcanjos...

.

Guando envim barou de rolar, javurdada no lamazal bodre do bândano, as lembranzas mais rezendes de Zazi, golhidas enguando a goidada bergorria o azidendado drajedo em deglive, lá esdavam lambregadas jundo gom ela, mais bresendes do gue nunga, zordidos zouvenires ingrusdados em zeu vasdo e esbezo revesdimento adiboso: doneladas de derra, zeijos, baralelebíbedos, drongos e gobas de árbores, vagas e gavalos, drês joubanas de zabê e oido zervizais do babai – zendo zingo zegos, gaolhos ou esdrábigos, um begueno gazal de jaboneses e uma zenzualízima avro-dezendende berneda.

.

Quando enfim parou de rolar, chafurdada no lamaçal podre do pântano, as lembranças mais recentes de Sá-Si, colhidas enquanto a coitada percorria o acidentado trajeto em declive, lá estavam lambrecadas junto com ela, mais presentes do que nunca, sortidos souvenires incrustados em seu vasto e espesso revestimento adiposo: toneladas de terra, seixos, paralelepípedos, troncos e copas de árvores, vacas e cavalos, três choupanas de sapê e oito serviçais do papai – sendo cinco cegos, caolhos ou estrábicos, um pequeno casal de japoneses e uma sensualíssima afro-descendente perneta.

.

Gonzumada a gadásdrove, a desengandada Zazi zó bodia endão zonhar... Zonhar, guem zabe, em ze vazer bazar bor uma zimbles beloda de vudebol, à esbera de boderosos bés masgulinos disbosdos a endre zi drogar bazes gom ela e, bor vim, exausdos e endediados, judá-la gom doda vorza bor zima do dravezão em direzão a gualguer disdande blaneda no gual zer esverigamende imenzo não gonsdidua gondravenzão zujeida a berbédua exegrazão búbliga – e no gaso de uma dubla azim univigada, muido bior, bois dorna-ze grime bazível de vuzilamendo zumário bor dodos os olhos vivendes, exzedo dalvez os dos baguidermes e zedázeos.

.

Consumada a catástrofe, a desencantada Sassi só podia então sonhar... Sonhar, quem sabe, em se fazer passar por uma simples pelota de futebol, à espera de poderosos pés masculinos dispostos a entre si trocar passes com ela e, por fim, exaustos e entediados, chutá-la com toda força por cima do travessão, em direção a qualquer distante planeta no qual ser esfericamente imenso não constitua contravenção sujeita a perpétua execração pública – e no caso de uma dupla assim unificada, muito pior, pois torna-se crime passível de fuzilamento sumário por todos os olhos viventes, exceto talvez os dos paquidermes e cetáceos.

.

Lizão da vábula: Douzinho gue não bresda bra dorresmo nem abudre gome.

.

Lição da fábula: Toucinho que não presta pra torresmo nem abutre come.

.

¬¬ ¬¬ ¬¬


Mais fabulas bufalas aqui, aqui e aqui.

.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Onze contos de réis

.
.

1. Sereia

.

Conheceu uma sereia. Se apaixonou, no ato, pela metade boa de cama. E comeu, frita, a metade que não tinha espinhas e falava demais.

.

2. A queda

.

Escreveu o bilhete de suicida num guardanapo de papel colocado sobre o peitoril da janela de seu conjugado no 17º andar. Depois de assinar, embolou o guardanapo, jogou a bolinha lá embaixo e voltou para a frente da TV.

.

3. O consumista

.

Comprava tudo que via pela frente. Dinheiro não era problema. Mas espaço, sim. Onde guardar, por exemplo, a tuba, o rinoceronte e a manada de deputados?

.

4. Como sempre

.

Agora, ali, era tempo de plantar. Como sempre, ele juntou tudo que nunca colheu e partiu.

.

5. Dúvida

.

Talvez nem fosse um cadáver. Pode ser que eu não tenha avaliado bem, ou que o espelho estivesse embaçado.

.

6. A muralha

.

De repente, o abismo. Chegou a pensar em voltar. Mas como, se atrás de si tinha aqueles milhões de seguidores que foi conquistando ao longo de anos, desde que resolvera se tornar guru?

.

7. Coerência

.

Eu pago tudo com dinheiro falso, sim. Queriam o quê? Minha filha alisa e oxigena o cabelo toda semana, meu filho não sai de casa sem as lentes de contato azuis que vive perdendo, e minha mulher faz tanto implante de silicone que, se cair no chão, quica.

.

8. A mais venenosa

.

Ei-la, a cobra mais venenosa do mundo! Se ela picar, a pessoa morre em poucos segun...

.

9. O taxidermista

.

Aprendeu que antes de empalhar um animal é necessário, para uma conservação mais duradoura da peça, pincelar sabão arsenical pelo menos duas vezes por todo o lado interno da pele. É o que faz, dez, quinze vezes, quando empalha seus desafetos.

.

10. Orgulho

.

O cão, só de olho, à espera de qualquer migalha de pelanca, mas eu não lhe dei nada. Quando a alcatra estava limpinha, vacilei, deixei-a cair no chão e ele me impediu de apanhá-la, rosnando. Não se apiedou do meu ar desconsolado: levantou a perna, mijou na carne e foi dormir no seu canto.

.

11. Pontualidade

.

Todo dia o despertador do celular toca às 6 da manhã, em ponto. Ele acorda, desliga a chamada, renova o serviço e volta a dormir. Até às 6 da manhã, em ponto.

.


segunda-feira, 12 de abril de 2010

Baleia bêbada causa briga feia no Rio!

.

.

Rio de Janeiro – Um baleia bêbada está monopolizando a atenção dos cariocas desde as primeiras horas desta segunda-feira, quando apareceu dando saltos cambaleantes na Lagoa Rodrigo de Freitas e distribuindo pinga de graça pelo chafariz. Não se sabe ainda se ela veio do mar ou se desceu numa das muitas enxurradas decorrentes das chuvas, presa nos escombros de algum boteco de favela. O fato é que sua aparição causou polêmica e até uma briga envolvendo a maioria das milhares de pessoas que logo se acotovelavam à beira da lagoa para ver as evoluções do cetáceo cachaceiro.

"Não bastasse o monte de graves problemas causados pelas chuvas, agora ainda temos de aturar uma baleia bebum”, disse Amâncio Basta Cansado, morador da Lagoa e membro honorário do AA. “Ela é uma gracinha, precisamos nos unir e agir imediatamente para impedir que ambientalistas irresponsáveis queiram nos tirar sua guarda e removê-la daqui, a exemplo do que fizeram com a nossa saudosa capivara", afirmou a cronista Cora Ronai, prometendo iniciar uma campanha através de sua coluna para tentar convencer alguma empresa a adotar a baleia. “Quem sabe um fabricante de cachaça não se habilita, fornecendo seu produto para a alimentação da nossa amiguinha”, acrescentou.

Ed Motta, que passava se arrastando na sua caminhada matinal, disse que o cetáceo, embora muito branquelo, lembra muito o seu tio Tim Maia: “Talvez seja a alma dele, né? Ou, pensando bem, pode ser até a minha, sei lá, tomei um baita porre de gueitoreide ontem.” O palpite do cantor acabou suscitando um grave incidente político, com troca de palavrões, unhadas e cusparadas entre partidários do atual prefeito, petistas e tucanos. O entrevero começou quando os primeiros resolveram apelidar a baleia de “Paes & Amor, a Baleia Assassina”. A turma do PT protestou, e um deles gritou: “Porra nenhuma. Olhem bem para ela, vejam se não é a ‘Dilma 2010’.” Aí um tucano logo escancarou o bicão: “Sem essa, meu. A parte mais abundante é a careca do Serra escrita e escarrada.” E o pau quebrou.

.

sábado, 10 de abril de 2010

Campos de Carvalho vive!

.

.
Hoje, 10 de abril de 2010, faz 12 anos que o escritor Walter Campos de Carvalho nasceu pela segunda vez. Por sua importância ímpar na literatura brasileira e, sobretudo, porque parece que ele está se saindo muito bem nessa aventura que poucos conseguem desempenhar a contento – a de viver uma segunda vida, e direto, sem o intervalo regulamentar para descanso no vestiário – é que estamos aqui, prontos para entrevistá-lo.

.

. . . . . . . . . . – Diga lá, Walter. Tudo em riba com este já adolescente coração ateu?

.

. . . . . . . . . . . . . . . .. “Meu coração é como o frio espectro de Is,

. . . . . . . . . . . . . . . .. a submersa:

. . . . . . . . . . . . . . . .. cobrem-no turvas águas silenciosas

. . . . . . . . . . . . . . . .. e a fluida fauna dos pecados e das penas

. . . . . . . . . . . . . . . .. que eu vivi outrora, quando vivo.

. . . . . . . . . . . . . . . .. Tudo é profundo, inerte, escuro,

. . . . . . . . . . . . . . . .. neste meu grande mundo extinto,

. . . . . . . . . . . . . . . .. e é em vão que ainda perpassam sobre os seus escombros

. . . . . . . . . . . . . . . .. sombras de sonhos, lívidas, incertas,

. . . . . . . . . . . . . . . .. como peixes sonâmbulos.

. . . . . . . . . . . . . . . .. De quando em vez, porém,

. . . . . . . . . . . . . . . .. sinto nascer de mim, como de um estranho abismo,

. . . . . . . . . . . . . . . .. cantos plangentes, mil vozes em coro,

. . . . . . . . . . . . . . . .. que me surpreendem e animam como deuses

. . . . . . . . . . . . . . . .. ou me apavoram.

. . . . . . . . . . . . . . . .. Não sei como explicar ninguém o sabe –

. . . . . . . . . . . . . . . .. esses cantos funéreos ou divinos

. . . . . . . . . . . . . . . .. que assim despertam e vibram no meu peito,

. . . . . . . . . . . . . . . .. em meio à grande e densa noite de minha alma,

. . . . . . . . . . . . . . . .. como sinos submersos...”

.

. . . . . . . . . . – Este é o poema que dá título ao livro inédito Os sinos de Is, que você escreveu aos 18 anos...

. . . . . . . . . . “Aos 18? Então, no máximo, ainda o escreverei, pois hoje, como há décadas ou séculos, tenho 3 anos... Quanto ao livro, não é inédito, apenas não o publiquei. Mas permiti que meu amigo Heleno o xerocasse e...”

. . . . . . . . . – Ele distribuiu cópias para os seus fãs do Brasil inteiro...

. . . . . . . . . . “Do Brasil, não sei, mas da Bulgária, certamente.

. . . . . . . . . – Então a Bulgária existe?

. . . . . . . . . . “Não, creio que não. Mas os búlgaros... ah, esses estão por toda parte!

. . . . . . . . . – À procura da Bulgária...

. . . . . . . . . . “Nunca! Eles são os únicos que têm certeza de que ela não existe. Porque até eu, quando o céu fica nublado ou o telefone toca e é engano, tenho lá minhas dúvidas.”

. . . . . . . . . – Você nasceu em Uberaba, morou em São Paulo, Rio, Petrópolis, de novo em São Paulo e hoje...

. . . . . . . . . . “Moro na Bulgária.”

. . . . . . . . . . Por acaso, está querendo dizer que você também não existe?

. . . . . . . . . . “Eu nunca existi.”

. . . . . . . . . . – Você já disse e escreveu isso várias vezes. Mas eu sempre pensei que fosse brincadeira.

. . . . . . . . . . “E é. Brincar é essencial: a brincadeira é o único antídoto contra a existência – como a entendem os que pensam que existem. Por sorte, nasci clown e morrerei clown, embora a vida toda tenha sido um mero funcionário público. (exaltado:) (Todos os funcionários públicos são meros, quando deveriam ser melros!) Sou eternamente grato a um crítico que certa vez me chamou de clown (cochicha, desconsolado:) ­(nem a minha própria mãe me chamou assim) – como sou grato aos que me chamaram de palhaço com segundas intenções ou mesmo com terceiras. Antes de morrer ainda hei de armar o meu pavilhão auricular, isto é, dourado, em todas as praças do mundo e dele partir como um bólido rumo a todas as constelações, pregando a hilaridade e a língua de fora à boa maneira de Einstein e dos enforcados: ASSIM!”

. . . . . . . . . . Nossa, sua língua quase tocou o gogó. Você é bem melhor nisso que o Einstein.

. . . . . . . . . . “Que isso, não diga uma coisa dessas! Se tivesse a língua dele eu lamberia os meus pés.

. . . . . . . . . . – Falando nisso, você fala várias línguas, né?

. . . . . . . . . . Todas.

. . . . . . . . . . – Todas?

. . . . . . . . . .“As vivas, que fique bem claro. Porque não se deve falar as línguas mortas. Latim, grego antigo, copta... todas dão mau-hálito. Pelo menos é o que parece: quando você começa a falar uma delas com as pessoas na rua ou mesmo dentro da srua própria casa, todos lhe viram a cara."

. . . . . . . . . . – Vai ver, pensam que você é louco.

. . . . . . . . . . “Há quem me tome por louco e eu mesmo já me tomei. Mas basta uma visita ao hospício para me convencer – desgraçadamente – do contrário. É como se fosse um lobo vestido com a pele de um cordeiro: expulsam-me só pelo faro. O título do livro que estou escrevendo no momento é exatamente Maquinação da Máquina, Especulação de Espelho. Assim como a 4ª Sinfonia de Charles Ivens exige a presença de três maestros para ser bem interpretada, assim também penso que esse meu novo livro, para ser bem compreendido, deva ser lido simultaneamente por três leitores.”

. . . . . . . . . . – Muito interessante. Mas como evitar o problema daquele que lê mais rápido, que chega ao fim da página e tem de ficar esperando os outros dois para poder virá-la?”

. . . . . . . . . . “Organização, estratégia. Um leitor começa pelo início do livro, outro pelo fim e o terceiro pelo meio.”

. . . . . . . . . . – Genial. Mas, e o do meio, deve ler em direção ao início ou em direção ao final?

. . . . . . . . . . “Isso fica a critério dele. Se for um bom leitor, certamente tomará as duas direções ao mesmo tempo."

. . . . . . . . . . – O olho direito vai para o fim, o esquerdo para o início...

. . . . . . . . . . “Exato. Ou o contrário, se ele for estrábico.”

. . . . . . . . . . – Tem certeza que não é melhor cada um ler o livro sozinho?

. . . . . . . . . . “Um homem só, ou vira anarquista ou vira louco. E mais: esqueça a primeira pessoa do singular, se preciso faça a barba fora de casa, compre um túmulo e mande gravar nele o seu nome, e o sobrenome, com retrato de criança e de adulto para evitar dúvidas, e coloque-o no ponto mais visível do cemitério – se possível em todos os cemitérios da redondeza, um em cada um, dois em cada um se o permitir a lei e mesmo que não o permita. Pode parecer um esbanjamento, mas são tantos os eus atrás de um simples eu que a medida se impõe, e mais se imporia se o governo não fosse tão obtuso, e os vizinhos, e a igreja, e todos os que se contentam com um nome para definir o indefinível e o caos.”

. . . . . . . . . . – Você não acredita em Deus, né?

. . . . . . . . . . Não, mas se você acredita, pergunte a ele se acredita em mim. Enquanto isso, aproveito para ir ao banheiro.

. . . . . . . . . . – Mas você conheceu o Diabo...

. . . . . . . . . . “Nunca. Não fomos apresentados, sequer trocamos um aceno. Mas isto me lembra aquela noite, verídica, em que eu fui se não o protagonista pelo menos o agonista – e, para ser sincero, a única testemunha. Embora se tenha passado comigo, acredito nela piamente. Faz sete anos, poderia fazer sete séculos ou sete minutos: eu deitado, no pré-albor de um domingo igual a tantos, o umbigo voltado para o teto, aquele corpo morto ao lado, o mesmo de sempre. Acordo e vejo-O nitidamente à minha frente, junto à parede, de pé, fitando-me, fitando-me: reconheci-O como se reconhece alguém diante de um espelho, sem um segundo de hesitação: nenhum medo, nenhuma surpresa. Era, e é, todo negro, um verdadeiro príncipe etíope, só os olhos em brasa para identificá-Lo, sem pálpebras, e sem sequer supercílios: e FITANDO-ME, agora com um quase sorriso. Durou talvez um minuto a visão, nem isso: mas ainda hoje me ofusca, me enlouquece, tira-me da minha órbita ou de qualquer órbita, como só Lázaro talvez depois que lhe arrombaram o sepulcro: dia após dia a mesma Noite sempre.

. . . . . . . . . . “Preciso ir ao banheiro.”

. . . . . . . . . . – A convivência, a vida em sociedade o repugna, certo?

. . . . . . . . . . “Errado. A tribo de que não faço parte tem lá suas coisas interessantes, que bem merece que eu as retrate. Eu compus há tempo um hino desportivo, tão do gosto dos que ela tanto aprecia, e que eu gosto de ouvi-la cantar sob o sol da tarde, na praça regurgitante, em dia de festa. Começa assim:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . ‘Umbanda surubiu Piranha

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . Socatu jurumirim petiba...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sucupira! Sucupira!...’

. . . . . . . . . . – Tem no hino alguma palavra em português de Portugal?

. . . . . . . . . . “Se o sr. não me deixar ir urinar, não respondo – nem respondo pelas conseqüências.”

. . . . . . . . . . – O banheiro é ali, naquela porta à direita..

. . . . . . . . . . Enquanto o Campos não volta do meu quarto – entrou na porta à esquerda e não na à direita – vou reproduzir outro poema inédito, O Argonauta, de 1949, no qual ele expande os caminhos abertos na poesia da adolescência, em direção ao surrealismo mais radical que viria com seus romances. Aqui, condiciona o Ser ao Escrever e insere a vida, metalingüisticamente, no espaço infinito da palavra. (Como o original foi apenas manuscrito e dele só tenho uma cópia precária, “funambulei” um bocado para decifrar o meio apagado adjetivo funambulesco.)

.

. . . . . . . . . . “Não devia estar apagado, logo ele, funambulesco, que é tão menos usado do que deveria.”

. . . . . . . . . . – Ah, voltou!

. . . . . . . . . . “Queira me perdoar, não era minha intenção. Mas não pude partir. Não encontrei nada em seu banheiro que se assemelhe a uma nau de cruzeiro ou mesmo a um vaso de guerra ou um vaso sanitário."

. . . . . . . . . . – Poxa, eu é que lhe peço perdão por esse empecilho. Não sabia que pretendia partir.

. . . . . . . . . . “Empecilhos só existem para quem quer chegar, jamais para quem quer partir.”

. . . . . . . . . . – Hummm, entendi: O Argonauta...

.

. . . . . . . . . . .. . . . . . . . Empreenderei esta viagem no meu barco

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Imaginário.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Comigo irá minha alma imperscrutável,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Aberta aos grandes mares tenebrosos e à carícia

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .De ventos invisíveis como deuses

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Que enfunam as velas frágeis e despertam

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Os ouvidos sutis.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Nem sombra eu levarei nessa epopéia

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Sobre-humana

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Por ígneas terras e candentes sóis,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Longe do mundo estreito e dos sonhos mortais

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Que ainda ontem me envolviam e me prendiam

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Como a um cadáver.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . .Eu singrarei tranqüilo ao som das muitas vagas

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Ignotas,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Sozinho sem minha alma atenta e em êxtase,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Como se fora ao encontro de uma Pátria, e não apenas

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .De uma ilusão a mais ou de um desterro.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Tudo que há de restar desse meu sonho informe

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .E funambulesco

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Será uma breve esteira apenas, sem beleza,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Em meio ao grande mar profundo e eterno,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Qual tênue flecha a apontar o Infinito:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .– Estes meus versos.

.

¬¬ ¬¬ ¬¬

. . . . .

Esta entrevista foi montada com:

– trechos de duas das raras entrevistas concedidas por Campos de Carvalho (à revista O Cruzeiro, em 1969, e a Heleno Álvares, em 96, que a publicou no Correio de Araxá);

– informações e o fac-simile de O Argonauta, extraídos de Campos de Carvalho: Inéditos, Dispersos e Renegados, dissertação inicial de Geraldo Noel Arantes para o Mestrado no IEL/UNICAMP, 2005;

– trechos e sugestões dos romances Tribo, A lua vem da Ásia, Vaca de nariz sutil, A chuva imóvel e O púcaro búlgaro;

­– o poema-título de Os sinos de Is;

– trecho de crônica publicada no Pasquim;

– alguma criação enxerida, minha, tentando tangenciar as concepções estéticas e filosóficas do escritor.

. . . . .

Agradecimentos especiais ao autor (que não pude identificar) da inspirada foto que abre esta postagem, e ao poeta e jornalista Heleno Álvares, que enviou-me pelo correio cópias do inédito Os Sinos de Is e do raríssimo romance Tribo, esgotado há mais de 50 anos. (Ainda não chegaram, Heleno! Queira Walter que o carteiro não se tenha afogado nas enchentes deste meu Rio de Abril...)

.