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1 – Originalmente, o Centro e a Zona Sul do Rio de Janeiro, tirante os morros, eram formados por areia e muita água: praias, ao sul, norte e leste; rios, lagoas, boqueirões de mar e alagados. Terra, a nível do mar, praticamente só a que descia com as chuvas, a caminho do mar – e era muito pouca, até começarem a desmatar os morros para produzir lenha e, sobretudo, para plantar café.
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2 – O chão era tão encharcado e insalubre que nele só moravam os pobres e os escravos não encarregados de serviços domésticos. O ricos, esses ocupavam os morros – um luxo, a salvo das águas infectas e das inúmeras moléstias que elas causavam. Depois, quando pobres e escravos deram um jeito no chão, os ricos desceram e os mandaram à puta que pariu morro acima.
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3 – Acho graça quando os jornais responsabilizam os últimos governantes da cidade pelas tragédias atuais causadas pelas chuvas. Problemas graves desse tipo começaram, se não me falha a memória (eu era pequeno na época), ali pelo início do século XVIII, quando os monges franciscanos drenaram a Lagoa de Santo Antônio, abrindo espaço para a ocupação do que é hoje o Largo da Carioca. A vala que os religiosos mandaram escavar ia
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4 – Não se escandalizem com a nojeira que era o “novo sistema de esgoto” do Rio setecentista. À época ainda era comum – na Europa, sobretudo – se livrar dos excrementos da forma mais simples: jogando pela janela. Por esse tempo, não havia banheiro em muitos dos mais requintados castelos do Velho Mundo, e cagar no mato só era, como ainda só é, possível nos dias menos frios – os quais, no caso do Norte da Europa, resumem-se a uma meia-dúzia por ano. (A cidade de São Paulo, nesse quesito sanitário, era originalmente muito bem-dotada, porque além do valão-mor até hoje bastante utilizado – o Tietê –, tinha ainda, a céu aberto, os riachos Anhangabaú e Tatuapé, ambos, a certa altura, receptores de uma quantidade de cocô que excedia a capacidade de transporte do seu fluxo de água. Segundo tese de uma amiga paulistana, esses dois cursos d’água contaminada entraram pelo cano apenas por causa de seus nomes: o Anhangabaú, porque os cidadãos de São Paulo “nunca metiam nele o acento que preferem meter naquela palavrinha que com ele rima e que, embora fique no assento, não tem acento”; já o Tatuapé, diz minha amiga, tornou-se obsoleto e até surreal: “A pé, em Sampa, nem tatu, meu!”)
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5 – Por volta de 1765, o Vice-Rei Antonio Álvares da Cunha fechou a vala dos franciscanos, surgindo em seu lugar a Rua da Vala, atual Uruguaiana. Mas os problemas com as chuvas persistiram. O Rio, que, graças a negociações bem sucedidas de Cunha com a Coroa Portuguesa, passara a ser a capital do país, crescia muito rápido, e já beirava os manguezais do Saco de São Diogo, grande invaginação de mar que chegava até o Campo de Santana. Na época das chuvas as áreas circunvizinhas eram alagadas, e as doenças grassavam mais forte. Um dos males mais comuns, então, era a tenebrosa – e muitas vezes fatal! – conjuntivite.
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6 – Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão d'Eça e Melo Silva Mascarenhas, o Marquês do Lavradio, Vice-Rei de
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7 – Foi Lavradio quem “resolveu” uma questão trágica que as chuvas impunham aos cidadãos livres de então: a do Cemitério dos Pretos Novos, onde qualquer aguaceiro mais forte trazia à flor da terra os corpos enterrados em covas rasas. Não era uma questão humanitária, ninguém estava preocupado com a dignidade de mortos tão reles, assim como não estava preocupado com o sofrimento e a morte, a cada ano, de algumas centenas de escravos recém-desembarcados no porto do Rio, uma conseqüência natural da longa viagem e das péssimas condições de alimentação e higiene a bordo dos navios negreiros. O problema era o mau cheiro daquelas carcaças expostas. E disso Lavradio cuidou, transferindo o cemitério do Largo de Santa Rita, no Centro, para o Valongo, uma área próxima à praia da Gamboa. Claro que logo a cidade se expandiria até lá, e o desenterro de corpos promovido por chuvas fortes voltaria a ser um problema. Mas aí já não era com o marquês, que deixara o Vice-Reinado e, pouco depois, a própria vida – em Portugal, onde foi enterrado a sete palmos do chão, como determinava a lei para os homens livres e com dinheiro, lá como cá.
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8 – A questão do tópico anterior se assemelha, me parece, à grande tragédia que vem ocorrendo no Rio e em Niterói com as chuvas dos últimos dias. O que realmente incomoda a maioria da população que não mora em favelas penduradas em barrancos é o “mau cheiro”, a constatação de que por trás da tragédia há o dedo podre da incompetência e negligência dos políticos. A grande mídia não vacila: “A culpa é deles!” E a classe média reflete profundamente durante um segundo e meio e conclui: “É, a culpa é deles!” E pronto, assunto resolvido; morto e enterrado – como a tragédia de Angra dos Reis/ Ilha Grande, para citar uma bem recente. Mas aí, de repente, cai outro toró e desenterra de novo esse assunto fedorento. “Precisamos reagir”, já deve estar dizendo uma parcela “politizada” da classe média, aquela que sempre cria um slogan contundente quando lhe dá na veneta promover ações guerrilheiras de vanguarda, como o “Chega!” – o “Basta!” – o "Cansei!” Quero até sugerir, para essa possível nova campanha dos Sem Saco, um bom slogan para a sua árdua luta contra tragédias diluvianas: “Guarda-chuva!”
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9 – Queria falar ainda de muitas outras tragédias cariocas causadas por temporais, antigas e recentes, mas o espaço não dá. Tragédias como a tempestade ocorrida por volta de 1870 (nem fui conferir o ano exato) que revelou a precariedade do Porto da Praça Quinze, com um saldo de dezenas de navios seriamente avariados ou a pique. Mais do que a dor e os grandes prejuízos causados pela intempérie, o que me marcou – quando me enfronhei neste caso atráves do pesquisador naútico Elísio Gomes Filho – foi a informação de que entre as toneladas de cargas afundadas e desaparecidas no fundo lodoso daquele trecho da Baía da Guanabara estava uma múmia, uma múmia portuguesa, o corpo mumificado de um fidalgo português acondicionado num esquife de cerâmica e embarcado para ser enterrado em sua pátria. A família não recebeu o corpo, é claro, assim como nem ela nem ninguém se interessou em procurá-lo no fundo da baía. Fico imaginando a múmia lá embaixo, quieta nas profundezas do mar há 140 anos, matutando “Esta nau não chega nunca, ó Jesus. Parece-me justo começar a suspeitar de que o comandante esteja a andar em círculos para deixar o taxímetro a correr!”
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9,5 – Queria falar também, se espaço houvesse, das tragédias que foram, para mim, pessoalmente – criançamente! –, saborosíssimas. Como as grandes enchentes da Praça da Bandeira, onde morei durante toda a infância, e vivenciei farras de arromba por vários dias, em todos os verões, proporcionadas por qualquer chuva mais forte que gerava, via decreto baixado por meus pais, férias escolares de emergência, sempre que o verão começava na primavera ou terminava no outono. Dei muita sorte: nos treze anos que ali morei, nunca completei um ano letivo sem pelo menos dez faltas motivadas por alagamento da rua! Loucura, ir à escola com água até pescoço! Loucura, faltar, na travessa ao lado, também alagada, à pelada de sempre que virava water-pólo!
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10 – Vou falar então, sucintamente, mas não posso deixar de falar, do problema específico do lugar em que moro: a Lagoa Rodrigo de Freitas, aquela da breguíssima estrovenga arbórea natalina abracadabradescamente iluminada. Como serei sucinto, não vou falar dos diversos absurdos cometidos por vários cidadãos e entidades, com o aval das autoridades, da grande mídia e até de grande parte da população. Só de um, para exemplificar. A lagoa tinha, em frente a seus dois canais de ligação com o mar, dois bancos de areia que aumentavam ou diminuíam e variavam de lugar, conforme as suas necessidades de fazer face às mares, aos ventos, às cheias causadas pelas chuvas, etc. Hoje, um hoje de várias décadas, os bancos de areia não mudam de lugar nem diminuem. Só aumentam, e não conforme as necessidades da natureza, mas de acordo com o interesse de dois clubes que os ocupam: o Caiçaras, uma associação recreativa da classe média alta; e o Piraquê, que é ligado à Marinha! Sim, à Marinha, que é responsável por zelar pela integridade de todos os mananciais de água do país. Sim, à Marinha, que recebe, por direito adquirido através de lei sancionada em 1833, uma taxa anual de (des)aforamento de todo ocupante de terreno situado a até sei lá quantos metros do espelho d’água. No meu caso, que moro num bom quarto e sala, a União me cobrou, no ano passado, modestos 500 reais.
Bem, agora posso encerrar esta chuvarada dos meus cotovelos que já deve está causando uma baita enchente de saco. Só preciso, me perdoem o abuso, deixar uma pergunta no ar, ou melhor, no mar das ruas:
Se a União tem o direito de me cobrar pelo usufruto das inegáveis qualidades da localização do imóvel em que moro, ela reconhece a recíproca do dever inerente a este direito? Ou, mais direto: de que forma ela cogita me compensar pelos prejuízos causados em decorrência de sua omissão na prevenção e na resolução dos freqüentes problemas que me são causados em função dessa localização? Ou, de uma forma mais prática: se a lagoa transborda, inunda a portaria do meu prédio e uma tainha pega o elevador junto comigo, dá na marra pro meu dedão do pé e engravida, quem paga o parto é o pato aqui?


