materialistas, dos incréus e dos onanistas, pensadores de todas as correntes filosóficas estão febrilmente concordes em um ponto: existe mesmo a Vida depois da Morte.
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As divergências convergem agora para uma outra questão, igualmente transcendental: haverá Morte após a Vida?
Uma ala dos ybarreanos, originada entre os radicais centristas da Escola Argentina, sustenta que, em sendo verdadeira a premissa da Vida-após-Morte, resulta errônea a conclusão Morte-após-Vida, posto que a Vida sucedendo-se à Morte, sem interregno, é por si própria a anulação do conceito de “morte”, a qual assim inexistiria.
Essa posição é diametralmente oposta à dos são-tomistas caucasianos, que crêem na imortalidade da vida por confiarem unicamente na própria experiência. E após compilarem 3.527 depoimentos a respeito da Morte, concluíram os são-tomistas pela sua inexistência por constatarem quetodosos depoentes estavam vivos no momento em que foram ouvidos.
Discordando das duas correntes, sem contudo invalidá-las nem mesmo contrapô-las, os denistas e seus genéricos, muito pelo contrário, dão excelentes razões para se crer na Vida durantea Morte, e vice-versa.
Chamada de primeira página d’O Globo de ontem, 15 de abril:
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Tragédia que não
distingue classes
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O mesmo deslizamento de terra que atingiu uma área da Favela da Rocinhaderruboupartede uma das 42casas do condomínio de classe média alta Gávea Parque. Pouco acima, há uma mansão noCondomínio Canto e Mello que tambémcorre riscocom um deslizamento...Página 18
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Alguém teve a coragem de abrir a página 18? Se teve, por favor, me dê os detalhes. Mas com habilidade e doçura, porque desde ontem estou profundamente deprimido com essa tragédia cafajeste que ousa enlamear morro abaixo parte da residência – quiçá até algum pertence valioso – de gente distinta que nada tem a ver com essa baixaria toda das chuvas.
Aqui vai outro conto do livro!ALBUFAS SAFUBLA!– Fabulas bufalas de Falasbu Bulafas Lafasbu. Mais uma vez, para contemplar os poucos que sabem português, oferecemos (em itálico) o texto original neste exótico idioma em extinção acompanhando, parágrafo por parágrafo, a tradução para o portugárabe.
Zô, Zê e Zu (Zoraia, Zereia e Zulamita): de nazidas benda-gêmeas jivóbagas, drês guindos. Já debois, borém, graziozo e berveido driângulo eguiládero, grazas à invlazão galobande de adibosidade gue agomedera dão-zomende Zá (Záuria) e Zi (Zimiesga), rodundos dois guindos do guindedo original. De dão vundidas em banha úniga e inzebarável (bor valda de vrondeiras glaras), as duas vovonas dezidiram dejivobagarem-ze das oudras drês e zeguirem garreira zolo. Resoludas e indrébidas, azim o vizeram, a majado, vagão e zerrode, bara logo abós desbengarem birambeira abaijo, em direzão aos bandanosos gavundós gue zergavam o monde gujo gogurudo dinha bor gardola o zunduoso gasdelo de, gomo as zingo o jamavam, “nozo zagrozando babai” Alzabão Alvinede Albergadas.
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Sô, Sê e Su (Soraia, Sereia e Sulamita): de nascidas penta-gêmeas xifópagas, três quintos. Já depois, porém, gracioso e perfeito triângulo eqüilátero, graças à inflação galopante de adiposidade que acometera tão-somente Sá (Sáuria)) e Si (Simiesca), rotundos dois quintos do quinteto original. De tão fundidas em banha única e inseparável (por falta de fronteiras claras), as duas fofonas decidiram dexifopagaram-se das outras três e seguirem carreira solo. Resolutas e intrépidas, assim o fizeram, a machado, facão e serrote, para logo após despencarem pirambeira abaixo, em direção aos pantanosos cafundós que cercavam o monte cujo cocuruto tinha por cartola o suntuoso castelo de, como as cinco o chamavam, “nosso sacrossanto papai” Alçapão Alfinete Alpercatas.
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(Ah, o boderoso e dodo brosa Alzabão! A vorduna e o boder, gonguisdara-os adravés de zeu vandásdigo zuzezo gomo gomerziande de dezidos vinos, dando guando de beles de onzas, londras, gobras e lagardos, minhogas e lagardijas, bem gomo de infinidas deias de gasais aragnideos valezidos ou zebarados, e adé de gadaradas exdraídas da visda de bezoas gue gom elas já não bodiam brogurar esdrelas no zéu nem gadar bulgas, biolhos e garrabados nas griazões, nos vilhos e em zi bróbrias.)
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(Ah, o poderoso e todo prosa Alçapão! A fortuna e o poder, conquistara-os através de seu fantástico sucesso como comerciante de tecidos finos, tanto quanto de peles de onças, lontras, cobras e lagartos, minhocas e lagartixas, bem como de infinitas teias de casais aracnídeos falecidos ou separados, e até de cataratas extraídas da vista de pessoas que com elas já não podiam procurar estrelas no céu nem catar pulgas, piolhos e carrapatos nas criações, nos filhos e em si próprias.)
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Ao adravezar verdiginosamende a denza vloresda da engosda do monde, a desgomunal esvera Zazi adrobelou e dombou zerga de zedezendos binheiros, jeguidibás e eugalibdos, lanzando dambém ao jão – e ao relendo, aos verimendos ou à morde – zendenas de vilhodes de bardais, gambajirras, biga-baus, bindazilgos, digo-digos, guero-gueros, babagaios, duganos, beliganos, gondores, avesdruzes, argueobdériguis, bégasus, arganjos...
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Ao atravessar vertiginosamente a densa floresta da encosta do monte, a descomunal esfera Sassi atropelou e tombou cerca de setecentos pinheiros, jequitibás e eucaliptos, lançando também ao chão – e ao relento, aos ferimentos ou à morte – centenas de filhotes de pardais, cambaxirras, pica-paus, pintassilgos, tico-ticos, quero-queros, papagaios, tucanos, pelicanos, condores, avestruzes, arqueoptérix, pégasus, arcanjos...
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Guando envim barou de rolar, javurdada no lamazal bodre do bândano, as lembranzas mais rezendes de Zazi, golhidas enguando a goidada bergorria o azidendado drajedo em deglive, lá esdavam lambregadas jundo gom ela, mais bresendes do gue nunga, zordidos zouvenires ingrusdados em zeu vasdo e esbezo revesdimento adiboso: doneladas de derra, zeijos, baralelebíbedos, drongos e gobas de árbores, vagas e gavalos, drês joubanas de zabê e oido zervizais do babai – zendo zingo zegos, gaolhos ou esdrábigos, um begueno gazal de jaboneses e uma zenzualízima avro-dezendende berneda.
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Quando enfim parou de rolar, chafurdada no lamaçal podre do pântano, as lembranças mais recentes de Sá-Si, colhidas enquanto a coitada percorria o acidentado trajeto em declive, lá estavam lambrecadas junto com ela, mais presentes do que nunca, sortidos souvenires incrustados em seu vasto e espesso revestimento adiposo: toneladas de terra, seixos, paralelepípedos, troncos e copas de árvores, vacas e cavalos, três choupanas de sapê e oito serviçais do papai – sendo cinco cegos, caolhos ou estrábicos, um pequeno casal de japoneses e uma sensualíssima afro-descendente perneta.
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Gonzumada a gadásdrove, a desengandada Zazi zó bodia endão zonhar... Zonhar, guem zabe, em ze vazer bazar bor uma zimbles beloda de vudebol, à esbera de boderosos bés masgulinos disbosdos a endre zi drogar bazes gom ela e, bor vim, exausdos e endediados, judá-la gom doda vorza bor zima do dravezão em direzão a gualguer disdande blaneda no gual zer esverigamende imenzo não gonsdidua gondravenzão zujeida a berbédua exegrazão búbliga – e no gaso de uma dubla azim univigada, muido bior, bois dorna-ze grime bazível de vuzilamendo zumário bor dodos os olhos vivendes, exzedo dalvez os dos baguidermes e zedázeos.
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Consumada a catástrofe, a desencantada Sassi só podia então sonhar... Sonhar, quem sabe, em se fazer passar por uma simples pelota de futebol, à espera de poderosos pés masculinos dispostos a entre si trocar passes com ela e, por fim, exaustos e entediados, chutá-la com toda força por cima do travessão, em direção a qualquer distante planeta no qual ser esfericamente imenso não constitua contravenção sujeita a perpétua execração pública – e no caso de uma dupla assim unificada, muito pior, pois torna-se crime passível de fuzilamento sumário por todos os olhos viventes, exceto talvez os dos paquidermes e cetáceos.
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Lizão da vábula: Douzinho gue não bresda bra dorresmo nem abudre gome.
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Lição da fábula:Toucinho que não presta pra torresmo nem abutre come.
Conheceu uma sereia. Se apaixonou, no ato, pela metade boa de cama. E comeu, frita, a metade que não tinha espinhas e falava demais.
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2. A queda
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Escreveu o bilhete de suicida num guardanapo de papel colocado sobre o peitoril da janela de seu conjugado no 17º andar. Depois de assinar, embolou o guardanapo, jogou a bolinha lá embaixo e voltou para a frente da TV.
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3. O consumista
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Comprava tudo que via pela frente. Dinheiro não era problema. Mas espaço, sim. Onde guardar, por exemplo, a tuba, o rinoceronte e a manada de deputados?
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4. Como sempre
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Agora, ali, era tempo de plantar. Como sempre, ele juntou tudo que nunca colheu e partiu.
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5. Dúvida
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Talvez nem fosse um cadáver. Pode ser que eu não tenha avaliado bem, ou que o espelho estivesse embaçado.
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6. A muralha
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De repente, o abismo. Chegou a pensar em voltar. Mas como, se atrás de si tinha aqueles milhões de seguidores que foi conquistando ao longo de anos, desde que resolvera se tornar guru?
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7. Coerência
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Eu pago tudo com dinheiro falso, sim. Queriam o quê? Minha filha alisa e oxigena o cabelo toda semana, meu filho não sai de casa sem as lentes de contato azuis que vive perdendo, e minha mulher faz tanto implante de silicone que, se cair no chão, quica.
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8. A mais venenosa
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Ei-la, a cobra mais venenosa do mundo! Se ela picar, a pessoa morre em poucos segun...
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9. O taxidermista
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Aprendeu que antes de empalhar um animal é necessário, para uma conservação mais duradoura da peça, pincelar sabão arsenical pelo menos duas vezes por todo o lado interno da pele. É o que faz, dez, quinze vezes, quando empalha seus desafetos.
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10. Orgulho
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O cão, só de olho, à espera de qualquer migalha de pelanca, mas eu não lhe dei nada. Quando a alcatra estava limpinha, vacilei, deixei-a cair no chão e ele me impediu de apanhá-la, rosnando. Não se apiedou do meu ar desconsolado: levantou a perna, mijou na carne e foi dormir no seu canto.
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11. Pontualidade
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Todo dia o despertador do celular toca às 6 da manhã, em ponto. Ele acorda, desliga a chamada, renova o serviço e volta a dormir. Até às 6 da manhã, em ponto.