segunda-feira, 22 de março de 2010

Vote no que você quer ler, leitor!

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Taí o que você queria, leitor(a) assíduo(a) que nem sempre é atendido(a) em suas preces por postagens mais convenientes à inconveniência que a vida requer. Hoje você poderá escolher as matérias que deseja ler no desinformação seletiva nos próximos dias, a partir de pautas novas e de continuações de postagens que deram um ibope de fazer esverdear de humilhação os próceres da Globo.

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.Leia a seguir o resumo das pautas, escolha as que mais lhe inconvêm e depois vote na enquete que encabeça a coluna da esquerda da página. Você pode votar em quantas pautas quiser. Vote já, que a enquete tem prazo curto, e eu não vou ficar aqui, que nem um idiota maior do que já sou, lembrando todo dia que o voto, neste blog, como nas próximas eleições presidenciais, é imoralmente obrigatório. As 80 (oitenta) pautas mais votadas serão postadas – impreterivelmente, eu juro! – até o próximo dia 1o de abril. Eis a lista:.

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1 - Novas aparições ubíquas do Tuca para a mulher do próximo nos pontos mais longínquos do planeta, inclusive Conceição de Mato Dentro, em Santa Catarina.

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2 - O ouvido-penico de Teophanio Lambroso – oferecendo aos fofoqueiros de plantão mais loucuras picantes que as mulheres só revelam a um canalha do bem como o Teopha.

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3 - A retumbante estréia de Trilussa (Carlo Alberto Salustri – 1873-1950), um italiano que escrevia poesia com muito humor e malícia. Nossa sexóloga Elza Magna está tão debruçada na árdua tarefa de traduzir o texto original em dialeto romanesco que, como suas tetas perfeitas abominam sutiã e blusa sem decote, a rapaziada toda dos blogs em frente à nossa janela já está delirando de prazer com Trilussa!

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4 - A Onisciência ao Alcance de Todos que levou o Prof. Edson Rocha Braga a ser eleito para uma cadeira muito bonita e confortável da prestigiosa Academia de Ciências, Letras, Números, Corte e Costura de Cachoeiro de Itapemirim, no Afeganistão.

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5 - Mais Campos de Carvalho, agora com um trecho de Tribo, romance publicado em 1954 e nunca mais reeditado. Tivemos acesso à obra graças a Anga Mazle, que conheceu um jovem amigo do bruxo de Uberaba durante um passeio sub-lameiro em Araxá, capital do Alasca.

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6 - Novo trecho de Autobiografia de um que nunca nasceu, de Fiophélio Nonato, desta vez narrando um episódio no qual ele acaba por cavalgar um ceguinho em plena hora do rush no Centro do Rio.

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7 - Festival Microscópico do Caralho! – Matéria com fotos exclusivas dos três vencedores deste concurso que levou ao orgasmo esotérico milhões de adoradoras de anjos made in Japão em todo o mundo.

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8 - Mais trovas de A Esfinge sem Calcinha. Seleção isenta porém tendenciosamente sacana de oito trovas ilustradas do livro inédito de Anga Mazle e Elza Magna.

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sábado, 20 de março de 2010

O venerável cordão de São Francisco

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A pedofilia praticada por padres está na moda há muitos anos – para não dizer há séculos. Mas agora o assunto pegou fogo, porque o que entrou na moda é denunciar os padres pedófilos. Chovem denúncias na Europa, e até o irmão do Papa está sendo acusado de ser conivente com sacerdotes que gostam demais de criancinhas. Aí o Sumo Pontífice tratou de se pronunciar, para tentar limpar a barra da Santa Madre Igreja – ou a da própria família, pelo menos. Disse ele, entre outras irrelevâncias, que o Vaticano sempre se preocupou com esse assunto. Puxa, que bom!

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Outra alta autoridade da igreja católica (esqueci o nome da figura) disse que mais grave do que isso é a questão do aborto. Me fez lembrar o Maluf com o famoso “Estupra mas não mata”. Ou seja, deduzo: se o padre não engravidar a criança, tudo bem.

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Então decidi postar um texto em homenagem à toda a rapaziada de batina que mija fora do penico: um trecho de Teresa Filósofa, best-seller no século XVIII, de autor anônimo. O romance conta a trajetória de uma jovem pobre, virgem e ingênua que busca o amor e o prazer. Entre seus preceptores está o padre Dirrag, cujo caráter Teresa fica conhecendo no trecho que se segue:

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No dia seguinte, às cinco horas da manhã, dirigi-me aos aposentos de Eradice, como havíamos combinado. Encontrei-a orando, com um livro na mão.

– O santo homem vai chegar – disse-me ela – e Deus com ele. Escondei-vos neste pequeno gabinete, donde podereis ouvir e ver até onde a bondade divina consente em se estender a favor de sua vil criatura pelos piedosos cuidados de nosso diretor. – Um instante depois, bateram suavemente na porta. Fugi para o gabinete, cuja chave Eradice pegou. Um buraco largo como a mão, na porta desse gabinete, (...) deixava-me ver livremente o quarto inteiro, sem correr o risco de ser percebida.

(...)

O bom Padre entrou:

– Bom dia, minha cara irmã em Deus! – disse a Eradice. – Que o Espírito Santo e São Francisco estejam convosco!

Ela quis se jogar aos seus pés mas ele a ergueu e a fez sentar-se junto dele.

(...)

– Vamos começar, minha cara filha – prosseguiu o Padre. – Cumpri bem os vossos deveres e estejais certa de que, com a ajuda do cordão de São Francisco e de vossa meditação, este piedoso exercício acabará numa torrente de delícias inexprimíveis. Ajoelhai-vos, minha filha, e descobri essas partes da carne que são o motivo da cólera de Deus: a mortificação que elas sentirão unirá intimamente o vosso espírito a Ele. Eu vos repito: esquecei-vos e abandonai-vos.

(...)

A Srta Eradice obedece imediatamente, sem replicar. Ela se ajoelha num genuflexório, com um livro diante de si. Depois, levantando as saias e a combinação até a cintura, deixa ver duas nádegas brancas como a neve e de uma forma oval perfeita, sustentadas por coxas de uma proporção admirável. (...) O Padre percorria com olhar esfogueado as nádegas que lhe serviam de perspectiva, e, tendo ele os olhos fixos nelas, eu o ouvi dizendo em voz baixa (...):

– Ah! Que belo colo! Que tetas encantadoras! – Depois se abaixava, levantava-se intercaladamente, resmungando alguns versículos. Nada escapava à sua lubricidade. Após alguns minutos perguntou à sua penitente se a sua alma tinha entrado em contemplação:

– Sim, meu Reverendíssimo Padre. – Ela lhe diz. – Sinto que o meu espírito se desliga da carne e vos suplico que comece a santa obra.

– Isto basta retomou o Padre –, o vosso espírito ficará contente. – Recitou ainda algumas preces e a cerimônia começou com três varadas que ele lhe aplicou bem de leve no traseiro. Estes três golpes foram seguidos por um versículo que ele recitou e, sucessivamente, por três outras varadas um pouco mais fortes do que as primeiras.

Depois de cinco a seis versículos recitados, (...) qual não foi a minha surpresa quando vi o Padre Dirrag, desabotoando as suas calças, pôr à mostra um dardo inchado, que era semelhante àquela serpente fatal que havia atraído as censuras de meu antigo diretor! Esse monstro adquirira o comprimento, a espessura e a firmeza preditas pelo capuchinho, ele me fazia estremecer. Sua cabeça rubicunda parecia ameaçar as nádegas de Eradice, que ficaram da mais bela cor encarnada. O rosto do Padre estava todo afogueado.

– Agora – disse ele –, deveis estar num estado mais perfeito de contemplação: a vossa alma deve estar desligada dos sentidos. Se a minha filha não engana as minhas santas esperanças, ela não vê mais, não ouve mais, não sente mais.

Neste momento, este carrasco fez cair uma saraivada de golpes sobre todas as partes do corpo de Eradice que estavam a descoberto. Contudo, ela não dizia nada, parecia estar imóvel, insensível a esses terríveis golpes, e nela, simplesmente, eu não distinguia mais do que um movimento convulsivo das nádegas, que se comprimiam e se descomprimiam a todo instante.

– Estou contente convosco – diz-lhe o Padre após um quarto de hora dessa cruel disciplina –, está na hora de começardes a gozar do fruto de vossos santos trabalhos. Não me escutai, minha cara filha, mas deixai-vos conduzir. Prosternai o vosso rosto contra o chão: com o venerável cordão de São Francisco, vou expulsar tudo que resta de impuro dentro de vós.

(...) Eradice acabava de ser posta de joelhos no chão, com os braços cruzados sobre o estribo de seu genuflexório e com a cabeça apoiada nos braços. (...) Esta perspectiva luxuriosa fixava a atenção do Reverendíssimo Padre, que se pusera, ele próprio, de joelhos, as pernas de sua penitente entre as suas, as calças abaixadas, o seu terrível cordão na mão, resmungando algumas palavras mal-articuladas. (...) Duas aberturas se apresentavam, ele as devorava com os olhos, embaraçado quanto à escolha: uma era um manjar delicioso para um homem de sua batina, mas ele prometera prazer, êxtase para a sua penitente. Como fazer? Ele ousou dirigir várias vezes a cabeça de seu instrumento para a porta favorita, na qual esbarrava levemente. Mas enfim a prudência predominou sobre o gosto.

Eu lhe devo esta justiça: vi distintamente o rubicundo príapo de Sua Reverência atravessar a estrada canônica depois de ter entreaberto delicadamente os seus lábios vermelhos com o polegar e o indicador de cada mão. Este trabalho foi iniciado por três vigorosas sacudidelas que fizeram entrar quase a metade dele. Então, de repente, a tranqüilidade aparente do padre transformou-se numa espécie de furor. Que fisionomia! Ah, Deus! Imaginai um sátiro com os lábios carregados de espuma, a boca aberta, às vezes rangendo os dentes, resfolegando como um touro que muge. Suas narinas estavam inchadas e agitadas, ele mantinha suas mãos levantadas a quatro dedos das ancas de Eradice sobre as quais via-se que ele não ousava se apoiar. Seus dedos afastados estavam em convulsão e adquiriam a forma da pata de um capão assado. Sua cabeça estava abaixada e seus olhos cintilavam, fixados no trabalho da cavilha mestra, cujas idas e vindas ele compassava de maneira que, no movimento de retroação, ela não saísse de sua bainha e que, no de impulso, seu ventre não se apoiasse nas nádegas da penitente, a qual, por reflexão, poderia ter adivinhado onde se encontrava o pretenso condão. Que presença de espírito! Vi que aproximadamente o comprimento de duas polegadas do santo instrumento ficou constantemente reservado do lado de fora e em nada participou da festa. Vi que cada movimento que o traseiro do Padre fazia para trás, pelo qual o cordão se retirava do abrigo até a cabeça, os lábios da parte de Eradice entreabriam-se e pareciam de uma cor encarnada tão viva, que encantavam a vista. Vi que por um movimento oposto, quando o Padre empurrava para a frente, esses mesmos lábios, dos quais então não se via mais do que o pequeno pelo negro que o os cobria, apertavam de forma tão exata a flecha, que ali parecia engolida, que teria sido difícil adivinhar a qual dos dois atores pertencia este pino pelo qual um e outro pareciam igualmente atados.

Que mecânica! Que espetáculo (...) para um moça da minha idade que não tinha nenhum conhecimento desse gênero de mistério! Quantas idéias diferentes me passaram pela mente, sem poder me fixar em nenhuma! Lembro-me somente que por vinte vezes estive a ponto de me jogar nos joelhos deste célebre diretor para suplicar-lhe que me tratasse como à minha amiga. Seria um movimento de devoção? Seria um movimento de concupiscência? É o que ainda me é impossível discernir bem.

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(Tradução de Carlota Gomes, para a L&PM Pocket)

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quinta-feira, 18 de março de 2010

Amiga Desaparecida no Inconsciente Coletivo

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Eu fiz uma promessa a uma bela amiga que nunca lera nada do Campos de Carvalho até conhecê-lo, aqui, lendo um trecho de O púcaro búlgaro que postei há quase um mês. Eu prometi à minha bela amiga que postaria um trecho de Vaca de Nariz Sutil, tão logo encontrasse o meu exemplar do romance. Não, não foi nada disso: o Vaca nunca desapareceu, ele está há anos pastando bem embaixo do meu focinho nada sutil, tanto que fiz a tal postagem um dia depois da primeira, bem antes de fazer a promessa à minha bela amiga.

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Afinal, que diabo de texto do Campos de Carvalho eu havia prometido à minha bela amiga postar? Ou será que prometi a ela fazer nova postagem sobre ele sem definir de que livro extrairia o texto? Pensando bem, será que fiz mesmo alguma promessa? Minha bela amiga de fato nunca lera nada do Campos de Carvalho? Terá sido ele ou um texto dele que me apresentou a ela? São perguntas que só mesmo minha bela amiga (ou a bela amiga dele) pode responder – isto é, poderia, se eu conseguisse lembrar ao menos o seu nome, ou o nome de alguma amiga (minha ou dele, bela ou não) que goste ou possa vir a gostar da literatura dele (ou de mim).

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Quem souber o paradeiro de alguma amiga (minha, do Campos, sua, leitor, ou de qualquer um) que esteja desaparecida de mim, por favor contate imediatamente este blog. Pago bem por qualquer informação. E pago adiantado, com a crônica a seguir, umas das muitas – tão poucas! – que Campos de Carvalho publicou no legendário Pasquim:

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Vocês já devem ter ouvido falar no Inconsciente Coletivo. Eu já ouvi uma vez na esquina da Ouvidor com Gonçalves Dias: me lembro de que chovia.

Para mim o Inconsciente Coletivo sempre foi uma outra coisa, é simplesmente um ideal inatingível: todo mundo agindo inconscientemente como se estivesse em pleno carnaval, sem dar a mínima para o imposto de renda ou o câncer e levando a vida no flauteado, como Pã na floresta, no tempo em que havia florestas. O executivo com a sua pasta seria um maluco nesse mundo visto de cabeça para baixo, como já o é mesmo visto de cabeça para cima – e os relógios andariam da direita para a esquerda só para chatear, sem outro objetivo que o de chatear; quem quisesse saber das horas que fosse perguntar ao bispo. Freud não entraria na jogada, nem ele nem nenhum criador de sistema nenhum; já o sujeito pensar num sistema mostra que é um sistemático (o que não quer dizer que quem pensa em asma seja forçosamente um asmático) e deve-se sempre fugir de qualquer tipo de sistema, sobretudo deste de querer fugir de qualquer sistema.

A deusa Razão inventada pela Revolução Francesa deu no que deu – e o negócio é apelar para a não-Razão, que pelo menos nos hospícios tem dado ótimos resultados e só de Jesus já deu mais de cem mil. (É verdade que também tem dado Napoleões Bonapartes, mas não se pode exigir nada perfeito neste mundo.) Só é doido quem não é, li outro dia no jornal, e o autor da frase só podia estar maluquinho da silva, que nunca vi frase tão sábia em toda a minha vida. Deve estar em alguma camisa-de-força a esta hora, a qual só lhe pode dar ainda mais força. SÓ É DOIDO QUEM NÃO É: meu Deus, fazei com que eu acredite piamente nesta verdade de cristal, e dai-me sobretudo forças para segui-la à risca, pelo menos até a morte.

Mas o inconsciente coletivo é uma utopia, como tudo que é coletivo, gregário, grupal, feito pela ou para a multidão, pois até prova em contrário não somos abelhas ou térmitas, infelizmente para nós, é bom que se acrescente. Estou falando do inconsciente coletivo tal como o entendo e disse acima, por sinal que da maneira mais lógica e consciente possível, o que já demonstra a sua utopia. Louco se é sozinho, e mesmo numa casa de loucos cada um está sozinho no seu canto com a sua loucura: It is impossible that tiger mate, já dizia o poeta, e a verdade é que os tigres não costumam mesmo andar juntos. Nem os tigres nem os sábios, acrescento eu: até hoje ninguém ouviu falar de invenção nenhuma feita por um agrupamento ou uma multidão de pessoas, só se descobre em grupo ou em multidão aquilo que é óbvio. E às vezes nem mesmo o óbvio. A vida é a sós – e, o que é pior, também a morte.

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Leia mais Campos de Carvalho aqui e aqui!


quarta-feira, 17 de março de 2010

O livro de cabeceira dos moribundos

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Os pesados encargos que venho acumulando neste blog não só me vergam as costas até os tornozelos como consomem todas as 28 horas do meu expediente diário durante nove dias por semana. Com isso, meus projetos pessoais acabam ficando de lado, como é o caso da divulgação que só agora faço do meu livro que deveria ter sido badalado em dezembro, para aproveitar o clima propício que o espírito natalino oferecia a este Catálogo Lambroso de Epitáfios do Caralho!

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Aqui lhes sirvo uma pequena talagada dos 150 epitáfios que compõem este projeto literário de profunda e, sobretudo (ou sob tudo), subterrânea relevância. Além de reunir todos os ingredientes indispensáveis para se tornar o livro predileto de onze entre dez pessoas que estão pela bola sete, minha obra contempla a perspectiva cultural mais ampla de, uma vez adotados os inéditos epitáfios que sugere, estimular a leitura e o aprimoramento humano dos funcionários, freqüentadores e, principalmente, dos moradores eternos dos cemitérios.

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Aqui jaz

O amigo dos reis,

Um que sempre fez

O mesmo que agora faz!

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Sai pra lá, olhar repelente,

Que a vida é que é doida, não eu,

Pois anda morrendo gente

Que antes nunca morreu!

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O que é a vida???

Não tô nem aí!!!

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Esta exígua morada é infinita

Como a paz de quem nela mora:

Não cabe a mulher que me irrita

Nem filho nem sogra nem nora.

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A vida é uma caixinha de surpresas

que vai crescendo... vai crescendo...

até se tornar um caixão de obviedades.

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DA VIDA NADA SE LEVA!

(Tratei de morrer rapidinho, enquanto

a Receita Federal ainda cai nessa!)

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Enquanto tive forças e prazer

Dei para tudo que era curiboca.

Agora, meu negócio é com você,

seja verme, tatu ou minhoca!

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Sei que homem nenhum

vai acreditar, mas eu juro:

é a minha primeira vez!

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Bebi, pelas minhas contas, dezoito

Mil litros de pinga, dia após dia.

Graças a isso, fui para o Céu, pois,

Se fosse para o Inferno, ele explodia!

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Mais sublimes obras-primas do lírico Teopha aqui, aqui e aqui.

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segunda-feira, 15 de março de 2010

Salve Paulo Coelho – o legítimo!

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Este senhor que aparece aí na foto – a intrometer o cavanhaque baitolo no desenho que fiz para ele, em comemoração aos nossos 40 anos de amizade – é o único Paulo Coelho que vale à pena ser lido. Porque é o legítimo, o que sabe escrever, cravejado que é de genes garimpados nas mais ricas lavras de magia das Geraes, mormente em Codisburgo, pátria adotiva de uma leva de imigrantes de Saturno, seus antepassados maternos, e feudo do bruxo Guimarães Rosa e seus matutos alquimistas.

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Este Paulo, mais do que Paulo, é Coelho de verdade, como todos os torcedores (ele e mais dois) do América, o glorioso decacampeão mineiro que atualmente chuta bola de meia lá pela décima divisão do futebol boliviano – ou vietnamita, guatemalteco... por ali.

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Ontem, dia 14 de março, este xamã de pedigree completou um ano de vida, a terceira ou quarta que encarna – direto, sem tirar de dentro! Por isso, publico aqui um de seus textos, colhido no Rindo de Nervoso, o blog de sua vida imediatamente anterior. Por isso, também e sobretudo, faço aqui, de público, uma confissão que a ele não fiz (a bruxos lá carece que se fale o que sua audição de raios X capta no eco do oco anímico dos mortais?): a obra da foto não foi uma simples homenagem à nossa longa amizade: bem mais do que isso, foi – e continua sendo – a tradução visual de um apelo candente, desesperado, histérico: “Não ouse morrer, mano véio fedaputa!”

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E vamos, sem mais delongas piegas, ao texto do mestre transcendental:

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De porta em porta

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Paulinho Saturnino Figueiredo
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Aos tantos amigos, alguns
hoje já mortos, que me
carregaram nas escadas dos
bares da vida, e muitas
outras que tais.

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. . . . . . Boteco é assunto transcendente em boca de belorizontino, fizemos da qualidade e da simpatia de nossos botecos uma lenda, e adoramos proclamá-la; mais que isso, nos obrigamos a cultivá-la. Não existe relato de história passada por aqui, na tinta do poeta ou na boca fácil do vulgo, que não inclua seu exemplar: do onisciente Bar do Ponto dos primórdios, aos balcões onde mal cabe um par de cotovelos no Mercado Central dos fígados acebolados; dos copos sujos do baixo e do médio meretrícios, aos incontáveis barzinhos da moda que dão fundo biográfico aos lazeres de nossa classe média. Existem botecos onde o melhor é a conversa, existem outros onde ouvir boa música parece regra, e existem até aqueles onde se encontra paz para partilhar silêncios e testas franzidas, olhares perdidos em copos pela metade.

Diz-se que os que habitam esse território ornado por montanhas feridas precisam de razões relevantes, quase nobres, para não ocuparem, com disciplinada constância, um bom lugar no boteco de escolha. Pensando assim, de sopapo, me ocorreram três dessas razões: falta de dinheiro, crise de desamor pelas surpresas da vida, e barreiras arquitetônicas e urbanísticas, que é a razão que ora mais me interessa. Às duas primeiras razões, com as quais quase todos um dia conviveram, dirijo umas palavrinhas.

Lamento a morte covarde do fiado e do pendura, verdadeiras instituições da convivência cordial que expunham, para constrangimento ou gáudio dos assuntos da freguesia leal, nas cadernetas ensebadas ou nos papeizinhos espetados, depoimentos vivos sobre as penúrias ou as falhas de caráter de algum parceiro de copo. Quem os matou foi a banca, com seus tristes e indispensáveis cartõezinhos de plástico – ¿ débito ou crédito, senhor? –, que transferiram tais assuntos para seus cofres e sigilos inescrutáveis. Da razão ligada ao desamor pela vida, não cabe aqui tratar. Paradoxalmente, é assunto bom para mesa de bar, amainadas a mágoa e a dor.

Mas, sei dessas coisas aí mais por ouvir contar, pois os botecos de aqui, em sua grande maioria, hoje são cruéis com os de minha laia. Já não sei em quantos deles tentei aportar e fui expulso pelas impossibilidades ambientais, rabicho entre as pernas. Andando com muletas até à beira dos 50 anos de idade, numa Beagá amena por boa parte desse tempo, apesar dos percalços pude transitar de modo razoável pelos botecos da cidade. Em especial nas décadas de 1960 e 1970, foi na efervescência de suas mesas que desenhei o principal de minha vida, de meus rumos, e o perfil de meus amigos.

Hoje, regredido para cadeirante há já uns 8 ou 10 anos (11 ou 13, atualiza este blogueiro), no que deveria ser o gozo da aposentadoria, só vi as coisas se complicarem. Os amigos pensam em te convocar, mas sabem que naquele boteco, ou naquele outro do torresmo perfeito, cadeira de rodas não chega, e não entra.

Proponho um raciocínio de ordem capitalista, pragmático (sem fricotes humanitários ou cidadãos, posto que isso parece irritar os donos do negócio e as autoridades concernidas): devagarinho, os deficientes vêm ascedendo às classes consumidoras, por outro lado vemos os velhos rejeitando a morte, e, ao esticar a vida, reabastecendo com freqüência as legiões de deficientes. Estamos sendo empurrados para os shoppings centers e derivados, espaços onde não floresceram botecos de qualidade, talvez por alguma incompatibilidade inata entre o beberico e a conversa mansa, de um lado, e as tsunamis de homens e mulheres ensacolados, e crianças urrando seus mais baixos desejos, de outro.

Pensando bem, o acesso adequado a botecos de bom nível merecia ser tratado como uma questão básica de cidadania, direito inalienável. Ainda comemoraremos essa idéia, então vitoriosa, num boteco de boa bebida, bons petiscos e bons acessos.

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Nota (fúnebre porém edificante) de Teophanio Lambroso:

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Se mudar de idéia, seu pacóvio pajé cadeirento, e resolver empacotar pra valer, tome aí (de graça, garruchão!) o mais singelo dos 150 itens do meu (já à venda!) Catálogo Lambroso de Epitáfios do Caralho!:

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domingo, 14 de março de 2010

Besouros, escorpiões, lacraias e outros bichinhos

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Comidinhas vivas que o não-nascido

garimpava na terra quando ainda bebê

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Em mais um trecho selecionado da Autobiografia de um que nunca nasceu, temos Fiophélio Nonato a relatar uma de suas primeiras aventuras pelo quintal de casa. Com menos de um ano de idade, ainda engatinhando, já provara todos os insetos e outros invertebrados que encontrava na terra – e elegera entre os seus prediletos a lacraia e o escorpião, os quais saboreava sem riscos, através de sofisticadas técnicas desenvolvidas por ele mesmo.

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Pequenas iguarias pelo chão

Meu padrinho Eros Ivo, que me criou como filho, não gostava que eu brincasse com bichinhos na terra do quintal lá de casa, não: bem sabia ele que eu gostava de comê-los, principalmente os besouros e os pequenos caracóis, irresistíveis na sua maciez crocante. Aprendi desde muito cedo, por volta dos 10 meses de idade, quando já sabia engatinhar com desenvoltura, que essas iguarias têm hábitos, tiques e manias como os seres humanos. As joaninhas, por exemplo, se você demorar a mastigá-las, escapam para o céu da boca e nele se aferram com tal empenho que fica impossível removê-las com a língua. Se você, no entanto, ali deixá-las quietas por alguns minutos, a ansiedade acaba por traí-las: cientes da gravidade da situação, começam a circular por toda a sua boca, pisando mais forte com o par de patas traseiro e emitindo estrilos – perceptíveis tão-somente pelo aguçado tato da mucosa humana –, como se a discutir a melhor estratégia para enfrentar o perigo iminente de morte. Já os caracóis, normalmente lerdos no caminhar, tornam-se lépidos dentro da sua boca, deslizando em alta velocidade pelas pirambeiras da língua, a tirar partido da mistura de saliva com a própria baba de molusco: e assim esquiam tranqüilos e sorridentes, alheios à visão dos dentes que irão triturá-los.

A par dessa minha preferência por coleópteros e pequenos moluscos com casca, nunca rejeitei outros serezinhos que a terra me oferecia, nem mesmo as lacraias e escorpiões. Sabendo agarrá-los, de modo a evitar e depois extrair o perigoso ferrão, são frutos muito prazerosos: o gosto acre e travoso logo é suplantado pelo agradável entorpecimento da língua que decorre do vazamento do veneno, inofensivo sem a ação da ferroada. No entanto, há que se conter a gula, posto que dois ou mais indivíduos dessas espécies peçonhentas, se embocados ao mesmo tempo, são capazes de planejar e executar em segundos uma vingança terrível: secretam uma enzima que transforma seu algoz em vítima de uma diarréia das mais dolorosas. Tal substância, a Ciência ainda não foi capaz de detectá-la, uma vez que é produzida apenas nesta exata ocasião: quando eles estão à beira da morte no cadafalso oral de um ser humano.

Este texto já foi publicado numa série entitulada Bestiário – aqui – no blog de Hélio Jesuíno, de quem surrupiei os bichinhos da ilustração acima.

Mais trechos do livro de Fiophélio Nonato aqui, aqui e aqui.