segunda-feira, 12 de abril de 2010

Baleia bêbada causa briga feia no Rio!

.

.

Rio de Janeiro – Um baleia bêbada está monopolizando a atenção dos cariocas desde as primeiras horas desta segunda-feira, quando apareceu dando saltos cambaleantes na Lagoa Rodrigo de Freitas e distribuindo pinga de graça pelo chafariz. Não se sabe ainda se ela veio do mar ou se desceu numa das muitas enxurradas decorrentes das chuvas, presa nos escombros de algum boteco de favela. O fato é que sua aparição causou polêmica e até uma briga envolvendo a maioria das milhares de pessoas que logo se acotovelavam à beira da lagoa para ver as evoluções do cetáceo cachaceiro.

"Não bastasse o monte de graves problemas causados pelas chuvas, agora ainda temos de aturar uma baleia bebum”, disse Amâncio Basta Cansado, morador da Lagoa e membro honorário do AA. “Ela é uma gracinha, precisamos nos unir e agir imediatamente para impedir que ambientalistas irresponsáveis queiram nos tirar sua guarda e removê-la daqui, a exemplo do que fizeram com a nossa saudosa capivara", afirmou a cronista Cora Ronai, prometendo iniciar uma campanha através de sua coluna para tentar convencer alguma empresa a adotar a baleia. “Quem sabe um fabricante de cachaça não se habilita, fornecendo seu produto para a alimentação da nossa amiguinha”, acrescentou.

Ed Motta, que passava se arrastando na sua caminhada matinal, disse que o cetáceo, embora muito branquelo, lembra muito o seu tio Tim Maia: “Talvez seja a alma dele, né? Ou, pensando bem, pode ser até a minha, sei lá, tomei um baita porre de gueitoreide ontem.” O palpite do cantor acabou suscitando um grave incidente político, com troca de palavrões, unhadas e cusparadas entre partidários do atual prefeito, petistas e tucanos. O entrevero começou quando os primeiros resolveram apelidar a baleia de “Paes & Amor, a Baleia Assassina”. A turma do PT protestou, e um deles gritou: “Porra nenhuma. Olhem bem para ela, vejam se não é a ‘Dilma 2010’.” Aí um tucano logo escancarou o bicão: “Sem essa, meu. A parte mais abundante é a careca do Serra escrita e escarrada.” E o pau quebrou.

.

sábado, 10 de abril de 2010

Campos de Carvalho vive!

.

.
Hoje, 10 de abril de 2010, faz 12 anos que o escritor Walter Campos de Carvalho nasceu pela segunda vez. Por sua importância ímpar na literatura brasileira e, sobretudo, porque parece que ele está se saindo muito bem nessa aventura que poucos conseguem desempenhar a contento – a de viver uma segunda vida, e direto, sem o intervalo regulamentar para descanso no vestiário – é que estamos aqui, prontos para entrevistá-lo.

.

. . . . . . . . . . – Diga lá, Walter. Tudo em riba com este já adolescente coração ateu?

.

. . . . . . . . . . . . . . . .. “Meu coração é como o frio espectro de Is,

. . . . . . . . . . . . . . . .. a submersa:

. . . . . . . . . . . . . . . .. cobrem-no turvas águas silenciosas

. . . . . . . . . . . . . . . .. e a fluida fauna dos pecados e das penas

. . . . . . . . . . . . . . . .. que eu vivi outrora, quando vivo.

. . . . . . . . . . . . . . . .. Tudo é profundo, inerte, escuro,

. . . . . . . . . . . . . . . .. neste meu grande mundo extinto,

. . . . . . . . . . . . . . . .. e é em vão que ainda perpassam sobre os seus escombros

. . . . . . . . . . . . . . . .. sombras de sonhos, lívidas, incertas,

. . . . . . . . . . . . . . . .. como peixes sonâmbulos.

. . . . . . . . . . . . . . . .. De quando em vez, porém,

. . . . . . . . . . . . . . . .. sinto nascer de mim, como de um estranho abismo,

. . . . . . . . . . . . . . . .. cantos plangentes, mil vozes em coro,

. . . . . . . . . . . . . . . .. que me surpreendem e animam como deuses

. . . . . . . . . . . . . . . .. ou me apavoram.

. . . . . . . . . . . . . . . .. Não sei como explicar ninguém o sabe –

. . . . . . . . . . . . . . . .. esses cantos funéreos ou divinos

. . . . . . . . . . . . . . . .. que assim despertam e vibram no meu peito,

. . . . . . . . . . . . . . . .. em meio à grande e densa noite de minha alma,

. . . . . . . . . . . . . . . .. como sinos submersos...”

.

. . . . . . . . . . – Este é o poema que dá título ao livro inédito Os sinos de Is, que você escreveu aos 18 anos...

. . . . . . . . . . “Aos 18? Então, no máximo, ainda o escreverei, pois hoje, como há décadas ou séculos, tenho 3 anos... Quanto ao livro, não é inédito, apenas não o publiquei. Mas permiti que meu amigo Heleno o xerocasse e...”

. . . . . . . . . – Ele distribuiu cópias para os seus fãs do Brasil inteiro...

. . . . . . . . . . “Do Brasil, não sei, mas da Bulgária, certamente.

. . . . . . . . . – Então a Bulgária existe?

. . . . . . . . . . “Não, creio que não. Mas os búlgaros... ah, esses estão por toda parte!

. . . . . . . . . – À procura da Bulgária...

. . . . . . . . . . “Nunca! Eles são os únicos que têm certeza de que ela não existe. Porque até eu, quando o céu fica nublado ou o telefone toca e é engano, tenho lá minhas dúvidas.”

. . . . . . . . . – Você nasceu em Uberaba, morou em São Paulo, Rio, Petrópolis, de novo em São Paulo e hoje...

. . . . . . . . . . “Moro na Bulgária.”

. . . . . . . . . . Por acaso, está querendo dizer que você também não existe?

. . . . . . . . . . “Eu nunca existi.”

. . . . . . . . . . – Você já disse e escreveu isso várias vezes. Mas eu sempre pensei que fosse brincadeira.

. . . . . . . . . . “E é. Brincar é essencial: a brincadeira é o único antídoto contra a existência – como a entendem os que pensam que existem. Por sorte, nasci clown e morrerei clown, embora a vida toda tenha sido um mero funcionário público. (exaltado:) (Todos os funcionários públicos são meros, quando deveriam ser melros!) Sou eternamente grato a um crítico que certa vez me chamou de clown (cochicha, desconsolado:) ­(nem a minha própria mãe me chamou assim) – como sou grato aos que me chamaram de palhaço com segundas intenções ou mesmo com terceiras. Antes de morrer ainda hei de armar o meu pavilhão auricular, isto é, dourado, em todas as praças do mundo e dele partir como um bólido rumo a todas as constelações, pregando a hilaridade e a língua de fora à boa maneira de Einstein e dos enforcados: ASSIM!”

. . . . . . . . . . Nossa, sua língua quase tocou o gogó. Você é bem melhor nisso que o Einstein.

. . . . . . . . . . “Que isso, não diga uma coisa dessas! Se tivesse a língua dele eu lamberia os meus pés.

. . . . . . . . . . – Falando nisso, você fala várias línguas, né?

. . . . . . . . . . Todas.

. . . . . . . . . . – Todas?

. . . . . . . . . .“As vivas, que fique bem claro. Porque não se deve falar as línguas mortas. Latim, grego antigo, copta... todas dão mau-hálito. Pelo menos é o que parece: quando você começa a falar uma delas com as pessoas na rua ou mesmo dentro da srua própria casa, todos lhe viram a cara."

. . . . . . . . . . – Vai ver, pensam que você é louco.

. . . . . . . . . . “Há quem me tome por louco e eu mesmo já me tomei. Mas basta uma visita ao hospício para me convencer – desgraçadamente – do contrário. É como se fosse um lobo vestido com a pele de um cordeiro: expulsam-me só pelo faro. O título do livro que estou escrevendo no momento é exatamente Maquinação da Máquina, Especulação de Espelho. Assim como a 4ª Sinfonia de Charles Ivens exige a presença de três maestros para ser bem interpretada, assim também penso que esse meu novo livro, para ser bem compreendido, deva ser lido simultaneamente por três leitores.”

. . . . . . . . . . – Muito interessante. Mas como evitar o problema daquele que lê mais rápido, que chega ao fim da página e tem de ficar esperando os outros dois para poder virá-la?”

. . . . . . . . . . “Organização, estratégia. Um leitor começa pelo início do livro, outro pelo fim e o terceiro pelo meio.”

. . . . . . . . . . – Genial. Mas, e o do meio, deve ler em direção ao início ou em direção ao final?

. . . . . . . . . . “Isso fica a critério dele. Se for um bom leitor, certamente tomará as duas direções ao mesmo tempo."

. . . . . . . . . . – O olho direito vai para o fim, o esquerdo para o início...

. . . . . . . . . . “Exato. Ou o contrário, se ele for estrábico.”

. . . . . . . . . . – Tem certeza que não é melhor cada um ler o livro sozinho?

. . . . . . . . . . “Um homem só, ou vira anarquista ou vira louco. E mais: esqueça a primeira pessoa do singular, se preciso faça a barba fora de casa, compre um túmulo e mande gravar nele o seu nome, e o sobrenome, com retrato de criança e de adulto para evitar dúvidas, e coloque-o no ponto mais visível do cemitério – se possível em todos os cemitérios da redondeza, um em cada um, dois em cada um se o permitir a lei e mesmo que não o permita. Pode parecer um esbanjamento, mas são tantos os eus atrás de um simples eu que a medida se impõe, e mais se imporia se o governo não fosse tão obtuso, e os vizinhos, e a igreja, e todos os que se contentam com um nome para definir o indefinível e o caos.”

. . . . . . . . . . – Você não acredita em Deus, né?

. . . . . . . . . . Não, mas se você acredita, pergunte a ele se acredita em mim. Enquanto isso, aproveito para ir ao banheiro.

. . . . . . . . . . – Mas você conheceu o Diabo...

. . . . . . . . . . “Nunca. Não fomos apresentados, sequer trocamos um aceno. Mas isto me lembra aquela noite, verídica, em que eu fui se não o protagonista pelo menos o agonista – e, para ser sincero, a única testemunha. Embora se tenha passado comigo, acredito nela piamente. Faz sete anos, poderia fazer sete séculos ou sete minutos: eu deitado, no pré-albor de um domingo igual a tantos, o umbigo voltado para o teto, aquele corpo morto ao lado, o mesmo de sempre. Acordo e vejo-O nitidamente à minha frente, junto à parede, de pé, fitando-me, fitando-me: reconheci-O como se reconhece alguém diante de um espelho, sem um segundo de hesitação: nenhum medo, nenhuma surpresa. Era, e é, todo negro, um verdadeiro príncipe etíope, só os olhos em brasa para identificá-Lo, sem pálpebras, e sem sequer supercílios: e FITANDO-ME, agora com um quase sorriso. Durou talvez um minuto a visão, nem isso: mas ainda hoje me ofusca, me enlouquece, tira-me da minha órbita ou de qualquer órbita, como só Lázaro talvez depois que lhe arrombaram o sepulcro: dia após dia a mesma Noite sempre.

. . . . . . . . . . “Preciso ir ao banheiro.”

. . . . . . . . . . – A convivência, a vida em sociedade o repugna, certo?

. . . . . . . . . . “Errado. A tribo de que não faço parte tem lá suas coisas interessantes, que bem merece que eu as retrate. Eu compus há tempo um hino desportivo, tão do gosto dos que ela tanto aprecia, e que eu gosto de ouvi-la cantar sob o sol da tarde, na praça regurgitante, em dia de festa. Começa assim:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . ‘Umbanda surubiu Piranha

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . Socatu jurumirim petiba...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sucupira! Sucupira!...’

. . . . . . . . . . – Tem no hino alguma palavra em português de Portugal?

. . . . . . . . . . “Se o sr. não me deixar ir urinar, não respondo – nem respondo pelas conseqüências.”

. . . . . . . . . . – O banheiro é ali, naquela porta à direita..

. . . . . . . . . . Enquanto o Campos não volta do meu quarto – entrou na porta à esquerda e não na à direita – vou reproduzir outro poema inédito, O Argonauta, de 1949, no qual ele expande os caminhos abertos na poesia da adolescência, em direção ao surrealismo mais radical que viria com seus romances. Aqui, condiciona o Ser ao Escrever e insere a vida, metalingüisticamente, no espaço infinito da palavra. (Como o original foi apenas manuscrito e dele só tenho uma cópia precária, “funambulei” um bocado para decifrar o meio apagado adjetivo funambulesco.)

.

. . . . . . . . . . “Não devia estar apagado, logo ele, funambulesco, que é tão menos usado do que deveria.”

. . . . . . . . . . – Ah, voltou!

. . . . . . . . . . “Queira me perdoar, não era minha intenção. Mas não pude partir. Não encontrei nada em seu banheiro que se assemelhe a uma nau de cruzeiro ou mesmo a um vaso de guerra ou um vaso sanitário."

. . . . . . . . . . – Poxa, eu é que lhe peço perdão por esse empecilho. Não sabia que pretendia partir.

. . . . . . . . . . “Empecilhos só existem para quem quer chegar, jamais para quem quer partir.”

. . . . . . . . . . – Hummm, entendi: O Argonauta...

.

. . . . . . . . . . .. . . . . . . . Empreenderei esta viagem no meu barco

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Imaginário.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Comigo irá minha alma imperscrutável,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Aberta aos grandes mares tenebrosos e à carícia

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .De ventos invisíveis como deuses

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Que enfunam as velas frágeis e despertam

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Os ouvidos sutis.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Nem sombra eu levarei nessa epopéia

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Sobre-humana

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Por ígneas terras e candentes sóis,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Longe do mundo estreito e dos sonhos mortais

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Que ainda ontem me envolviam e me prendiam

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Como a um cadáver.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . .Eu singrarei tranqüilo ao som das muitas vagas

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Ignotas,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Sozinho sem minha alma atenta e em êxtase,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Como se fora ao encontro de uma Pátria, e não apenas

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .De uma ilusão a mais ou de um desterro.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Tudo que há de restar desse meu sonho informe

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .E funambulesco

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Será uma breve esteira apenas, sem beleza,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Em meio ao grande mar profundo e eterno,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Qual tênue flecha a apontar o Infinito:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .– Estes meus versos.

.

¬¬ ¬¬ ¬¬

. . . . .

Esta entrevista foi montada com:

– trechos de duas das raras entrevistas concedidas por Campos de Carvalho (à revista O Cruzeiro, em 1969, e a Heleno Álvares, em 96, que a publicou no Correio de Araxá);

– informações e o fac-simile de O Argonauta, extraídos de Campos de Carvalho: Inéditos, Dispersos e Renegados, dissertação inicial de Geraldo Noel Arantes para o Mestrado no IEL/UNICAMP, 2005;

– trechos e sugestões dos romances Tribo, A lua vem da Ásia, Vaca de nariz sutil, A chuva imóvel e O púcaro búlgaro;

­– o poema-título de Os sinos de Is;

– trecho de crônica publicada no Pasquim;

– alguma criação enxerida, minha, tentando tangenciar as concepções estéticas e filosóficas do escritor.

. . . . .

Agradecimentos especiais ao autor (que não pude identificar) da inspirada foto que abre esta postagem, e ao poeta e jornalista Heleno Álvares, que enviou-me pelo correio cópias do inédito Os Sinos de Is e do raríssimo romance Tribo, esgotado há mais de 50 anos. (Ainda não chegaram, Heleno! Queira Walter que o carteiro não se tenha afogado nas enchentes deste meu Rio de Abril...)

.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Tainha curra dedão no elevador!

.
.

Dez coisas que sei, ou penso que sei, sobre o Rio alagado

.

1 – Originalmente, o Centro e a Zona Sul do Rio de Janeiro, tirante os morros, eram formados por areia e muita água: praias, ao sul, norte e leste; rios, lagoas, boqueirões de mar e alagados. Terra, a nível do mar, praticamente só a que descia com as chuvas, a caminho do mar – e era muito pouca, até começarem a desmatar os morros para produzir lenha e, sobretudo, para plantar café.

.

2 – O chão era tão encharcado e insalubre que nele só moravam os pobres e os escravos não encarregados de serviços domésticos. O ricos, esses ocupavam os morros – um luxo, a salvo das águas infectas e das inúmeras moléstias que elas causavam. Depois, quando pobres e escravos deram um jeito no chão, os ricos desceram e os mandaram à puta que pariu morro acima.

.

3 – Acho graça quando os jornais responsabilizam os últimos governantes da cidade pelas tragédias atuais causadas pelas chuvas. Problemas graves desse tipo começaram, se não me falha a memória (eu era pequeno na época), ali pelo início do século XVIII, quando os monges franciscanos drenaram a Lagoa de Santo Antônio, abrindo espaço para a ocupação do que é hoje o Largo da Carioca. A vala que os religiosos mandaram escavar ia em direção Norte, da lagoa até a Prainha, nas imediações da atual Praça Mauá, num percurso de cerca de 800 metros. Se cavassem para o Sul, encontrariam o mar a menos de 150 metros. Sim, os monges eram em sua maioria portugueses, mas de burros não tinham nada. Sabiam que a vala seria útil para despejo de excrementos humanos, e o trajeto escolhido margeava uma área que concentrava o grosso da população urbana que tinha dificuldade de lançar seus dejetos no mar. Daí, imaginem o que acontecia com a vala nos períodos de chuva forte... Do banho de bosta só escapavam os bem de vida, encastelados no Morro do Castelo.

.

4 – Não se escandalizem com a nojeira que era o “novo sistema de esgoto” do Rio setecentista. À época ainda era comum – na Europa, sobretudo – se livrar dos excrementos da forma mais simples: jogando pela janela. Por esse tempo, não havia banheiro em muitos dos mais requintados castelos do Velho Mundo, e cagar no mato só era, como ainda só é, possível nos dias menos frios – os quais, no caso do Norte da Europa, resumem-se a uma meia-dúzia por ano. (A cidade de São Paulo, nesse quesito sanitário, era originalmente muito bem-dotada, porque além do valão-mor até hoje bastante utilizado – o Tietê –, tinha ainda, a céu aberto, os riachos Anhangabaú e Tatuapé, ambos, a certa altura, receptores de uma quantidade de cocô que excedia a capacidade de transporte do seu fluxo de água. Segundo tese de uma amiga paulistana, esses dois cursos d’água contaminada entraram pelo cano apenas por causa de seus nomes: o Anhangabaú, porque os cidadãos de São Paulo “nunca metiam nele o acento que preferem meter naquela palavrinha que com ele rima e que, embora fique no assento, não tem acento”; já o Tatuapé, diz minha amiga, tornou-se obsoleto e até surreal: “A pé, em Sampa, nem tatu, meu!”)

.

5 – Por volta de 1765, o Vice-Rei Antonio Álvares da Cunha fechou a vala dos franciscanos, surgindo em seu lugar a Rua da Vala, atual Uruguaiana. Mas os problemas com as chuvas persistiram. O Rio, que, graças a negociações bem sucedidas de Cunha com a Coroa Portuguesa, passara a ser a capital do país, crescia muito rápido, e já beirava os manguezais do Saco de São Diogo, grande invaginação de mar que chegava até o Campo de Santana. Na época das chuvas as áreas circunvizinhas eram alagadas, e as doenças grassavam mais forte. Um dos males mais comuns, então, era a tenebrosa – e muitas vezes fatal! – conjuntivite.

.

6 – Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão d'Eça e Melo Silva Mascarenhas, o Marquês do Lavradio, Vice-Rei de 1769 a 1778, era obcecado com as constantes inundações que atormentavam a vida do carioca. Mandou aterrar toda a área alagadiça do Centro compreendida entre o Caminho de Mata-Cavalos (atual Rua do Riachuelo) e o Saco de São Diogo, que posteriormente seria quase totalmente aterrado, dele só restando desde então o filete de água, hoje putrefata, conhecido como Canal do Mangue. A obsessão de Lavradio, mais do que política, talvez fosse pessoal: o marquês contraíra uma ziquizira das brabas, seu corpo vivia coberto de erupções que ardiam e coçavam, obrigando-o a passar o máximo de tempo completamente nu. E no verão, a coisa piorava muito, exigindo o uso contínuo do melhor ar condicionado então disponível: um escravo bem disposto e equipado com abanador.

.

7 – Foi Lavradio quem “resolveu” uma questão trágica que as chuvas impunham aos cidadãos livres de então: a do Cemitério dos Pretos Novos, onde qualquer aguaceiro mais forte trazia à flor da terra os corpos enterrados em covas rasas. Não era uma questão humanitária, ninguém estava preocupado com a dignidade de mortos tão reles, assim como não estava preocupado com o sofrimento e a morte, a cada ano, de algumas centenas de escravos recém-desembarcados no porto do Rio, uma conseqüência natural da longa viagem e das péssimas condições de alimentação e higiene a bordo dos navios negreiros. O problema era o mau cheiro daquelas carcaças expostas. E disso Lavradio cuidou, transferindo o cemitério do Largo de Santa Rita, no Centro, para o Valongo, uma área próxima à praia da Gamboa. Claro que logo a cidade se expandiria até lá, e o desenterro de corpos promovido por chuvas fortes voltaria a ser um problema. Mas aí já não era com o marquês, que deixara o Vice-Reinado e, pouco depois, a própria vida – em Portugal, onde foi enterrado a sete palmos do chão, como determinava a lei para os homens livres e com dinheiro, lá como cá.

.

8 – A questão do tópico anterior se assemelha, me parece, à grande tragédia que vem ocorrendo no Rio e em Niterói com as chuvas dos últimos dias. O que realmente incomoda a maioria da população que não mora em favelas penduradas em barrancos é o “mau cheiro”, a constatação de que por trás da tragédia há o dedo podre da incompetência e negligência dos políticos. A grande mídia não vacila: “A culpa é deles!” E a classe média reflete profundamente durante um segundo e meio e conclui: “É, a culpa é deles!” E pronto, assunto resolvido; morto e enterrado – como a tragédia de Angra dos Reis/ Ilha Grande, para citar uma bem recente. Mas aí, de repente, cai outro toró e desenterra de novo esse assunto fedorento. “Precisamos reagir”, já deve estar dizendo uma parcela “politizada” da classe média, aquela que sempre cria um slogan contundente quando lhe dá na veneta promover ações guerrilheiras de vanguarda, como o “Chega!” – o “Basta!” – o "Cansei!” Quero até sugerir, para essa possível nova campanha dos Sem Saco, um bom slogan para a sua árdua luta contra tragédias diluvianas: “Guarda-chuva!”

.

9 – Queria falar ainda de muitas outras tragédias cariocas causadas por temporais, antigas e recentes, mas o espaço não dá. Tragédias como a tempestade ocorrida por volta de 1870 (nem fui conferir o ano exato) que revelou a precariedade do Porto da Praça Quinze, com um saldo de dezenas de navios seriamente avariados ou a pique. Mais do que a dor e os grandes prejuízos causados pela intempérie, o que me marcou quando me enfronhei neste caso atráves do pesquisador naútico Elísio Gomes Filho foi a informação de que entre as toneladas de cargas afundadas e desaparecidas no fundo lodoso daquele trecho da Baía da Guanabara estava uma múmia, uma múmia portuguesa, o corpo mumificado de um fidalgo português acondicionado num esquife de cerâmica e embarcado para ser enterrado em sua pátria. A família não recebeu o corpo, é claro, assim como nem ela nem ninguém se interessou em procurá-lo no fundo da baía. Fico imaginando a múmia lá embaixo, quieta nas profundezas do mar há 140 anos, matutando “Esta nau não chega nunca, ó Jesus. Parece-me justo começar a suspeitar de que o comandante esteja a andar em círculos para deixar o taxímetro a correr!”

.

9,5 – Queria falar também, se espaço houvesse, das tragédias que foram, para mim, pessoalmente – criançamente! –, saborosíssimas. Como as grandes enchentes da Praça da Bandeira, onde morei durante toda a infância, e vivenciei farras de arromba por vários dias, em todos os verões, proporcionadas por qualquer chuva mais forte que gerava, via decreto baixado por meus pais, férias escolares de emergência, sempre que o verão começava na primavera ou terminava no outono. Dei muita sorte: nos treze anos que ali morei, nunca completei um ano letivo sem pelo menos dez faltas motivadas por alagamento da rua! Loucura, ir à escola com água até pescoço! Loucura, faltar, na travessa ao lado, também alagada, à pelada de sempre que virava water-pólo!

.

10 – Vou falar então, sucintamente, mas não posso deixar de falar, do problema específico do lugar em que moro: a Lagoa Rodrigo de Freitas, aquela da breguíssima estrovenga arbórea natalina abracadabradescamente iluminada. Como serei sucinto, não vou falar dos diversos absurdos cometidos por vários cidadãos e entidades, com o aval das autoridades, da grande mídia e até de grande parte da população. Só de um, para exemplificar. A lagoa tinha, em frente a seus dois canais de ligação com o mar, dois bancos de areia que aumentavam ou diminuíam e variavam de lugar, conforme as suas necessidades de fazer face às mares, aos ventos, às cheias causadas pelas chuvas, etc. Hoje, um hoje de várias décadas, os bancos de areia não mudam de lugar nem diminuem. Só aumentam, e não conforme as necessidades da natureza, mas de acordo com o interesse de dois clubes que os ocupam: o Caiçaras, uma associação recreativa da classe média alta; e o Piraquê, que é ligado à Marinha! Sim, à Marinha, que é responsável por zelar pela integridade de todos os mananciais de água do país. Sim, à Marinha, que recebe, por direito adquirido através de lei sancionada em 1833, uma taxa anual de (des)aforamento de todo ocupante de terreno situado a até sei lá quantos metros do espelho d’água. No meu caso, que moro num bom quarto e sala, a União me cobrou, no ano passado, modestos 500 reais.

Bem, agora posso encerrar esta chuvarada dos meus cotovelos que já deve está causando uma baita enchente de saco. Só preciso, me perdoem o abuso, deixar uma pergunta no ar, ou melhor, no mar das ruas:

Se a União tem o direito de me cobrar pelo usufruto das inegáveis qualidades da localização do imóvel em que moro, ela reconhece a recíproca do dever inerente a este direito? Ou, mais direto: de que forma ela cogita me compensar pelos prejuízos causados em decorrência de sua omissão na prevenção e na resolução dos freqüentes problemas que me são causados em função dessa localização? Ou, de uma forma mais prática: se a lagoa transborda, inunda a portaria do meu prédio e uma tainha pega o elevador junto comigo, dá na marra pro meu dedão do pé e engravida, quem paga o parto é o pato aqui?

.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Passarinho na igreja

.

.

O poeta italiano Trilussa (Carlo Alberto Salustri – 1873-1950) escreveu sempre em dialeto romanesco, numa linha satírico-fabulista que o tornou muito popular no início do século passado. A tradução do poema que aqui apresentamos – L'uccelletto (O passarinho) – foi feita a duras plumas por Elza Magna, que talvez pouco saiba de dialetos italianos, mas, como sexóloga de renome, tem a obrigação de entender de passarinhos ambíguos como este do Trilussa.

De quebra, para quem quiser conhecer L'uccelletto no original, apresentamos no rodapé um vídeo do poema recitado pelo tenor Andrea Boccelli.

.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O passarinho

.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Era agosto, e um passarinho infeliz,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Atingido por tiro de espingarda,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A sofrer co'a asa que sangrava, diz:
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . “Que me trate Deus nesta sua mansarda.”

.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Pela treliça do confessionário
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O padre vislumbrou a angustiada ave,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Enquanto, espalhados por toda a nave,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Seus fiéis desfiavam preces no rosário.
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Uma senhora que ao pássaro viu,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Recolheu-o e deu-lhe abrigo entre as tetas.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Eis que de repente ouviu-se um piu-piu
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Que não era, decerto, o das sinetas.
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Alguém riu do inesperado cantar

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E o pároco, indignado, esbravejou:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . “Irmãos, esta é a morada do Senhor,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Quem tem o passarinho que saia já!”

.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Os machos, surpresos com o pedido,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Foram, um a um, deixando o local.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Mas o padre, bastante constrangido,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Disse-lhes: “Parem, que expressei-me mal!
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Retomem, por favor, os seus deveres;

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Só precisa sair quem pegou o bicho!”

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E de cabeça baixa e olhar bem fixo,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Saíram, devagar, todas as mulheres.
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Mas, enquanto elas se iam, gritou o frei:
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . "Voltem, senhoras, sem culpa que seja
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Motivada por isso que falei.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Me refiro a quem o pegou na igreja!”
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Puras e ordeiras, como sempre são,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Freiras se levantaram (a expor
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O rosto pleno de vermelhidão),

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Para deixar a casa do Senhor.
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . "Por todos os santos – pôs-se a clamar
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O sacerdote – irmãs, fiquem, em paz!...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Convém, caros pecadores, perdoar
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O mal-entendido e qualquer senão,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Exceto aquele de quem mal nos faz
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Por manter o passarinho na mão.”
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Furtivamente, em um canto isolado

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E escuro, na capela lateral,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Uma garota com seu namorado,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Muito aflita, já até passando mal

.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E com a pálida tez do seu temor,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Disse: “Viu, não falei que ele sacou?!”
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..

Trilussa, na voz de Andrea Bocelli

.