segunda-feira, 8 de março de 2010

Tuca com mil mulheres ao mesmo tempo!



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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Teophanio Lambroso . . . . . . . . . . . . . . . . .


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Empolgado com a leitura de alguns de meus artigos da série A ubiqüidade ao encalço de todas, e assessorado pelo onisciente Prof. Edson Rocha Braga, há três semanas o Tuca Zamagna vem tentando estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Até agora, a experiência tem sido um quase absoluto fracasso: nosso desajeitado amigo só conseguiu estar simultaneamente na sala e no quarto de seu conjugado.

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Desde a última quinta-feira, no entanto, a imagem do Tuca desandou a aparecer nos mais diferentes pontos do país e até do exterior. O interessante – e bastante animador, sem dúvida – é que somente mulheres têm testemunhado essa estapafúrdia manifestação de ubiqüidade, como informam as centenas de mensagens femininas que temos recebido, muitas delas acompanhadas do registro fotográfico da aparição.

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É o caso de Hericleuda Bimbão, dona de casa de Pindamonhangaba do Sul, Piauí. O Tuca, segundo ela, apareceu na madeira do armário da cozinha (foto acima) “e não dentro do armário do quarto, como costumam fazer os rapazes que têm vergonha de aparecer pelado na minha cama quando meu marido chega em casa”. Hericleuda afirma que Tuca iluminou a sua vida. Também, pudera: ela acendeu, pela casa toda, dezenas de velas de sete dias da marca Tuca (à venda nas melhores sex-shops, casas esotéricas e funerárias!). Tanta luz acabou por induzir seu marido a ter uma idéia luminosa: cobrir de armários as paredes do quarto do casal, de modo a poder alojar confortavelmente toda a rapaziada tímida que freqüenta sua esposa.

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Já a lavadeira Orélia Oaisse, de Porto Seguro de Itapemirim, Mato Grosso, conta que se deparou com o rosto do Tuca quando ia limpar o ferro de passar (foto). Sem querer apagar a imagem e sem poder passar as roupas para não sujá-las, Orélia encontrou uma saída que poderá torná-la milionária: passou a estampar, com o próprio ferro, a imagem do Tuca em camisetas, que estão vendendo como água. Além disso, vem imprimindo as fuças do nosso amigo em calcinhas que, por enquanto, ela não vende por dinheiro nenhum: “Tem estampa em dose dupla, Tuca na frente e Tuca atrás. Me sinto um recheio de sanduíche com pão de alta qualidade, que me mantém quentinha e feliz o dia todo!”

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A metalúrgica Zinca Chumba encontrou a imagem do Tuca numa das infiltrações de água ocorridas em sua casa (foto) durante as fortes chuvas que têm alagado a cidade de São Paulo de Viterbo, Acre. Zinca não pretende consertar as infiltrações, porque está adorando a peregrinação de paulistanos à sua residência, gente que vem de todos os bairros – a nado, de canoa, de bóia, de jet-sky – para ver a imagem do Tuca e procurar outras nas demais infiltrações. “Até agora, já foram comprovadas mais oito aparições – conta Zinca –, entre elas a da Hebe, do Cebolinha e de um tucano careca, além de outras cinco do Tuca que não acho legal mostrar pois são tremendamente eróticas.”

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A aposentada Erda Ostha, de Quixeramobim, Alemanha, nos telefonou dizendo ter visto o Tuca em uma banana d’água (foto). A princípio, achou apenas curioso o fato de as manchas da casca formarem um rosto tão perfeito, até descobrir que todas as bananas da penca que comprara tinham a mesma característica. E comentou: “As banana do Tuca é um verdadeira milagre. Faz muita bem durante o madrugada.” Alertada sobre o perigo de comer uma fruta tão indigesta à noite, a velha dama caiu na gargalhada, e explicou: “Quem fala que Erda come um banana à noite?... Os banana todas da Tuco é que come Erda o noite inteira!”

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Até no Japão a imagem do Tuca já apareceu. A jovem Takabu Sasseka, de Naskoshin Nundah, disse estar muito “aregre” com a aparição do nosso amigo no traseiro de seu cão Xuxeta (foto). Segundo Takabu, o animal era uma fera, vivia atacando os gatos da vizinhaça, mas agora brinca tranqüilo com todos os bichanos, e até já aprendeu a miar com as gatas: “Eras ficam arucinadas quando vêm a imagem do Tuca, no? E querem ‘rogo dar pro meu cachoro.” Só há um problema, revela Takabu: “Vizinhos ‘rerigiosos cismaram que o Tuca é deus, no? Daí, vivem metendo o dedo no cofrinho do Xuxeta para depois se benzerem.”

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Fonte das imagens: Bule Voador



quarta-feira, 3 de março de 2010

A Inversão Revertida

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Prof. Edson Rocha Braga

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. . . . . . . . . . . Durante muito tempo, os filósofos e os oftalmologistas tentaram desvendar um dos grandes mistérios dos olhos superiores humanos.

. . . . . . . . . . . Trata-se da inversão da imagem.

. . . . . . . . . . . Sabe-se que a imagem transmitida através das pupilas chega invertida à retina. Mas, por muito tempo não se conseguiu descobrir como o cérebro não as percebe invertida.

. . . . . . . . . . . O mistério foi totalmente explicado em 1992 por Ariosvaldo. E a explicação estarrece pela simplicidade pois que, tão-somente, o mundo, na realidade, é todo invertido. E apenas o percebemos ao contrário do que ele é.

. . . . . . . . . . . Essa contradição foi reforçada após a descoberta da máquina fotográfica, a qual, como todas as invenções do homem, foi criada ao contrário.

. . . . . . . . . . . Ariosvaldo solucionou o mistério observando o mundo através de um espelho côncavo, o qual, por falha humana de fabricação, refletia corretamente. (Tratava-se, verificou-se depois, de um espelho planejado para ser convexo.)

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terça-feira, 2 de março de 2010

O nascimento do não-nascido

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Fiophélio tem sua gênese

parido por um grande amor

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Em mais um trecho que aqui postamos da Autobiografia de um que nunca nasceu, de Fiophélio Nonato, eis que o nosso desilustre não-nascido conhece o amor.

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E o vive tão alucinada e visceralmente, que chega a se convencer de que está, enfim, nascido:

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .Pela devassa insônia

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .Com que ela mumifica-me

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A alma de madrugada

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Num rondó que costura

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Cem mil vindouros séculos

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..De faraônica tecitura;

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Por descaminhos turvos

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Que meus despojos trilham

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Quando a mais breve ausência

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sua deflagra a febril

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Degeneração da abstinência,

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Meu coração dispara

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Desde que dela vim

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O verbo escrito em sangue:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sou tudo em ti, mais nada em mim..

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Leia outros poemas de Fiophélio Nonato aqui e aqui.

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domingo, 28 de fevereiro de 2010

O sátiro sutil do nariz paulista de Minas

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Mais uma dose de Campos de Carvalho, . . .

o cateto das hipotenusas do Triângulo. . .

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Vaca de nariz sutil, publicado em 1961, foi o romance que chamou a atenção de vários ficcionistas de renome e críticos literários para o estilo único de Campos de Carvalho, projetando nacionalmente o surreal romancista de Uberaba.

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Eis alguns trechos do Capítulo 11, em que o personagem-narrador vai estar com a adolescente Valquíria onde ela mora – no cemitério cujo zelador é seu pai, do qual o desalentado e cético ex-combatente ficara amigo numa noite chuvosa, na primeira cena do livro:

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O seio esquerdo de Valquíria na minha mão: um ovo. AQUI JAZ BALTHAZAR PATINO DOS...

O velho foi ver o desfile, nas grandes datas ninguém se lembra dos mortos, só dos grandes mortos, como se houvesse mortos grandes e pequenos: nem mesmo se morre nas grandes datas, o cemitério é um verde límpido campo na primavera, até o vento se pôr a ruflar.

Não se trata de uma traição; traição seria se não estivesse com o seio de Valquíria na mão, aquecendo-o como a uma rola assustada: sinto-lhe o coração palpitando na ponta dos dedos, nem um instante se acelera ou se retrai, é um pêndulo marcando a passo a fuga do tempo – o tempo que aqui não conta e tem a idade dos mortos. A calma de Valquíria contrasta com o seu olho inimigo, são duas criaturas que respondem diferente ao apelo da minha angústia, a uma eu a mataria sem piedade e me faria mil vezes matar pela outra: a verdadeira: a única. De todos os mistérios, este é o mais insondável que conheço e desconheço, é meu este susto e não do seu coração, este silêncio também é meu e não dos mortos: devo estar lívido e terrível. Não sei o que faça da minha mão, talvez já nem mais me pertença, posso ter sido atraído a um ardil sem nome, o olho de Valquíria arrastando-me à minha perdição, ele e eu presas do mesmo sortilégio, do mesmo medo.

Vim ao seu encontro como um moribundo que transpusesse os umbrais de sua morada, (...) Junto ao túmulo, como se me esperasse havia séculos, Valquíria não esboçou uma palavra, a cabeça docemente pendida para a esquerda: tomou-me da mão e, como se cumprisse um rito, colocou-a de leve sobre o seio.

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O velho vendo o desfile, isso sim é uma traição: como pastor de mortos deveria saber melhor do que eu, que sou apenas um deles.

(...)

A menina não suporta a multidão, e quem suporta? – dá-lhe uma angústia que nem sei como explicar, pois eu sei muito bem, no carnaval os mascarados que vêm expiar no portão deixam-na em estado de pânico, a mim me deixam o ano inteiro – no dia de finados há que fechá-la dentro de casa, e é o que me faço.

Deixar Valquíria assim à solta entre os mortos é que não parece justo, sozinha é uma coisa e entre os mortos é outra, suas raízes já cresceram entre eles e o seu sonho é povoado dos seus sonhos: um belo dia ela se enterra a si mesma, cova aberta é o que não falta, até parece que os responsáveis sentem prazer em assustar os vivos: irresponsáveis é o que são.

Esse seu outro olho é tão inimigo quanto meu, arrasta-a para onde quer e não para onde ela quer, ainda agora me odeia porque a vê na minha retina e já não a sente tão desamparada, o seio na minha mão como se fosse uma pedra, eu mesmo uma catapulta. Assim à espreita ainda é mais sórdido e repelente, poderia se quisesse arrancá-lo com a outra mão e ainda acabarei fazendo-o: na guerra como na guerra, não é meu este provérbio mas agora é meu. A calma me volta como nos momentos mais decisivos, conheço-me o bastante para saber do que sou e do que não sou capaz: afasto a mecha de cabelos, e ei-lo à minha frente como uma fera acuada: OU ELE OU EU.

Valquíria está chorando com o seu olho, uma lágrima apenas, duas: sua mão aperta mais a minha sobre o seio, uma carícia mais do que um apelo – é de alegria esse seu pranto, se não de amor. O sol no rosto torna-a quase imaterial, a boca aberta para o que não sabe ou não pode dizer, as narinas arfantes: – como uma fúria eu sorvo esta alma que assim se entrega e se recusa, mordo estes lábios subitamente intumescidos, a língua fremente e esquiva: os dentes de criança.

Reclino-a sobre o túmulo, ela se deixa deitar, seu corpo está mais quente que o mármore, deito-me sobre Valquíria e sobre o morto, o dia faz-se noite, o mundo já não existe, nenhum mundo.

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Leia um dos poemas de Os sinos de Is, livro inédito de Campos de Carvalho, aqui.

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