Poemas de um cão sem donoé o título do livro do meu amigo Caio Julius Caesar, mais conhecido como Cesinha, um vira-lata que vive pelas ruas do Rio desde que nelas foi jogado, junto com mais cinco irmãos, pela cadela dona da cadela mãe deles.
A obra reúne variados gêneros poéticos, do verso livre à canção em redondilhas rimadas, do soneto em decassílabos ao soneto em alexandrinos, do oito pés a quadrão dos repentistas nordestinos ao haicai. São deste gênero oriental os poemetos que agora apresentamos – batizados, pelo próprio Cesinha, de haicães.
O não-nascido leva ao circo as gargalhadas do falecido . . . .
Em suaAutobiografia de um que nunca nasceu, Fiophélio Nonato passa a conviver com súbitas aparições da gargalhada de seu padrinho Eros Ivo depois que este morre, em circunstâncias estranhíssimas. No trecho do livro que apresentamos a seguir, a gargalhada aparece em lugar bem apropriado: no circo, umas das paixões de Nonato e seu “Dindo”.
O circo lotado, fim do derradeiro número. A gargalhada monumental e irresistível do meu finado padrinho Eros Ivo eclodiu como rédeas conduzindo para o alto os risos e aplausos dos expectadores que serenderam, todos, às fantásticas cambalhotas mortais do palhaço Fefênix, sem perceberem que o artista, estirado imóvel no chão, prolongava a imobilidade não para dramatizar e realçar o efeito cômico da sua performance, mas porque lograra realizar a cambalhota mortal perfeita: no ar, enquanto piruetava a esmo, fisgara o mal súbito que o matou. E agora todos gargalhavam cada vez mais alto, sob a batuta sonora do Dindo, e logo se dobrariam de tanto rir, caindo uns sobre os outros, alguns já molhando as calças, outros até babando a alma alheia.
O palhaço Fefênix então se levantou da morte e, meio sem graça como qualquer morto que é aplaudido, tirou o chapéu e curvou-se agradecendo ao respeitável público que a essa altura uivava junto comigo de tanto rir. Presa do riso feérico, o falecido Fefênix tirou a careca postiça e de novo curvou-se agradecendo ao respeitável público que chorava de rir a cântaros. Afogado de emoção, o defunto Fefênix tirou a sub-peruca de magistrado que encobria sua calvície real, para curvar-se agradecendo ao respeitável público que ria a bandeiras brasileiras despregadas. Patrioticamente, o de botas batidas Fefênix tirou sua carnal careca apátrida e mais uma vez curvou-se agradecendo ao respeitável público que ria mais que filhos de cego perdido em tiroteio de bombinhas juninas.
Desnorteado, o escalpelado corpo sem vida do palhaço Fefênix tirou o tampo do crânio e quase caiu para frente ao curvar-se agradecendo ao respeitável público que gargalhava a cambalhotas em cascata e em chafariz – de praça ou de cetáceo. A esguichar leques e salamaleques, o não-autopsiado Fefênix tirou o cérebro e, sem pensar, curvou-se agradecendo ao respeitável público que já botava pelo riso escancarado o coração batendo palmas, os bofes assobiando e, pelos zíperes estourados de tanto rir, o pênis badalando sinos ou o clitóris chacoalhando guizos, acompanhados de pedidos de bis, mais, isso aí, vamos lá, com força, ui, vem, espera, ai, aperta, humm, ainda não, nossa, não pára, uau, tudo, ai ai ai, assim, mais rápido, u-uuu, tô quase...
Libidinosamente, a desmiolada peça anatômica Fefênix tirou do oco da cabeça coelhos arrulhando pombas, pombas chocando ovos de Páscoa, cobras quadradas e lagartos redondos, o monstro do Lago Ness pescado por um Dragão da Independência no Piscinão de Ramos, a vedete Rose Rondelli aos 18 anos sussurrando nudez sob uma burca negra semitransparente... e curvou-se, curvou-se várias vezes agradecendo ao respeitável público que guerreava em paz e amor a gargalhadas disparadas não só da boca como dos olhos, das narinas, das orelhas, dos mamilos, do umbigo, do coração, do intestino, da mente, da alma, do espírito, do karma, da aura, dos chakras, dos meridianos, das nadis, do prana, do kundaline, do ego, do superego, do id, da libido, das pulsões nomeadas e das pulsões inomináveis, dos apitos eróticos do seu Celestino de cada um um-mesmo e de cada casal, triângulo, pentágono, trenzinho de tchutchucas e tchutchucos cachorros e cachorras preparadas e preparados – nas mais variadas posições judaico-cristãos, nas do kama sutra, nas tântricas e em muitas outras bem mais sofisticadas, mágicos frutos do improviso.
Envolvido pela fumaça do inconsciente coletivo em chamas, o presunto defumado Fefênix desabotoou, num truque de prestidigitação sem o uso das mãos, a braguilha da alma, e botou para fora seu corpo em rigidez cadavérica transubstanciando-se num infinito picadeiro multicolorido sobrevoado por almas de palhaços: as do Carequinha, do Fred, do Zumbi e do Meio-Quilo; as do Arrelia, do Chincharrão, do Piolim, do Torresmo, do Picolino e do Massaroca; as do Serrano, do Pirulito, do Polidoro, do Eduardo Neves, do Alcebíades, do Caetano Namba, do Dudu Diamante Negro e do Benjamin de Oliveira – com sua peruca de cabelos lisos e o alvaiade no rosto que poupavam as platéias escravagistas da visão hedionda de um preto forro fazendo, nos picadeiros do segundo império, graça das boas como se branco fosse...
Sem mais corpo nem tempo nem espaço para curvar-se ante o respeitável público que transformara-se num mar gargalhante de orgasmos cujas ondas lambiam o rabo incandescente de sua essência em forma de cometa, o agora palhastro Fefênix agradeceu a abanar sorridente o referido traseiro luminoso. E enquanto as almas-estrelas dos seus companheiros iam estampando constelações pela cobertura celeste noturna do circo, o indelével espírito palhaço de Fefênix traçou, esvoaçando entre nuvens de gargalhadas formadas por evaporação do respeitável mar, mirabolantes cambalhotas imortais, antes de esborrachar-se estirado no céu circense e prolongar para sempre a imobilidade que dramatiza e realça o efeito cômico de sua performance como sol noturno – aquele lá, com La Rondelli, rósea risonha lua nua, na lapela.
Tirante a Astrologia, a Genética é o ramo da ciência que maiores benefícios deverá trazer à Humanidade em futuro próximo, possibilitando inclusive o Fim da Fome.
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Através dos cruzamentos e seleções genéticas, novas formas maravilhosas de vida animal e vegetal têm sido criadas ao longo das eras pelo Homem, tais como o trigo, o milho-verde, o catatau-marinho, o beija-fruta e o ornitorrinco (pato+cão+piabanha).
Uma equipe de biólogos da Universidade de Palo Seco vem se destacando particularmente nesse setor, desenvolvendo novos experimentos em favor da produtividade agropecuária. Mas isso tem sido conseguido à custa de muito labor, estudo e abnegação, mormente em razão de eventuais e inevitáveis malogros. Recorde-se, por exemplo, a experiência intitulada Cenouralha de Dupla Função - CDF.
Cruzando cenouras com bertalhas, pretendiam os pesquisadores de Palo Seco obter uma planta híbrida da qual tanto a raiz (cenoura) quanto as folhas (bertalha) pudessem ser utilizadas como alimento para seres humanos adultos, de ambos os sexos. Após seis anos de exaustivos testes no laboratório e no canteiro cedido por um dentista amigo da ciência, conseguiu-se fazer germinar uma semente híbrida.
Animados com o sucesso, os pesquisadores fundaram uma Associação Rural e adquiriram um terreno de 38 hectares nas encostas de Sierra Madre, México, onde iniciaram imediatamente a plantação de 6 milhões de sementes híbridas.
Seis meses mais tarde, a plantação se apresentava fértil e verdejante, constatando-se, porém, a ocorrência de um imprevisto: todas as plantas eram bertouras, ou seja, tinham folhas de cenoura e raízes de bertalha, mostrando-se assim impróprias para o consumo de homens e mulheres.
Os cientistas, porém, não desanimaram. Seus esforços prosseguem.
. O não-nascido denuncia em seu livro o desaparecimento do texto sagrado
Não poderíamos deixar de postar aqui esta denúncia, não só por sua relevância histórico-sócio-político-econômico-religiosa, mas, sobretudo, em virtude da estrondosa repercussão negativa das três postagens anteriores de trechos da mesma fonte: os originais datilografados – e compulsivamente emendados à mão – daAutobiografia de um que nunca nasceu, de Fiophélio Nonato. . Este é mais um texto do Anexo I, cujo título tanto pode ser o riscado "Sementes híbridas de frutos estéreis", como o mal apagado "Receitas para vencer na vida sem precisar nascer", ou mesmo o carimbado"Arquivado e foda-se!" Ei-lo: . Dizem que Salomão, ao determinar que o Grande Testamento deveria, depois de escrito, ser dividido em dois – o Velho e o Novo –, pretendia evitar futuras picuinhas entre Judeu e seu irmão caçula Cristão. Dizem, também, no entanto, que o sábio monarca não teria previsto o retorno vingativo e cruel do que nunca partiu: o com terra sem terra Palestino. Falácia. O velho Saloma escreveu de próprio punho um terceiro testamento direcionado ao povo não-povo da Palestina, que deveria vir a público somente em meados do 15º século depois do nascimento do filho judaico-cristão da Maria e do Espírito Santo (na época ainda não se aventava a participação coadjuvante do José como pai de fachada). Por que tanto tempo? Ora, era notória a desconfiança salomônica quanto à isenção dos copistas de documentos com relação ao futuro-longínquo conflito: ele acreditava que, na transcrição de pergaminho para pergaminho, seriam introduzidos nos manuscritos – como já então era hábito entre os encarregados das transcrições – um catatau de distorções casuísticas, maledicências, garatujas pornográficas, fofocas de programas sobre famosos, e outras inconveniências palimpsestuosas; e já previa que, em 1400 e lá vai pedrada, surgiria um certo Gutemberg para dar uma prensa na casta sacerdotal judaico-cristã e sua exclusividade sobre a produção intelectual.
Que fim levou o Terceiro Testamento?
Perguntem ao rabino ou ao bispo – qualquer um, local ou universal. Melhor: perguntem ao papa – o do Vaticano ou o de qualquer outra igrejinha das altas esferas do poder político-econômico. Quanto a mim, essa pergunta eu só faria ao Bigorrilho, um que, se é que nada entabulava com papas, ao menos comia mingau. .
Logo, quem conta um ponto aumenta um conto. E quem conta três pontinhos aumenta três continhos. E quem conta um conto sobre três pontinhos aumenta um pontinho sobre três contos. Ou será que aumenta três pontos sobre um continho? Ou... bum!... lá se foi a minha parelha de neurônios, que a minha lógica é tão desastrosa quanto a minha aritmética, e quando as duas se encontram é curto-circuito na certa!
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Bem, só tenho uma saída: pedir um help ao Solano, que sabe tudo sobre ponto e três continhos. Ou sobre conto e três pontinhos, sei lá... Ele que decida por mim.
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– Alô!
– Solano?
– Não. Mariola.
– Prazer, Mariola. Aqui é o Paçoca. Eu queria falar com o Solano.
– Solano Lopes?
– Não, Guedes. Solano Guedes, o cara dos três continhos. Ou dos três pontinhos...
– Serve três porquinhos?
– Não. Só três pontinhos. Ou três continhos.
– Tá. Vou ver se tem algum desses aqui.
– Eu espero.
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– Alô!
– Solano?
– Sim.
– Solano Guedes?
– Não. Solano Lopes.
– Vá se danar!
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Bati o telefone na cara dele. Era o Solano mesmo, tenho certeza. O Guedes, safado, sempre me sacaneando. Mas hoje não estou pra brincadeiras. Azar o dele. Eu ia falar aqui sobre o livro que ele lançou, A história dos três pontinhos. Pois agora não vou mais. Ia dizer que é um trabalho muito bom, que pode ser lido com prazer por crianças de 8 a 80 anos. Pois agora não vou mais. Pretendia contar, inclusive, como me impressiona o seu jeito de criar, sempre trabalhando texto e imagem ao mesmo tempo. Pois agora não vou mais. Não vou mesmo. E conto. Digo, e ponto.
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Ah, e jamais mencionarei que o livro saiu pela Vieira & Lent Casa Editorial.
. . . . . . . . . . . . . . . . .Bêbado às duas da manhã, . . . . . . . . . . . . . . . . .Parei na loja de ovos e aves. . . . . . . . . . . . . . . . . .Subi na grade e, em grande afã, . . . . . . . . . . . . . . . . .Cacarejei, de ecoar nas traves. . . . . . . . . . . . . . . . . .Os galos todos acordaram . . . . . . . . . . . . . . . . .Cheios de brio e, num só coro, . . . . . . . . . . . . . . . . .Com seu cacarejo enfrentaram . . . . . . . . . . . . . . . . .O meu, mais forte, mais sonoro.
. . . . . . . . . . . . . . . . .Saltavam todas as galinhas. . . . . . . . . . . . . . . . . .Penas voavam loja afora. . . . . . . . . . . . . . . . . .Ligavam luzes nas vizinhas . . . . . . . . . . . . . . . . .Casas. Parti. Criara a aurora. . (Os poemas I.M.L.eGlóriasão inéditos em livro.OcasointegraDesaparições, obra recém-lançada de Alexei. Os três foram postados com mais oito poemas do autor no blog do artista plástico Hélio Jesuíno. De lá os surrupiei, junto com as ilustrações – frações de um painel que Jesuíno fez para a abertura da postagem. Vejaaqui.)