Os leitores vão nos desculpar, mas não poderemos lhes fornecer a sua dose semanal de A Onisciência ao Alcance de Todos. É que o Prof. Edson Rocha Braga anda em falta no mercado. Fomos obrigados então a recorrer a um genérico – cujo princípio ativo é
Há fortes indícios de que as mulheres estão se cansando da independência arduamente conquistada nas últimas décadas. Mormente no Primeiro Mundo, onde elas começam a retomar, com ardor crescente, a velha prática do casadoirismo.
É o que revelam pesquisas recentes realizadas pelo Baú (Bureau de Aptidões Uterinas). Segundo os pesquisadores, a figura do macho provedor, quase pura retórica nos últimos 40 anos, readquire pouco a pouco o seu antigo valor de mercado. E não há dúvida de que esse valor é basicamente monetário.
O bom partido volta a ser uma expressão que estufa a boca de pais e mães preocupados com o futuro das filhas – e com o seu próprio, pois se o partido é bom de fato, sempre sobra uma mesadinha polpuda para os sogros.
Em Aarhus, Finlândia, há pouco mais de um mês, um jovem e belo milionário foi alvo de intensa disputa entre 637 famílias detentoras de filhas casadoiras. O caso, que ganhou destaque em toda a mídia escandinava, acabou nos tribunais, e o juiz encarregado de julgá-lo houve por bem estabelecer um leilão, fato raríssimo nesse tipo de querela.
Levou a melhor a família Skodvhøj que, espertamente, ofereceu pelo rapaz um lance de três belas filhas solteiras, além de outras duas, divorciadas mas em ótimo estado de conservação.
O soneto abaixo foi extraído da Autobiografia de um que nunca nasceu, de Fiophélio Nonato, cujos originais, em estado lastimável, eu venho pouco a pouco decifrando e publicando aqui no blog. Este E il volatile va, porém, já não é inédito: foi publicado há dois dias no blog Hélio Jesuíno & Cia. Ltda. (aqui), que iniciou uma série de postagens sob o temabestiário. Vale a pena acompanhá-la.
Lá o poema é escoltado por uma ilustração feita sob medida para ele. Esta que aqui está, catei-a em outra postagem do Jesuíno (uma baita entrevista com o genial Luis Buñuel), só para não perder o ótimo mau hábito de surrupiar seus desenhos.
A fábula a seguir integra o livro!ALBUFAS SAFUBLA!– do qual já falamos na recente postagem da primeira fábula (leia aqui).
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Não custa repetir: o texto está traduzido para o portugárabe castiço, porém quem souber português pode optar pela versão original, que vem logo depois, devendo clicar no quadro para ampliá-lo.
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O gabidão e a vilha do gabeda
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Nenhum rabaz de Zanda Zezília da Vardura arrangava dandos zusbiros das mozas zoldeiras guando o gabidão Azev Nigolau Azev. Bougo imbordava gue voze um zezendão e zó diveze das bernas as gojas, zem valar na vaze margada bor brovunda zigadriz gue ia do dobo da gabeza adé o gueijo, bazando bela visda esguerda e belo nariz – os guais berdera, jundo gom as ganelas e os bés, em gombade gondra as drobas do Imbério Odomano. Zua vama de badrioda gondegorado desberdava, guase dando guando zeu bolbudo zoldo de herói milidar, o indereze de doda vamília gue dinha em gasa alguma vilha no bondo de gasar, ou já dizo basada e zovrendo de engalhe grônigo.
Bois o gobizado ovizial revormado do Exézido zírio não dava drela a gualguer das zendenas de bredendendes da zidadezinha e de oudras brózimas. Valava-ze à boga beguena gue ele zó gueria zaber de Zalede, a goguede e bem vornida esbosa do Musdavá, brobriedário do únigo azougue logal. “Bagamos brezos asdronômigos bor belangas” – gonsbiravam nos bodeguins os vovogueiros – “e o miligo esdrobiado gome de graza o vilé mignon.”
Mal zabia o bovo vardurenze gue o bior esdava bor agondezer. E guando agondezeu voi gom doda bomba e zirgunsdância, durande o esbalhavadoso desvile dos indegrandes do Esdubevaziende Zirgo Ban-arábigo, agombanhados bela músiga esdridende da vanvarra da gombanhia. Endre as adrazões anunziadas bor megavone, esdava uma abresendazão esbezial, numa barraga à barde, gujo ingrezo gusdava o driblo do gue era gobrado belo esbedágulo no bigadeiro. Guando o logudor a anunziou, os babéis zoziais inverderam-ze: as mulheres valaram grozo, em brodesdo, e os homens esganizaram, hisdérigos. Dradava-ze de um jow de sdrib-dease!
Zobre uma dosga e drôbega garroza doda enveidada, bujada bor um bangaré vandasiado de balhazo – gom garega, sabados imenzos e maguiagem -, lá esdava a esblendorosa sdriber Zulamida Guivouri. Vesdia drajes dão índimos, dão ínvimos gue dona Gazilda, bresdigiosa gosdureira de Zanda Zezília, vez zeus gálgulos e gongluiu: “Ze jundar dudo, não dá uma doalhinha de mensdruazão.”
Endão deu-ze o inesberado. O gabidão, zendado em zua gadeira de rodas, gravou gom volúbia zeu únigo olho na esdondeande esdrela zeminua, a bondo da moza berzeber e, vazeiramente, redribuir engarando-o a zorrir e zobrando-lhe um beijo.
Zerga de guarenda minudos abós o enzerramendo do desvile, exblodiria o esgândalo.
– Aguela vilha do gabeda fugiu gom o gabidão! – zaiu drombedeando bela zidade indeira a dona Zamarida, a vujigueira de blandão.
Dodas as mulheres de Zanda Zezília gaíram em brando, inglusive as gasadas. Dodas, ezedo Zalede, gue mandou às vavas o azougueiro e o amande gue a drogara bor Zulamida, dradando de vazer zua drouja e gair vora dambém. Jundo gom zua novízima baijão: Biboguinha, o brinzibal balhazo do zirgo.
Zendado no meio-vio em vrende ao azougue, Musdavá jorava veido grianza. Zamuel, zeu badrinho do gasamendo agora em vrangalhos, gorreu a gonzolá-lo: “Galma, avilhado. Não há de lhe valdar uma oudra esbosa”.
– E vozê aja, Zamuga, gue eu esdou jorando bor gausa de Zalede? Aguilo é zó garne, e garne Musdavá zembre zoube gonseguir vázil e barado!
– Gomo azim, Musdavá?
– Izo mesmo gue vozê esgudou. Berder esbosa não é broblema. O gue me dói no gorazão – bem vundo, no gorazão do bolzo – é berder os drês gondos de réis gue o gabidão me bagava bor ela doda derza, guinda e zábado.
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Lizão da vábula: Nunga negozie badrimônio zeu zem babel bazado em gardório!
As FABULAS BUFALAS de . . . Falasbu Bulafas Lafasbu . . .
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O eminente mascate absírio Lasufba Ab’Fusal, em suas andanças profissionais pelo Brasil, ouviu e anotou dezenas de fábulas que árabes ou descendentes de árabes iam lhe contando. Essas fábulas (ou fabulas, como dizem muitos deles, inclusive Ab’Fusal) são atribuídas a Falasbu Bulafas Lafasbu, um ordenhador de búfalas (ou bufalas) cuja origem e destino ninguém sabe precisar. Paira até uma dúvida: Falasbu teria de fato existido, ou seria, ele mesmo, personagem de sua mais fabulosa fabula?
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Bem, Ab’Fusal não entra nessa questão polêmica; apenas tratou de selecionar e publicar em livro 34 das fabulas de Falasbu. A edição é bilingüe: em português e em portugárabe castiço. O título – !Albufas Safubla! – refere-se, segundo Ab’Fusal, a uma expressão que Falasbu usava a torto e a direito, sempre em tom exaltado e grave, porém seguida de uma estrondosa gargalhada. O que significa? “Não faço a mínima idéia”, é o que Ab’Fusal diz que dizem que Falasbu dizia.
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Abaixo, uma das fábulas do livro – em portugárabe castiço, naturalmente. Se algum leitor porventura souber português, poderá optar pela versão original, logo a seguir. Basta clicar sobre o texto para ampliá-lo.
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A gaminho de Gambinas
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Zalim jega na Esdazão Rodoviária de Zão Baulo bor volda das zede e guinze da noide, bredendendo embargar imediadamende bara Gambinas.
No guijê de bazagens, viga zabendo gue agondezeu um imbrevisdo, e o brózimo ônibus zó zairá às oido e vinde. Bergunda endão ze não dem uma zaída mais zedo bara alguma zidade brójima a Gambinas.
– Dem, zim, zenhor – resbonde o rabaz do guijê. – Dem uma zaída agora bara Zanda Gruz das Balmeiras. Viga bem debois, mas é gaminho.
Zalim, gue não era esdúbido nem badeda, berzebeu gue o vunzionário era zírio. E gomo não gonvia em árabes, brinzibalmende como eze, um zeu gonderrâneo, dradou de ze invormar gom oudra bezoa.
– Bor vavor, gara zenhora – diz Zalim, inderzebdando uma velhoda gue ia bazando. – Zaberia me invormar gue ônibus eu bozo begar gue baze berdo de Gambinas?
– O zenhor bode begar o meu. Zai agora bara Vranga.
– Vranga, vilha da galinha?
– Vranga, a derra do zabado.
– Zabado, vesbera de domingo?
– Zabado de galzar no bé.
– Grado, zenhora, mas já esdou muido bem galzado. Zó não vou a bé adé Gambinas borgue os galos andam me ingomodando.
– Leve endão os zeus galos bara gonhezer Vranga, gue dal?.
– Viga berdo de Gambinas?
– Não dão berdinho guando dagui de Zamba, mas o zenhor vaz um bom bazeio e revresga a gabeza, gongorda gomigo?
– Dodalmende. Vou lá gombrar a bazagem. Engondro a zenhora no ônibus.
Enguando a velhoda ze avasdava, Zalim benzou: “Agui bra vozê, zua zerbende libanesa! Bovo do Líbano não vala com vrangueza nem em Vranga nem na Gonjinjina!”
E dradou de gombrar uma bazagem bara Bados de Minas. “Azim Zalim jega rábido a Gambinas. Bados voam melhor gue zabados!”
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Lizão da vábula: Guem dem boga vai a Roma – baseando bor dodo o blaneda!
É de Braulio Tavares este boi filósofo, a quem o escritor e compositor deu voz em sua coluna no Jornal da Paraíba, em 10.6.2008, e novamente há poucos dias no seu blog Mundo Fantasmo. Fala boi:
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“Os seres humanos são angustiados por serem bípedes. Vivem sempre com medo de cair, por isso constroem tantas edificações, para servir-lhes de apoio. Falta-lhes a base sólida das quatro patas. Locomovem-se mal, sempre à feição de quedas para a frente. Uma perna os projeta para diante, como numa queda auto-produzida, e a outra perna tem que se adiantar para salvá-los deste pequeno suicídio; mas olhem, agora é esta própria perna salvadora que os arremessa de novo para diante e cabe à outra avançar para salvá-los. Como pode prosperar em paz uma espécie assim masoquista, sempre presa à vertigem da queda?
“Como não sabem caminhar, são forçados a inventar meios de transporte pesadíssimos, custosos, que demandam a brutal extração de milhões de toneladas de minérios. Destroem tudo em volta para poderem dispor desses veículos ruidosos, porque para eles caminhar é um suplício, e precisam ser conduzidos sentados de um local para outro. Como a vertigem da queda e da auto-destruição está gravada em seus cromossomos, fazem com que suas engenhocas mecânicas se projetem pelo ar ou rolem pelo solo a velocidades absurdas, que freqüentemente os levam a colisões, esfrangalhamento físico, mortandades coletivas. Tudo isto porque não aprenderam a caminhar de quatro.
“Não sabem se alimentar. Não sabem pastar em paz como o fazemos, nem são aparelhados para a caça como a onça e outros predadores nossos. São poucas as criaturas que eles conseguem abater com as mãos nuas. Criam, para a caça, instrumentos cada vez mais complicados e custosos, indo na contra-mão da Ciência que deveria possibilitar-lhes a evolução rumo ao mais simples e mais eficaz. Com os instrumentos acaba ocorrendo o mesmo que com os transportes. Seus criadores acabam sentindo-se na obrigação de utilizá-los o tempo inteiro, e utilizá-los no máximo de sua eficiência, o que significa que acabam utilizando-os contra si próprios, para que os instrumentos não fiquem ociosos.
“Vai ver que tudo decorre da tragédia que lhes sobreveio um dia: a de deixarem de fitar o chão. Quem fita o chão não esquece a terra. Quem fita o chão é obrigado a lembrar-se o tempo inteiro de que vive num planeta onde existem a terra, a grama, a areia, a pedra, as formigas, as minhocas. Quem fita o chão nunca esquece que faz parte dele. O homem desprendeu do chão sua metade da frente, verticalizou-se, lançou seu corpo no desequilíbrio e no trauma de uma queda permanentemente evitada. Deixou de prestar atenção no lugar onde pousa os pés para fixá-la no horizonte inatingível e no céu mais inatingível ainda. Começou a imaginar como seria chegar ao horizonte, e como seria pisar no céu como se fosse um chão. Enfeitiçado pelo horizonte, pôs-se em movimento. Enfeitiçado pelo céu, passou a desprezar a terra onde pisa, e esqueceu que é feito de terra, que vive da terra, que só come o que vem da terra – e que não passa, como nós, de uma refeição que a terra prepara para si própria.”
Morreu aquele cara que vivia armando contra o país e contra a nossa integridade moral e física. Armando horrores, com seu sobrenome e espírito de ave de rapina.
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Não vou comemorar com você, meu caro Nino. Morrer aos 90 anos não é castigo, é prêmio. Eu comemoraria – e muito! – se o filho da puta tivesse morrido no auge da rapinagem. De preferência, de uma morte bem besta. Tipo: gangrena generalizada em decorrência de atropelamento por carrocinha de pipoca!