
O poema abaixo integra um romance cujos originais me foram encaminhados por Seu Juca Sem Fio, famoso andarilho da Zona Oeste do Rio de Janeiro. O autor da obra, Fiophélio Nonato, não pretende publicá-la. Pretendia, isto sim, conforme me contou o Seu Juca, queimar os originais, "como fez com vários outros livros que escreveu, e faria com esse também se eu não tivesse roubado a papelada".
Todos os capítulos do livro estão datilografados, mas a maioria deles compulsivamente emendada em caligrafia de difícil leitura. Gostei tanto, porém, dos trechos que consegui ler que estou empenhado em decifrar o romance todo. Se isto for possível, depois, através de Seu Juca, pretendo procurar Nonato e tentar convencê-lo a me autorizar o encaminhamento do livro a uma editora.
A história é impressionante. Ora é realista, conduzida a rédeas curtas pelo narrador, mas sempre com muito humor. Ora descamba para um lirismo quase piegas ou para o grotesco sem freios, lançando os personagens em episódios macabros, pornográficos e até escatológicos. Ou, ainda, a trama é às vezes subitamente envolvida por um surrealismo que reverte situações ou desfigura quase por completo determinados personagens, levando de roldão o próprio narrador na correnteza do inconciente que impõe novas e surpreendentes coordenadas de ação. O título do romance, manuscrito em letras garrafais no esfarrapado envelope de papel pardo que continha os originais, já dá uma boa idéia do seu conteúdo: Autobiografia de um que nunca nasceu.
O poema que aqui estamos postando surge num momento capital da história, quando o personagem-narrador chega a voltar-se contra si mesmo por causa de... Bem, isso já não é assunto para agora. Ao poema, pois!
Poesia, o Amor a lê?
...................................“Ave MariAiram, feia desgraça,
...................... . .... ......Por AmirArimã é que busco Pã...”
.................................. ...... . ......(Onano Oileh Poift)
.Ao vento lançamos de louça em pétalas
asas diabéticas de açucareiro
melados de entremeio ao fogo excelso
quem sabe zé celso de orgasmos murchos
gorduchos tangarás dançando em visgo.
Luziste em meu sangue como um semáforo
histérico surtado zumbi verde
a furtar vermelho até do amarelo
e pôr sela ao mangalho e transfugir
perua a rir do ganso mal afogado.
.
Cantava-te em versos que nunca lias
mas ouvir bem esfingias com deleite
(dente por dente lei no meu pescoço
olho por olho Talião é o caralho)
qual burocrata descaracolando
sob tensa avalanche de uivos asmáticos
durex em meus astrolábios sem vírgulas:
.
“Banhei-te em rios de begônias e tu
eras toda uma empada de bigornas
e enquanto mole eu chupava feliz
teu nariz escorrendo do meu olho
sinistro cocho de teus falsos estros
a mim me fizeste pirarucu
do teu baú de deuses entupido.
.
“E questionar-te temi por que a fronha
azul medonha ainda envolvia o diálogo
monofásico com teus pares ímpares
(como indígenas prepúcios em anjos
ou sacis de tamanco descasados)
e nesses casos por isso é que calo
que me dói eu falo ou logo adeus digo.”
.
...Que pena que pena ah que pena que
ela já não é mais a m’nha pequena
mas eu gosto dela benjor assim
minúsculo espinho entre as flores secas
do palacete de entranhas expostas
onde da bosta vindo fui viver
ó verde que amarelo é atemporal...
.
!!!Agora me há mal se eu não quebrar sim
o seu sem fim silêncio paleolítico
e do anímico âmbar recolher
meu ser que em sua carne não fez sentido
enquanto o meu sentido era a sua carne!!!
....
???Depois renascer será como um morto
absorto em sua fútil febre glacial
e em sua calma espera pelas minhocas
que o irão em pó pespeidar no universo
de novos versos que o Amor não lerá???























