¨"Pode-se ter centenas delas, mas ser, que é
o que conta, só se é por uma única na vida."
¨. . . . . . . .. . . . . . . . . . .. Teophanio Lambroso
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..(epigrafista e, em horas vagas como esta, contista)
¨ ¨
A mulher da minha vida na minha vida entrou quando eu estava parado em frente ao último prédio da Rua Pereira Silva, em Laranjeiras, esperando que dele descesse um pintor microscopista a quem eu havia encomendado um óleo hiper-realista de um singelo cardume de seis ou sete marlins azuis – o qual ele sugeriu pintar num caroço de arroz parboilizado, ao que eu contrapropus (e ele prontamente aceitou): ou nas costas de uma pulga empalhada ou nada feito.
A mulher da minha vida vinha subindo a ladeira, e à medida que se aproximava foi informando à minha vista cansada que:
Era bem morena, mais índia do que branca, mais negra do que índia, mais oriental do que negra, mais árabe do que oriental, mais loura do que qualquer escandinava;
Trajava um vestido branco estampado com pequenos círculos, triângulos, quadrados, trapézios, pentágonos, hexágonos e hipopótamos vermelhos; o modelo era justo, decotado e bem curto, a revelar um pneuzão fofíssimo, seios volumosos, que transcendiam o decote feito massa fermentada extravasando da forma, e coxas frondosas, tão frondosas que entre elas não havia espaço sequer para a passagem de um átomo de vento;
Tinha olhos grandes e amendoados, um verde mentolado e o outro roxo soco; nariz pequeno mas de ventas abanadas, quase abananadas, e ligeiramente arrebitado por dois rebites de alumínio e três de latão; ah, e um amplo sorriso debruçado numa beiçola carnuda e cravejado de todos os dentes da frente exceto dois e meio.
Quando a mulher da minha vida passou bem à minha frente, já era senhora absoluta e absolúvel de todos os meus pensamentos, que se diluíam em encachoeiradas continências pelo lado de dentro não só da testa como de toda a caixa craniana; e alvo de todos os meus desejos, concentrados em ereção flechante a céu aberto, graças, em parte não modesta, modéstia à parte, ao meu extraordinário dom de nunca lembrar de fechar o zíper do porta-flecha.
Ao sair lentamente da minha vida, subindo a ladeira de acesso à favela do Pereirão, bem mais íngreme que a rua, deduzi que a mulher da minha vida tinha uns 30 anos, embora não parecesse menos de 42. Tal dedução não fora instantânea, mas conclusiva, baseada em observação e reflexão profundas, perpetradas durante os vários segundos em que pude acompanhar a ascendente trajetória de vida da mulher da minha vida a caminho de casa. Mais do que a identidade temporal, que pouco ou nada representa, puder avaliar-lhe a alma, aflorada fosca, revestindo toda a extensão da pele de suas pernas, na forma de meias de nylon. E não pense que se tratava de um par de meias de nylon qualquer, pois que era, isto sim, pode pensar, daqueles especialmente ordinários, à venda somente nas piores bancas de camelôs da Central e de outros que tais.
Ó vasta e devotada alma que se sustentava sobre saltos altos caminhando por rua de paralelepípedos e ladeiras esburacadas, a envolver por completo tamanho par de guloseimas, ressalvadas aqui e ali clareiras dos mais diversos tamanhos, pelas quais transbordavam delicadas flores isoladas ou em buquês ou em touceiras ou mesmo em razoáveis pastos; tufos de pétalas, moitas de pétalas, matas de pétalas, supra-sumo petalino de sensualidade a que chamamos, tão feiamente, de celulite. (Com pesar, devo informar, às raras infelizes que não dispõem de ao menos dois generosos bocados de celulite para estofar-me as mãos, que essa espécie de carne pixaim é mais sensual e libidinável que, por exemplo, um empinado e suculento terceiro seio na testa.)
E essa é a história da minha relação com a mulher da minha vida. Nunca chegamos a nos falar, nunca trocamos um olhar, nunca mais a vi. Tudo que dela vim a saber desde então, passados 10 anos, três meses e 12 dias, me foi contando ontem à noite pelo pintor microscopista, a quem levei para restauração meu cardume de marlins azuis danificado por um espirro imprevisto da pulga empalhada. Contou-me ele o que soubera através de sua faxineira, também moradora do Pereirão e quase vizinha da mulher da minha vida. Não sei se falaram a verdade, não sei qual dos dois poderia estar mentindo, mas acrescento agora aos dados pessoais da mulher da minha vida, ainda que como adendo carente de comprovação, o que dele ouvi:
A mulher da minha vida já era mãe de quatro filhos de pais diferentes quando entrou na minha vida. Hoje, aos 25 anos, tem mais sete filhos e dois netinhos de igual procedência, um emprego de caixa de supermercado e 148 quilos.
¨