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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Asas abertas sobre a iguana Odara


Este Samba do Avião do Crioulo Doido não vai além desse verso-título. Creio que por insuficiência de carioquice, pois ele é mineiro, no máximo mineiroca, tal qual o crioulo doido desbotado aqui. E o avião? Ah, esse decolou do Maranhão para vir sobrevoar, bem a jato, essa cidade maravilhosa que as autoridades e a grande mídia – junto com a encagaçada maioria de sua população – tentam a todo custo difamar, esvaziar e destruir. Não conseguiram, ainda, de modo que sobrou até bastante para o deleite do avião, que atende pelo nome de Adriana Araújo (mas se chamá-lo de Pólen Radioativo, nome do seu angar blogosférico, ele pousa sem reclamar dos buracos na pista).
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A noite em que falei mais do que eu mesmo!

Olha o avião durante um pit stop para reabastecimento de chope numa adega do Largo do Machado. A foto, eu a tirei mentalmente no instante em que, ainda no táxi que me levou até o local, olhei para as mesas e logo pude identificar o aparelho, cuja fuselagem e interior eu fora conhecer pessoalmente. Não esperava localizá-lo tão rápido, porque passava das 23 horas e, à noite, não distingo nada a mais de três metros de distância. Só que assim que cheguei o sorriso do supersônico maranhense espocou numa radioativa polinização, iluminando tudo e revelando em minúcias a alma de todos – exceto a do desalmado cavalheiro sentado à primeira mesa à direita.

As não mais de duas horas que ali passamos foram de muita tensão e ansiedade para mim (levando-me a falar mais do que todos os fregueses e funcionários da casa juntos!); primeiro, porque fiquei sabendo que o nosso encontro seria muito breve, e isso sempre me deixa tenso; segundo, porque a presença daquele sinistro senhor por pouco não me asfixiou de angústia.

Um pneumático e erundino cachorrão

Eis um instantâneo mais aproximado do avião, que aí preparava a aterrissagem em mim, para o nosso primeiro abraço ao vivo. Ana Claudia, sua amiga que aparece na foto anterior, acho que foi ao banheiro nessa hora. Ou tirar satisfação com o cavalheiro sinistro, que não parava de nos incomodar. Ô sujeitinho mais inconveniente! Cochichou-me que o Hélio Jesuíno morava a poucos metros dali, mas que de casa não viria mais, nunca mais:
– No máximo, aparecerá para um chopinho bem rápido, preclaro Tuca. Isso... se eu me dispuser a providenciar um indulto em caráter especialíssimo.
À Ana Claudia, o ensebado atazanava lembrando que ela deveria cuidar de não perder o vôo para São Luiz na manhã seguinte, numa evidente e pérfida alusão ao enterro de sua tia, que se fora naquele dia em circunstâncias trágicas.
– Garçom, conhece esse chato?
– De vez em quando ele dá as caras. Sempre assim, sozinho. Mas costuma sair daqui acompanhado.
– Mulher?
– Mulher, homem, criança...
– Sabe o que ele faz?
– Tem um freguês, poeta, que o conhece. Disse que ele é um... acho que um... um pneumático e erundino professor de latir!
– Arrá, eu sabia: um cachorrão!

O agregado
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 Marcantonio Costa . . . .   .  . . . . . . . .   .  . .
 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .A morte não é um invasor.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Não é senão um hóspede muito educado,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Fleumático e erudito professor de latim
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Que ocupa o cômodo mais modesto da casa.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Senta-se conosco à mesa,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E com olhos fixos no prato
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sorve a sopa rala, nossa única refeição,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Limpa com cuidado os lábios no guardanapo,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E da mesa retorna ao quarto
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Com um sorriso frugal e de fingida paciência,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . De quem se basta apenas com o antepasto.
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O bico de pena é do livro Pecados Imortais, que Hélio Jesuíno escreveu (em parceria com Sérgio Oiticica, entre outros) e ilustrou. Conheça a obra, aqui.
O agregado foi extraído de um dos blogs do Marcantonio: azultemporario.blogspot.com
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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Bueiros Aires

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O inferno tem muitas bocas.

Por elas, cospe fogo

e, às vezes, uma ou outra alma fibrosa

que lhe fica entalada entre os dentes.

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O inferno tem cara para infinitas bocas.

E essa cara, hoje, com certeza é o Rio.

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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Seu Juca Sem Fio, um andarilho - II

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Anga Mazle . .

No final de março, Tuca, Elza e eu entrevistamos Seu Juca Sem Fio, o andarilho mais culto e misterioso do Rio de Janeiro. Postamos a parte do material gravada no meu MP3, que acabaria pifando durante a entrevista. Ficamos devendo o restante, registrado num velho gravador de rolo emprestado pelo dono do bar em que nos reunimos com Seu Juca, em Vila Valqueire, na Zona Oeste do Rio.

Eu pelejava desde então com essa gravação, na qual as falas de nosso entrevistado estão incompreensíveis, sua voz mais grave e rouca do que de fato é e, estranhamente, fanha. Só neste fim de semana foi possível fazer a transcrição da fita, graças à inestimável colaboração de uma fonoaudióloga especializada em fanhos. Em nome de toda a equipe do desinformação seletiva, muitíssimo obrigada, Dra. Ônhia Inhanhães!

Tuca - O que é a liberdade para o senhor, Seu Juca?

Seu Juca - Uma coisa miúda e informe que incomoda a maioria das pessoas. Bem mais que um cisco no olho... Mas, se fosse preciso, eu daria os meus dois olhos por ela. Mesmo sabendo que essa fulustreca é arisca toda vida, mais escorregadia que lesma no cio... Eu acho que todos deviam se dedicar à sua própria liberdade de corpo e roupa!

Elza – E alma, o senhor quis dizer...

Seu Juca - Eu quis dizer roupa mesmo, pois andar pelado por aí é uma liberdade que dá cadeia. De mais a mais, não creio em alma. Acho até que certa feita eu apalpei uma no cinema. Sei lá, não dou certeza. Estava escuro, e na época eu pouco sabia sobre a anatomia feminina. (Ri, meio envergonhado) Hoje, felizmente, sei menos ainda.

Tuca – Felizmente? O senhor já não se interessa por mulher?

Seu Juca – Que isso! É a única coisa que me interessa. O tempo todo, até quando durmo. Por isso, quanto mais eu conseguir não saber sobre o corpo da mulher, melhor. É território sagrado, morada do mistério mais alto, da irrealidade mais profunda e verdadeira. Não cabe sondá-lo, profaná-lo com as asperezas dos questionamentos e conceitos. É dever do homem tratar essa sabedoria em carne e osso com a ignorância ampla e sedosa dos sonhos nunca dantes sonhados. (Elza e eu não contivemos um suspiro.) Infeliz daquele que percorre com os olhos a vastidão da nudez de uma mulher!

Anga – O senhor não olha para o corpo da mulher com quem transa?

Seu Juca – Se ela estiver nua, jamais! Para me despertar um desejo forte, devidamente incontrolável, a mulher tem de estar vestida de acordo. Um corpo feminino coberto de rendas e cetins fica mais nu, deslumbrantemente nu. A lingerie é o ponto de exclamação da nudez!... E quando esta finalmente nos é oferecida, ou é por nós conquistada, devemos fechar os olhos. Não por pudor, mas para ficarmos cegos. Cegos, compreendem?... Uma mulher nua pode ser vista dos pés à cabeça, de trás para frente, de fora para dentro, de dentro pra fora... mas só em braile!

Tuca – O senhor teve muitas mulheres, certo?

Seu Juca – Nenhuma, não, seu moço. Mas deixei que muitas me tivessem. Muitas. E continuo deixando. Sempre com o mesmo porém: quando elas me dizem... sou sua!.... eu pico a mula.

Anga – Medo, seu Juca?

Seu Juca – Muito. Não se deve ter uma mulher. Porque, assim, sentindo-se pertencida, ela se torna um tormento para si mesma, afunda num desconsolo atroz. É levada a descobrir aquela porção de nada que todos trazem dentro de si e geralmente não sabem, ou fingem não saber. A mulher deixa de ser quem ela era, não tem mais serventia nenhuma, nem para mim nem para si mesma. Como é forte, consegue sobreviver nesse horror anos a fio, a vida toda até. A não ser que você a liberte, livrando-a de você. Ou que ela resolva lhe trair, santo remédio para as asas que ela própria quebrou por você.

Tuca – E o senhor suporta bem isso, a traição?

Seu Juca – Não sei. Como eu disse, nunca fui dono de mulher nenhuma. Acho, entretanto, que deve ser mais fácil suportar o peso de uma galhada monumental do que ver o tempo todo a imagem lúgubre de um rosto feminino apagado, que não consegue mais erguer as comissuras labiais, mantendo a linha da boca emborcada até quando ri, se é que ainda ri. É terrível. Conhecem a Bette Davis?... A Jeanne Moreau?

Tuca – Duas grandes atrizes que adquiriram com o tempo esse desenho labial “emborcado” de que o senhor fala. Gosta de cinema?

Seu Juca – Gostava, gostava bem. Uma pena não haver mais nenhum por aí faz tempo.

Elza – Ainda há muitos, sim. Nos shoppings.

Seu Juca – Os cinemas estão nos shoppings? Que tragédia!... Ou os filmes andam uma bosta só ou, pior, o consumismo se sofisticou.

Elza – O senhor não gosta de shopping?

Seu Juca – Não. E desde o início, desde que os americanos começaram a exportar pro mundo todo essa geringonça monstruosa. Nunca vi um shopping por dentro. Não entro naquilo. De jeito nenhum. Nem morto, amarrado e amordaçado. Em supermercado, também não

Elza – Por quê?

Seu Juca – Ora, sei que não se pode chegar à perfeição, mas pra mim a feira livre era e é a perfeição possível nesse tipo de comércio. Tentaram ir além, deu nisso. Supermercado, shopping... a feira encarcerada! Ainda bem que o povo, para superar as dificuldades impostas pelos doutores da economia e do marquetingue (sic), criou o shopping a céu aberto, as aglomerações de camelôs que estão pintalgando de vida as ruas das grandes cidades.

Anga – Qual o segredo dessas iniciativas populares? Existiria um saber superior, instintivo, maior que o saber da ciência?

Seu Juca A ciência não sabe nada. Tudo que ela pode fazer é colher e distribuir os frutos desse saber instintivo. Mas não, ela não se contenta com isso. Porque é constituída por um grupo, uma espécie de conselho... mau conselho!... que se reúne, amealha todo o saber instintivo recém-surgido e, entre um chazinho com bolacha e outro, fica debatendo o que é melhor, mais adequado para ser aplicado. Quando chegam... quando chegam!... a alguma conclusão, grande parte daqueles saberes já estão se deteriorando! E são esses produtos putrefatos que eles oferecem para consumo da sociedade.

Elza – Mas existem bons cientistas, pessoas criativas e bem intencionadas.

Seu Juca – Esses não são cientistas.

Anga – São o quê?

Seu Juca – Poetas, moça. E não há lugar para eles no “conselho”. Não que o conselho não os queira, eles é que não querem o conselho. Sabem que o conselho é a morte, enquanto a eles só interessa a vida, mesmo quando falam da morte. O poeta é um indivíduo. Ainda existem indivíduos, sabiam? São poucos, mas existem.

Anga – Só os poetas são indivíduos?

Seu Juca – Só.

Tuca – E os andarilhos, eles não são indivíduos?

Seu Juca – Eu sou. E os outros, provavelmente, também são. Sei lá. Não posso falar por eles, ser o porta-voz de uma categoria cuja virtude maior é justamente não se constituir como tal, é ser um todo feito de cada um por si e estamos conversados. Nada a ver com individualismo, hem! O individualista só existe no seio do grupo. Se não integramos grupo algum, podemos ser indivíduos. Não queremos impor nada à sociedade ou mesmo a outro indivíduo. Nossa filosofia se resume a um conceito que dispensa desdobramentos analíticos.

Elza – Qual é?

Seu Juca – Eu não encho o teu saco, tu não enches o meu.

Tuca – Se a seu ver só os poetas são indivíduos e o senhor diz que é um indivíduo, logo o andarilho seria também um poeta...

Seu Juca – Um poeta. Sim, todo andarilho é um poeta. Mas nem todo poeta é um andarilho. Assumidamente, quero dizer. Porque na essência eles o são, embora talvez sem se dar conta de que estão tão próximos desse estágio superior de vida. Nós, mais do que esses que teimam em ser poetas não-andarilhos, respeitamos a alergia purulenta que nos causa a convivência em família, turmas, associações, religiões, partidos políticos, reuniões de condomínio, etc.

Elza – O senhor acredita que a vida seja possível sem essas corporações?

Seu Juca – A vida não depende das corporações, elas é que dependem da vida, parasitando-a, sugando sua poderosa energia. Veja o caso dessa turma que luta pela preservação do meio ambiente. Que pretensão! Se julgam capazes de deter o rumo inexorável da história. A arrogância das arrogâncias! São tão estúpidos quanto os donos do poder, os que trabalham pelo fim da humanidade a curto prazo. Mas esses, pelo menos, merecem a minha admiração, por estarem agilizando, ainda que inconscientemente, uma vida melhor para o planeta, que enfim poderá se ver livre do Homem, esse lastimável produto da evolução patológica da ameba!

Tuca – E o senhor não vê nenhuma saída?

Seu Juca – Saída... saída....

(Seu Juca olha nos olhos do Tuca, mas focando seu olhar muito além do Tuca. De repente, desvia os olhos para fora do bar, como se tivesse avistado qualquer coisa lá no fim da rua. Enquanto nos viramos para olhar na mesma direção, ele se levanta. E sai, descendo a rua até a última esquina, onde dobra e desaparece. Demos por encerrada a entrevista. Tinha outra saída?)

Leia a primeira parte da entrevista, aqui.

Ilustração: do blog do artista plástico Hélio Jesuíno, aqui.

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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Brasília: mineiríssima idéia de gerico!

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Meu mano Paulinho Saturnino (belorizontino desde mui d’antes de caparem do Curral Del Rey esse belo nome cheirando a gado e, acima de tudo, na opinião dos republicanos, fedendo a água de colônia do então recém-banido império) postou no seu blog uma ótima crônica sobre a cinqüentona Brasília. A seguir, uns trechos:


Millôr Fernandes havia dito, n’A Bíblia do Caos: ‘Brasília é o desnecessário tornado irreversível.’ Acho e não acho. Dou a Brasília meu repúdio pelos danos que ela causou ao exercício do poder político entre nós, mas dou-lhe, ao mesmo tempo, minha paixão por aquele projeto urbanístico onde eu adoraria viver, talvez um olhar viciado de cadeirante, iludido pela planura e pelos amplos espaços públicos.

“Há exatos 50 anos, lembro-me, menino, excitado com aquele dia da inauguração de uma cidade meio maluca que ocupava todos os assuntos e revistas ilustradas, como O Cruzeiro e Manchete, das quais eu era viciado leitor. Arquitetura revolucionária, Juscelino, festas badaladas da mais fina elite, lamúrias por um Rio de Janeiro usurpado em seus sentidos e vocações, cenas de um cerrado então exuberante, entrevistas com brasileiros que haviam acorrido de todos os rincões em busca da nova vida que a cidade prometia. (...)

“Brasília vingou como cidade e como monumento tombado pela admiração mundial. Mostrou-se profundamente brasileira ao gestar nos seus entornos um cinturão de pobreza, mesmo de miséria, depósito daqueles a quem se reservou só despojos do sonho imenso. Nos rastros de sua breve história se arrasta uma dúvida insanável: o que teria significado a nova capital para nossa convivência política, para nossa vida republicana, se metade de sua existência não tivesse se passado sob os tacões da ditadura militar, com suas regras tão próprias para a organização do poder, para a distribuição de benesses e para cevar “lideranças” viciadas e carcomidas?

“Penso Brasília como sonho e pesadelo. Linda sob aquele céu azul, emoldurada pelo infinito de seus horizontes, nela floresceram fartos espaços sombrios, aparentemente adequados à política safada e aos negócios escusos. O que lhe falta, não como cidade, mas como capital do Brasil, já que esse era seu desenhado destino? Porque, ali, parte preponderante dos agentes políticos sentem-se tão desobrigados dos temores devidos à pressão popular numa democracia que se queira moderna? Quando ela se tornar secular, quase adulta, os de vocês que porventura ainda pelejarem por aqui, talvez tenham arrancado dessa Brasília de todos nós alguma resposta, quem dera até alguma transformação positiva. (...)”

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Também fico até hoje meio dividido em relação a Brasília, Paulinho. Mas cada dia menos; o fiel da balança pendendo cada vez mais para o prato vazio – porém pesado por si mesmo – da inutilidade, do desperdício, do oco do delírio. Uma capital que nos custou uma fortuna, e continua custando até hoje. A vida dos que a justificam (os políticos e seus assessores, apaniguados e asseclas, além de boa parte da imensa corte de funcionários públicos) não finca raizes lá, e nós pagamos os custos das passagens e de outras mordomias. Sem falar nos custos, muito mais altos, que foram impostos pela Constituição de 88, penalizando a todos nós, brasileiros, com o pagamento pela União das despesas com educação, saúde e segurança da capital do Cerrado. Brasília não passa, modéstia de mineiro que sou à parte, de uma grande idéia de gerico tipicamente mineira, uma reedição do que foi a criação da sucessora de Ouro Preto, não na já então capital de fato – Juiz de Fora –, mas num curral de montanhas plantado nos ermos ferríferos das Geraes.

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No início da década de 1890, quando o governo de Minas resolveu criar a nova capital, os ventos republicanos sopravam forte em busca do progresso, um progresso vislumbrado pelo prisma estrábico do positivismo. As minas de ouro cuspiam suas últimas reservas do precioso metal ainda extraído a médio custo, o café instalara-se de vez em São Paulo, e a maior parte da população e da riqueza de Minas Gerais concentrava-se no Sudeste da Zona da Mata, com seus férteis pastos para a pecuária leiteira que substituíram os cafezais e com a força industrial de Juiz de Fora, então a mais próspera cidade do estado. O parque fabril da “Manchester Mineira” já era tocado, desde o ano da Proclamação da República, pelas turbinas de Marmelo 0, a primeira usina hidrelétrica do Brasil, recurso energético de que São Paulo e Rio só disporiam, respectivamente, 11 e 17 anos depois. Além disso, Juiz de Fora era perto do Rio, a capital federal e, à época, maior cidade do país. Que vantagem haveria em se plantar a capital mineira a quase mil metros de altura e mais distante do Distrito Federal e de seu porto que a descapitalizada (nos dois sentidos) Ouro Preto?

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Havia uma vantagem, e muita cara ao sentimento “nacional” do mineiro: em valores imediatos (ou seja, sem contar os ganhos a médio e longo prazo) saía muitíssimo mais barato. Partindo do princípio de que era preciso sediar a capital numa cidade moderna e bonita, mania republicana que nortearia também as grandes reformas urbanísticas que logo se dariam no Rio e em São Paulo, reformar Juiz de Fora não seria um bom negócio. Provavelmente, gastou-se muito mais só na reforma do centro de cada uma das duas metrópoles brasileiras do que em toda a construção de Belo Horizonte. Para se ter uma idéia, só a abertura da Avenida Central (atual Rio Branco), no Rio, demandou a desapropriação, com pagamento em dinheiro vivo, de mais de quinhentos prédios, sem contar os que foram permutados e as indenizações pagas pela desativação de maquinários. A pequena Belo Horizonte (o nome veio antes da construção da nova cidade, para “varrer do mapa republicano” o tal Curral Del Rey) teria, no máximo, o mesmo número de imóveis da área ocupada pela Avenida Central e, ao contrário dos do Rio, eram prédios pequenos e, a grande maioria, de apenas um andar. Sem falar, é claro, na abissal diferença de valor entre os terrenos urbanos cariocas – ou mesmo de Juiz de Fora – em relação aos da longínqua e desvalorizada área escolhida pela Comissão Construtora da Nova Capital de Minas.

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Outra vantagem apontada por alguns historiadores era a localização da capital num local potencialmente rico para a mineração, vocação que o mineiro já traz no próprio gentílico. Ou seja, se o ouro já era, ferro na boneca! Não duvido que tenha rolado um caixa dois nessa história, por iniciativa de possíveis interessados na exploração das ricas jazidas de ferro daquela região. Mas, mesmo nesse caso, precisavam plantar a cidade em cima de solo ferrífero? Não faz sentido, a não ser que se invoque mais uma vez o gosto apurado que o mineiro tem por um dinheirinho a mais. O raciocínio seria mais ou menos este: “O cumpádi tá meio apertado, o murundu de grana debaixo do colchão já quase não tá incomodando a espinha dele mais a da muié. Antão ele garra a picareta e vai pro quintal pru mode colher uns pedregulhim de ferro pra vender na feira, uai!”

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Mas, voltando ao Planalto Central, não pensem, por favor, que menosprezo o talento de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Discordo de determinadas concepções dos dois, mas não compartilho a perspectiva dos que, de nariz torcido, apontam na criação deles influências de arquitetos e urbanistas europeus. Acho que ambos foram bem além dessas influências que, de fato, assimilaram. Mas se não tivessem ido além, qual seria o problema? Antes isso do que a cafonice glacial dos pensadores do espaço urbano norte-americanos, incensados e seguidos por levas de arquitetos e urbanistas brasileiros. Sou velho, talvez obsoleto, tanto que a tristeza me invade quando me lembro, por exemplo, do belíssimo Hotel Avenida, uma das muitas pérolas geradas pela reforma do Rio por Rodrigues Alves e Pereira Passos. Assumidamente, o hoje já centenário projeto urbanístico foi inspirado, assim como o de São Paulo e o da construção de Belo Horizonte, nas concepções de Haussmann para a grande reforma de Paris. Daí que a minha tristeza nada tem a ver com saudosismo: sobrevivo bem sem o velho hotel e a adorável Galeria Cruzeiro que funcionava sob ele – mais conformadamente do que sobrevivo sem o Palácio Monroe, vingativa e criminosamente derrubado pelos militares golpistas, que viam na antiga sede do Senado um símbolo da democracia. O que me entristece, o que não dá para suportar é a visão do monstrengo de 34 andares que ergueram no lugar do hotel, aquela ianquíssima estrovenga de esquadrias de alumínio e vidro, verdadeiro monumento ao bom gosto e ao bem viver desaparecidos.

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Em relação a Brasília, especificamente, o conjunto da obra não me agrada. Talvez me falte a megalomania, que o patriotismo exacerbado proporciona, para ver na cinqüentona capital beleza semelhante à que muitos cariocas fanáticos por futebol conseguem ver naquele imenso cinzeiro sessentão chamado Maracanã. Não me seduz nem um pouco a imensidão das formas em concreto armado, a começar pelo Cristo do Corcovado, com quem cruzo na rua só de longe mas a toda hora: acho-o tão feio quanto qualquer santo de madeira feito por artesão pouco criativo. Essa imensidão de cimento e ferro, no caso de Brasília, é elevada à enésima potência – ou impotência, no meu caso –, um festival de petrificadas continências orgásticas tentando amainar a solidão gerada pelos imensos espaços abertos. Tudo tão longe! Se lá morasse, imagino, eu teria de pegar táxi para beber no boteco do outro lado da rua – se lá existissem botecos do outro lado da rua...

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Ah, eu já ia cometendo, por esquecimento, uma injustiça federal com o nosso Distrito idem! Brasília tem a maior renda per capita do país e uma das maiores da América Latina. Essa avaliação deve ser lá deles mesmos, brasilienses, sempre muito modestos, humildes nessas questões que envolvem dinheiro embolsado. Mas eu, que de comum com a nossa capital só tenho o fato de ter nascido em Minas, posso retificar com certa isenção: UMA DAS MAIORES RENDAS PER CAPITA DO PLANETA!... Sim, se contabilizarmos, naturalmente, a grana preta que rola por debaixo do pano – seja ele toalha de mesa, lençol, cueca, meia, sutiã etc.


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Leia na íntegra a crônica do Paulinho Saturnino, aqui.

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sexta-feira, 16 de abril de 2010

Trágedia sem preconceito de classe?

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Chamada de primeira página d’O Globo de ontem, 15 de abril:

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Tragédia que não

distingue classes

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O mesmo deslizamento de terra que atingiu uma área da Favela da Rocinha derrubou parte de uma das 42 casas do condomínio de classe média alta Gávea Parque. Pouco acima, há uma mansão no Condomínio Canto e Mello que também corre risco com um deslizamento... Página 18

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Alguém teve a coragem de abrir a página 18? Se teve, por favor, me dê os detalhes. Mas com habilidade e doçura, porque desde ontem estou profundamente deprimido com essa tragédia cafajeste que ousa enlamear morro abaixo parte da residência – quiçá até algum pertence valioso – de gente distinta que nada tem a ver com essa baixaria toda das chuvas.