Mostrando postagens com marcador Neurose é coisa obsoleta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Neurose é coisa obsoleta. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de julho de 2010

El loco y el psicópata

.




.. .

. .. . . . . x

. . .





.

Cada um veste a camisa alvinegra que merece.!

.

. . . . . . . . . .O carismático Sebastián “El Loco” Abreu, ao lado de seus companheiros da Seleção do Uruguai, mostrou na África do Sul o que é o verdadeiro futebol sul-americano. O 4º lugar conquistado --- . com técnica e muita garra --- . vale como título de campeão para essa seleção que nas eliminatórias sul-americanas ficara apenas na 5ª colocação.

. . . . . . . . . .Parabéns, Loco! Parabéns, Uruguai!

. . . . . . . . . .Para comemorar a conquista, exibo o vídeo do gol de pênalti marcado por Abreu que garantiu ao Botafogo o título de Campeão Carioca deste ano. Foi feito com a mesma frieza e categoria que ele mostrou no gol que deu ao Uruguai a classificação para as semifinais, no jogo contra Gana.

. . . . . . . . . .A essa altura, esse gol tem um sabor ainda mais especial, porque El Loco o fez contra o goleiro Bruno, o psicopata que mandou trucidar a mãe de seu próprio filho. Veja abaixo a humilhação do facínora --- . e a glória do herói!



domingo, 14 de março de 2010

Besouros, escorpiões, lacraias e outros bichinhos

.

Comidinhas vivas que o não-nascido

garimpava na terra quando ainda bebê

.

.

Em mais um trecho selecionado da Autobiografia de um que nunca nasceu, temos Fiophélio Nonato a relatar uma de suas primeiras aventuras pelo quintal de casa. Com menos de um ano de idade, ainda engatinhando, já provara todos os insetos e outros invertebrados que encontrava na terra – e elegera entre os seus prediletos a lacraia e o escorpião, os quais saboreava sem riscos, através de sofisticadas técnicas desenvolvidas por ele mesmo.

.

Pequenas iguarias pelo chão

Meu padrinho Eros Ivo, que me criou como filho, não gostava que eu brincasse com bichinhos na terra do quintal lá de casa, não: bem sabia ele que eu gostava de comê-los, principalmente os besouros e os pequenos caracóis, irresistíveis na sua maciez crocante. Aprendi desde muito cedo, por volta dos 10 meses de idade, quando já sabia engatinhar com desenvoltura, que essas iguarias têm hábitos, tiques e manias como os seres humanos. As joaninhas, por exemplo, se você demorar a mastigá-las, escapam para o céu da boca e nele se aferram com tal empenho que fica impossível removê-las com a língua. Se você, no entanto, ali deixá-las quietas por alguns minutos, a ansiedade acaba por traí-las: cientes da gravidade da situação, começam a circular por toda a sua boca, pisando mais forte com o par de patas traseiro e emitindo estrilos – perceptíveis tão-somente pelo aguçado tato da mucosa humana –, como se a discutir a melhor estratégia para enfrentar o perigo iminente de morte. Já os caracóis, normalmente lerdos no caminhar, tornam-se lépidos dentro da sua boca, deslizando em alta velocidade pelas pirambeiras da língua, a tirar partido da mistura de saliva com a própria baba de molusco: e assim esquiam tranqüilos e sorridentes, alheios à visão dos dentes que irão triturá-los.

A par dessa minha preferência por coleópteros e pequenos moluscos com casca, nunca rejeitei outros serezinhos que a terra me oferecia, nem mesmo as lacraias e escorpiões. Sabendo agarrá-los, de modo a evitar e depois extrair o perigoso ferrão, são frutos muito prazerosos: o gosto acre e travoso logo é suplantado pelo agradável entorpecimento da língua que decorre do vazamento do veneno, inofensivo sem a ação da ferroada. No entanto, há que se conter a gula, posto que dois ou mais indivíduos dessas espécies peçonhentas, se embocados ao mesmo tempo, são capazes de planejar e executar em segundos uma vingança terrível: secretam uma enzima que transforma seu algoz em vítima de uma diarréia das mais dolorosas. Tal substância, a Ciência ainda não foi capaz de detectá-la, uma vez que é produzida apenas nesta exata ocasião: quando eles estão à beira da morte no cadafalso oral de um ser humano.

Este texto já foi publicado numa série entitulada Bestiário – aqui – no blog de Hélio Jesuíno, de quem surrupiei os bichinhos da ilustração acima.

Mais trechos do livro de Fiophélio Nonato aqui, aqui e aqui.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Sol noturno

.

O não-nascido leva ao circo
as gargalhadas do falecido . . .
.

Em sua Autobiografia de um que nunca nasceu, Fiophélio Nonato passa a conviver com súbitas aparições da gargalhada de seu padrinho Eros Ivo depois que este morre, em circunstâncias estranhíssimas. No trecho do livro que apresentamos a seguir, a gargalhada aparece em lugar bem apropriado: no circo, umas das paixões de Nonato e seu “Dindo”.

.

.

..

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sexta-feira, 13 de abril de 2012


O circo lotado, fim do derradeiro número. A gargalhada monumental e irresistível do meu finado padrinho Eros Ivo eclodiu como rédeas conduzindo para o alto os risos e aplausos dos expectadores que se renderam, todos, às fantásticas cambalhotas mortais do palhaço Fefênix, sem perceberem que o artista, estirado imóvel no chão, prolongava a imobilidade não para dramatizar e realçar o efeito cômico da sua performance, mas porque lograra realizar a cambalhota mortal perfeita: no ar, enquanto piruetava a esmo, fisgara o mal súbito que o matou. E agora todos gargalhavam cada vez mais alto, sob a batuta sonora do Dindo, e logo se dobrariam de tanto rir, caindo uns sobre os outros, alguns já molhando as calças, outros até babando a alma alheia.


O palhaço Fefênix então se levantou da morte e, meio sem graça como qualquer morto que é aplaudido, tirou o chapéu e curvou-se agradecendo ao respeitável público que a essa altura uivava junto comigo de tanto rir. Presa do riso feérico, o falecido Fefênix tirou a careca postiça e de novo curvou-se agradecendo ao respeitável público que chorava de rir a cântaros. Afogado de emoção, o defunto Fefênix tirou a sub-peruca de magistrado que encobria sua calvície real, para curvar-se agradecendo ao respeitável público que ria a bandeiras brasileiras despregadas. Patrioticamente, o de botas batidas Fefênix tirou sua carnal careca apátrida e mais uma vez curvou-se agradecendo ao respeitável público que ria mais que filhos de cego perdido em tiroteio de bombinhas juninas.


Desnorteado, o escalpelado corpo sem vida do palhaço Fefênix tirou o tampo do crânio e quase caiu para frente ao curvar-se agradecendo ao respeitável público que gargalhava a cambalhotas em cascata e em chafariz – de praça ou de cetáceo. A esguichar leques e salamaleques, o não-autopsiado Fefênix tirou o cérebro e, sem pensar, curvou-se agradecendo ao respeitável público que já botava pelo riso escancarado o coração batendo palmas, os bofes assobiando e, pelos zíperes estourados de tanto rir, o pênis badalando sinos ou o clitóris chacoalhando guizos, acompanhados de pedidos de bis, mais, isso aí, vamos lá, com força, ui, vem, espera, ai, aperta, humm, ainda não, nossa, não pára, uau, tudo, ai ai ai, assim, mais rápido, u-uuu, tô quase...


Libidinosamente, a desmiolada peça anatômica Fefênix tirou do oco da cabeça coelhos arrulhando pombas, pombas chocando ovos de Páscoa, cobras quadradas e lagartos redondos, o monstro do Lago Ness pescado por um Dragão da Independência no Piscinão de Ramos, a vedete Rose Rondelli aos 18 anos sussurrando nudez sob uma burca negra semitransparente... e curvou-se, curvou-se várias vezes agradecendo ao respeitável público que guerreava em paz e amor a gargalhadas disparadas não só da boca como dos olhos, das narinas, das orelhas, dos mamilos, do umbigo, do coração, do intestino, da mente, da alma, do espírito, do karma, da aura, dos chakras, dos meridianos, das nadis, do prana, do kundaline, do ego, do superego, do id, da libido, das pulsões nomeadas e das pulsões inomináveis, dos apitos eróticos do seu Celestino de cada um um-mesmo e de cada casal, triângulo, pentágono, trenzinho de tchutchucas e tchutchucos cachorros e cachorras preparadas e preparados – nas mais variadas posições judaico-cristãos, nas do kama sutra, nas tântricas e em muitas outras bem mais sofisticadas, mágicos frutos do improviso.


Envolvido pela fumaça do inconsciente coletivo em chamas, o presunto defumado Fefênix desabotoou, num truque de prestidigitação sem o uso das mãos, a braguilha da alma, e botou para fora seu corpo em rigidez cadavérica transubstanciando-se num infinito picadeiro multicolorido sobrevoado por almas de palhaços: as do Carequinha, do Fred, do Zumbi e do Meio-Quilo; as do Arrelia, do Chincharrão, do Piolim, do Torresmo, do Picolino e do Massaroca; as do Serrano, do Pirulito, do Polidoro, do Eduardo Neves, do Alcebíades, do Caetano Namba, do Dudu Diamante Negro e do Benjamin de Oliveira – com sua peruca de cabelos lisos e o alvaiade no rosto que poupavam as platéias escravagistas da visão hedionda de um preto forro fazendo, nos picadeiros do segundo império, graça das boas como se branco fosse...


Sem mais corpo nem tempo nem espaço para curvar-se ante o respeitável público que transformara-se num mar gargalhante de orgasmos cujas ondas lambiam o rabo incandescente de sua essência em forma de cometa, o agora palhastro Fefênix agradeceu a abanar sorridente o referido traseiro luminoso. E enquanto as almas-estrelas dos seus companheiros iam estampando constelações pela cobertura celeste noturna do circo, o indelével espírito palhaço de Fefênix traçou, esvoaçando entre nuvens de gargalhadas formadas por evaporação do respeitável mar, mirabolantes cambalhotas imortais, antes de esborrachar-se estirado no céu circense e prolongar para sempre a imobilidade que dramatiza e realça o efeito cômico de sua performance como sol noturno – aquele lá, com La Rondelli, rósea risonha lua nua, na lapela.

.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Shakespeare em drágeas de papel

.
Mais um trecho da autobigrafia
daquele cara que nunca nasceu



Já postamos duas vezes aqui no blog trechos da Autobiografia de um que nunca nasceu, de Fiophélio Nonato. O trecho de hoje faz parte do primeiro dos três anexos do livro, e é o único que não tem título definido. Ou pelo menos assim me parece, pois há um título datilografado "Sementes híbridas de frutos estéreis" e riscado; e um segundo, escrito a lápis "Receitas para vencer na vida sem precisar nascer" e (mal) apagado com borracha. Fora isso, foi carimbado no alto da página o seguinte: "Arquivado e foda-se!" Mas esse mesmo carimbo aparece também em diversos capítulos do livro que têm título.

O texto que selecionamos é um dos poucos com mais de 15 linhas dentre os 23 que compõem o Anexo I. Vamos a ele:



A primeira vez que li Shakespeare eu mal completara meu primeiro ano de não-nascido. E ainda era analfabeto da sola dos pés para cima. Em português – porque, em espanhol, já começara a ler por influência dos meus sapatinhos de tricô Naique, e com um irretocável sotaque paraguaio. O inglês seiscentista, porém, eu o aprendi quase instantaneamente, desde que Hamlet começou a ser-me inoculado por Floris Bregh, uma bela morena que mora no Acre – numa aldeota onde, segundo ela mesma me contara por sinais de fumaça produzida por uma das queimadas que quase diariamente arrasam quarteirões inteiros de mata amazônica, "no verão o inferno é verde e o sol arde cada dia mais forte tentando, por enquanto em vão, amarelar tudo".

. .

Do 11º andar do jequitibá em que residia, até então preservado do fogo dos posseiros fazedores de pastos, Floris, como eu dizia, me inoculava Hamlet lançando doses redondas e certeiras de páginas da tragédia shakespeariana no quintal do meu semi-desabado casarão em Vila Valqueire, e justo na boca do bebê aqui – que por ali engatinhava à cata de caracóis e insetos para comer. Mas as bolinhas de Hamlet eram mais gostosas, e me chegavam como um raio ao coração e ao cérebro, órgãos que em nós, não-nascidos, são um só, aconchegado entre o estômago e o fígado, e nos proporciona uma sensação muito agradável de fome saciada quando ingerimos um texto que valha a pena, seja através da leitura convencional, seja muito mais através de petardos de páginas bem emboladinhas recebidos, goela abaixo, de uma bela mulher. Se você, leitor, por acaso não conhece Floris, nem outra mulher bonita com a sua mira miraculosa, experimente comer por si mesmo algum texto curto shakespeariano – um soneto, digamos, que não será refeição pesada, talvez até mais leve que um canapé light feito na hora por uma quituteira de bons bofes e más intenções sensuais. Caso ainda assim o bardo inglês não lhe passe pela garganta, intragável tanto quanto o são para muita gente a ostra (mesmo sem a concha), o caviar (mesmo sem ter de pagá-lo) e a buchada de bode (mesmo com o sal de fruta de logo após), não o coma: beba-o, que ele também sabe ser líquido, e denso e aveludado como um bom licor francês ou italiano; ou fume-o, e poderá desfrutar sabor e aroma superiores aos dos melhores charutos cubanos; ou aperte unzinho, se possível em seda bíblia subtraída, por exemplo sugestivo, a ‘A comédia dos erros’, e dê doisinhos básicos; ou então bata meio soneto numa carreira fina e curta e cafungue-o a plenos pulmões.

.

Se nenhuma dessas práticas condenadas pela sociedade o atrai, nem mesmo a mais perigosa delas – a boa leitura! –, esqueça o cara e deixe-se chegar até ele por acaso, talvez tangenciando papos bêbados de balcão num boteco sórdido; talvez grampeando no ônibus a ladainha tricotada pelas duas velhinhas do banco da frente; talvez convidando a primeira bela (ou belo) que lhe sorrir no elevador a seguir direto à cobertura do prédio para caçar estrelas numa noite de céu nublado; talvez até mesmo em casa, postando-se diante da TV sintonizada num programa de auditório, para, armado de um naipe de canetas hidrocor, decalcar em traços rápidos sobre o monitor todas as caretas e trejeitos do apresentador, até que da imagem transmitida só reste algumas centenas de fímbrias luminosas a animar o emaranhado de riscos coloridos que você a ela superpôs, compondo uma espécie de obra impressionista em surreal mutação constante. Enfim, permita-se encontrar William Shakespeare – ou ser por ele encontrado – em qualquer lugar em que lhe der na telha estar: exceto talvez num teatro, e não com certeza no palco – onde o velho Bill, em sua grandeza plena, nunca pisou nem jamais pisará, fosse com seus próprios pés, fosse ou seja com os pés de uma companhia teatral, inclusive e principalmente as shakespearianas.

..

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O não nascido ataca outra vez!

.
Mais uns trechos da autobiografia
do estrambólico Fiophélio Nonato



Sensibilizados com a estupidez de três leitores que manifestaram discreto entusiasmo com a postagem de Poesia, o Amor a lê?, resolvemos democraticamente ignorar as pouquíssimas centenas de protestos irados contra a divulgação do referido poema e, mais do que depressa, postar trechos de outro capítulo da Autobiografia de um que nunca nasceu, antes que o blog e seus administradores e colaboradores sejam virtualmente apedrejados. Se vai chover pedras, que sejam pedregulhos reais!

Os três trechos que juntamos aqui são bem mais lights que o supracitado poema. Foram pinçados do Capítulo 27 da obra, e não porque nos pareçam os mais relevantes, mas tão-somente porque são os únicos que estão mais ou menos legíveis no emaranhado de emendas que constitui a maior parte dos originais do livro de Fiophélio Nonato. Pela ordenação que o autor estabeleceu, este capítulo aparece antes de vários outros de numeração inferior, inclusive o 2, que pela lógica comum deveria ser o primeiro, uma vez que não existe um Capítulo 1.

O Capítulo 27, todo ele é dedicado ao período em que, emancipando-se aos 15 anos e deixando a casa dos catadores de lixo que o criaram em Vila Valqueire, Fiophélio vai morar com uma coroa de 27 (arrá!) e uma cadela sarnenta num conjugado de 16,5 metros quadrados, em Ramos. Abandonado pela mulher três dias depois, fica tão indignado que resolve se transformar num avestruz.

Eis os trechos:



Compartilho convosco, meus diletos piolhos, carrapatos e pulgas, os respingos dessa caprichada punheta que inaugura meu dia em pleno nascer da lua. Admito que o avestruz que ora vos amamenta com sangue e vos confeita com esperma acordou hoje um pouco tarde mesmo, e com a cachorra! – embora sem a cachorra. Pois é, a Ana Maria, nossa vira-lata amada e imunda,
está no cio, e resolveu pular a cerca enquanto eu dormia e se mandar desta sauna apertada em que vivemos para dar uma saracoteada de biquíni pelo Piscinão. Já viram, né? A essa hora da noite, toda a cachorrada vadia de Ramos e arredores ainda deve estar se esbaldando com ela, tudo embolado dentro do pocilgão, protagonizando a maior suruba aquática da história do bairro.

. . . . . . . (...)


Não se passou um só dia,

nesta minha vida tão parca

em realizações espetaculares

mas quase infinita,
se já não o for por inteiro, sabe-se lá –,

sem o cotidiano orgulhar-me

e muito!... dos presentes ganhos:

dores fincadas bem fundo no peito
tanto quanto alumbramentos
por aves, com aves, sempre as aves,
que um avestruz só com elas
ou por elas se deixa tocar.


Um dia é uma condor azul

que me beija, com toda paixão

latente lá pelas moleiras do mundo,

e o coração me arranca e leva

para plantar no inferno dos céus:

e eu lhe sorrio e lhe sou grato.

Outro dia pode ser uma colibri

a vir rebolar-se no ar que respiro

só para me sugar até o fim o néctar

cultivado às pétalas da flor da pele:

e eu lhe sorrio e lhe sou grato.


Ave aves! Sou-lhes todo gratidão...

e ansiosa e alucinante espera,

dê-se a isso o nome que se der:

carência, neura, piti, viadagem...

saudade, nunca, nem fodendo!

que saudade, nas aves, não existe além,

não é uma pena, uma pluma perdida,

mas a mais pura e inseparável parte nossa,

e a mesma que a maioria dos homens,

beócios ensurdecidos pelo apego
ao seu
macio chãozinho forrado de bosta,

nem sabem que é a própria libido,

apenas a porra da sua sagrada libido

que, dadivosa, sussurra: voe, sua besta...


........ ..... (...)

Já imaginou um avestruz enrabando uma cambaxirra dentro do elevador?

Pois era o que eu fazia todo fim de tarde, de segunda a sexta, durante a maior parte dos quase cinco meses em que trabalhei como ascensorista de um prédio de 34 andares plantado bem na olhota efervescente do Centro da cidade, mas não tão bem como eu me plantava na olhota efervescentemente centrada nas nádegas fartas e sacolejantes da Dezinha, a cambaxirra em questão.


Dava cinco da tarde, o formigueiro pegava fogo, a cada andar um mundaréu de gente se acotovelando e trocando cusparadas para entrar logo num dos elevadores e conquistar a glória de chegar em casa uns 47 segundos mais cedo. Nem bem a porta se abria um terço, o elevador era invadido por uma manada feroz, os de trás botando pressão no rabo dos da frente, principalmente quando o de trás era homem e o rabo da frente era de mulher boa. Aí... “Epa, já tem vinte aqui dentro, meu (minha) senhor(a)”, eu dizia. “Um a mais, um a menos, não faz diferença”, argumentava o (a) cara de pau (buceta), que sempre, sei lá por que, era algum(a) rolha de poço que equivalia no mínimo a duas pessoas normais e lá vai banha. Mas eu era inflexível. Completada a lotação, não entrava mais ninguém, mesmo que fosse um anão tísico e perneta. Daí eu tinha sempre de agüentar sem chiar os olhares mais tenebrosos, não só dos barrados como dos que já haviam entrado. Olhares de alguém-peidou-mal-no-elevador-e-claro-que-foi-você-seu-avestruz-asqueroso-filho-da-puta. Juro que era exatamente isso que aquele enxame de olhos dizia, embora até hoje eu não possa atinar como essa gente consegue imaginar uma avestruz progenitora rodando bolsinha por aí.


Sobe desce sobe desce sobe desce sobe desce sobe desce... e de repente, já perto das 18 horas, o movimento decaía rapidamente, até o ponto de eu passar mais de cinco minutos parado no térreo. E eis que se acendia a luzinha divinal do 29º andar, onde Dezinha trabalhava até as 17 e depois se punha debruçada na janela, a folhear uma revista cretina qualquer a fim não só de fazer hora até o prédio ficar quase vazio, mas também de adequar o espírito para aturar o avestruz pateta aqui e, principalmente, desamarrotar a bundaça que passara o dia todo achatada na cadeira, para me oferecê-la já lisinha e empinadona, sempre em retumbante afronta à lei da gravidade e sei lá quantas outras leis muito mais poderosas que, tão logo fossem criadas, seriam prontamente afrontadas por – como ela adorava que eu o chamasse: le prodigieux derrière de mademoiselle
cambaxirrá.

Não vou entrar em detalhes sobre o que acontecia entre mim e Dezinha depois que eu parava o elevador bem lá em cima, quase invadindo a casa de máquinas, porque sou muito discreto e pundonoroso com relação a qualquer história que tenha cu de mulher minha no meio. Mas... não resisto a uma ligeira confidência. Raras coisas nesta vida podem ser tão sublimes quanto tentar ajustar o vaivém sexual ao ritmo quente mas descompassado daquela bateria de gente socando as portas do elevador nos andares mais altos por quase uma hora, cada vez mais aflita para descer logo e sem coragem de encarar no máximo 34 andares de escada. Ou, vá lá, 37, se incluirmos as três escadas rolantes das sobrelojas, àquela altura já desligadas.

.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Poesia, o Amor a lê?

.
Trecho da autobiografia
de um que nunca nasceu


O poema abaixo integra um romance cujos originais me foram encaminhados por Seu Juca Sem Fio, famoso andarilho da Zona Oeste do Rio de Janeiro. O autor da obra, Fiophélio Nonato, não pretende publicá-la. Pretendia, isto sim, conforme me contou o Seu Juca, queimar os originais, "como fez com vários outros livros que escreveu, e faria com esse também se eu não tivesse roubado a papelada".

Todos os capítulos do livro estão datilografados, mas a maioria deles compulsivamente emendada em caligrafia de difícil leitura. Gostei tanto, porém, dos trechos que consegui ler que estou empenhado em decifrar o romance todo. Se isto for possível, depois, através de Seu Juca, pretendo procurar Nonato e tentar convencê-lo a me autorizar o encaminhamento do livro a uma editora.

A história é impressionante. Ora é realista, conduzida a rédeas curtas pelo narrador, mas sempre com muito humor. Ora descamba para um lirismo quase piegas ou para o grotesco sem freios, lançando os personagens em episódios macabros, pornográficos e até escatológicos. Ou, ainda, a trama é às vezes subitamente envolvida por um surrealismo que reverte situações ou desfigura quase por completo determinados personagens, levando de roldão o próprio narrador na correnteza do inconciente que impõe novas e surpreendentes coordenadas de ação. O título do romance, manuscrito em letras garrafais no esfarrapado envelope de papel pardo que continha os originais, já dá uma boa idéia do seu conteúdo: Autobiografia de um que nunca nasceu.

O poema que aqui estamos postando surge num momento capital da história, quando o personagem-narrador chega a voltar-se contra si mesmo por causa de... Bem, isso já não é assunto para agora. Ao poema, pois!


Poesia, o Amor a lê?
..

...................................“Ave MariAiram, feia desgraça,

...................... . .... ......Por AmirArimã é que busco Pã...”

.................................. ...... . ......(Onano Oileh Poift)

.

Ao vento lançamos de louça em pétalas

asas diabéticas de açucareiro

melados de entremeio ao fogo excelso

quem sabe zé celso de orgasmos murchos

gorduchos tangarás dançando em visgo.

.

Luziste em meu sangue como um semáforo

histérico surtado zumbi verde

a furtar vermelho até do amarelo

e pôr sela ao mangalho e transfugir

perua a rir do ganso mal afogado.

.

Cantava-te em versos que nunca lias

mas ouvir bem esfingias com deleite

(dente por dente lei no meu pescoço

olho por olho Talião é o caralho)

qual burocrata descaracolando

sob tensa avalanche de uivos asmáticos

durex em meus astrolábios sem vírgulas:

.

­Banhei-te em rios de begônias e tu

eras toda uma empada de bigornas

e enquanto mole eu chupava feliz

teu nariz escorrendo do meu olho

sinistro cocho de teus falsos estros

a mim me fizeste pirarucu

do teu baú de deuses entupido.

.

“E questionar-te temi por que a fronha

azul medonha ainda envolvia o diálogo

monofásico com teus pares ímpares

(como indígenas prepúcios em anjos

ou sacis de tamanco descasados)

e nesses casos por isso é que calo

que me dói eu falo ou logo adeus digo.

.

...Que pena que pena ah que pena que

ela já não é mais a m’nha pequena

mas eu gosto dela benjor assim

minúsculo espinho entre as flores secas

do palacete de entranhas expostas

onde da bosta vindo fui viver

ó verde que amarelo é atemporal...

.

!!!Agora me há mal se eu não quebrar sim

o seu sem fim silêncio paleolítico

e do anímico âmbar recolher

meu ser que em sua carne não fez sentido

enquanto o meu sentido era a sua carne!!!

....

???Depois renascer será como um morto

absorto em sua fútil febre glacial

e em sua calma espera pelas minhocas

que o irão em pó pespeidar no universo

de novos versos que o Amor não lerá???

..

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Eus, em nome da vida que resta

¨

Oremos pelos seres repulsivos criados

por Deus à sua imagem e semelhança

¨



Que sejamos eus um homem simples e bom. Que gostemos eus das folhas verdes nas quais não pisaremos nem mesmo quando, já amarelecidas pelo sol a cada verão mais causticante, quedarem-se todas ao chão de uma vez para sempre. Que sigamos eus em procissão sem rumo com os besouros lacraias minhocas baratas pulgas sanguessugas percevejos lesmas escorpiões... eles e eus que somos tementes ao deus que nos criou à sua imagem e semelhança. E logo, posto que não haverá de tardar para que as condições propícias à vida humana se esgotem neste planeta cujo nome se perderá junto com a memória do derradeiro homem – eus –, haveremos de nos elevar em oferenda ao pasto das espécies por ventura ou desventura escolhidas pela natureza para perdurarem, ainda que por brevíssimo tempo, tão-somente graças à nossa alma humana divinizada e à carne divina humanizada que elas devorarão em êxtase dionisíaco. Em nome da vida, pela eternidade da morte. Amém.

.

Ilustra esta postagem o quadro Methusalem, do genial George Grosz (1893-1959).

¨.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Partes

¨
"Para amar uma mulher por inteiro
é preciso se dividir em mil pedaços."
. . ¨. ¨ ¨. ¨. ¨. . ¨. ¨¨. . . . ¨¨. (Teophanio Lambroso)
¨ .
¨
.
É noite. O cuco já não canta as horas, porque o cérebro, grudado feito uma craca no relógio, além de não permitir que a portinhola se abra, trava os dois ponteiros, senhor absoluto do tempo morto. Penduradas no lustre da sala, aceso, as pernas rebrilham, mas não têm forças nem para vagar à toa pelo teto. O fígado e o pâncreas se esparramam no armário de bebidas, entre garrafas de pinga, vodca, genebra, conhaque... todas vazias. A bunda está sentada, sem se perguntar para que, na bicicleta ergométrica. As tripas jazem na geladeira, sobre, envolvendo o pingüim, resignado, na sua passividade de louça. Os rins, o estômago e outras vísceras desapareceram, mas há tanto armário, tanta gaveta pela casa... Do saco, rasgado e separado do pênis, os testículos rolaram e foram adotados, como bolas de futebol, pelos três gatos. A cabeça, oca e sem o olho esquerdo, foi parar no tapete, junto com a barriga, vazia, e o peito, sem o coração, como se confabulassem sobre o problema comum da falta de estofo. Já os braços, o direito sem a mão, parecem tranqüilos embaixo da cama de casal, cruzados.

Muito antes de William Bernardes dizer boa noite, o olho esquerdo se fecha e cai – no sono e da poltrona – bem na palma da mão direita. Logo os dois se juntam, já na porta de casa, ao pênis, erecto, que controla com embaixadinhas o coração, ainda pulsando. E lá se vão os quatro para uma noite de orgia interminável, a iniciar-se num bar, assim que o coração, esmurrado pela mão direita e cabeceado pelo pênis, parar de bater, pronto para entrar na dança. Uma salsa – frenética, esquizofrênica, de tanto tesão de viver! Deflagrada pelo olho esquerdo que, ao despertar, sob a mesa em que os quatro se acoitam, reconhece, lá no fundo de um par de coxas entreaberto, o sorriso sem calcinha da parte mais enigmática da musa inspiradora do meu auto-esquartejamento.

Postagem de 30.11, repostada em virtude do acréscimo da ilustração de Hélio Jesuíno, extraída das páginas de Suíte Iconoclasta / Parte 3