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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Contos de réis: vêm mais 13 aí, já, já!

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É só uma provinha. Os outros 12 estarão saindo do forno antes do pôr-da-lua!

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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Merreca de contos de réis

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Amor burocrático

O amor pelos livros já não era o mesmo. Folheava-os, apenas – e burocraticamente, não mais como se folheasse nádegas.

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Não sei que lá

É só um não sei que lá, mas desses que não desgrudam. Ora coça nas idéias, ora dá câimbra na alma. Quando parece dar trégua, vejo o sol se pôr e a lua nascer... ambos cobertos de urticárias.

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Esquecimento

A mulher perguntava toda noite: “Passou o ferrolho na porta?” Como sempre, ele havia se esquecido. Um noite, enfim se lembrou, e foi feliz para o quarto esperar a mulher perguntar, esquecido de que ela o deixara de manhã.

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Leia mais 11 contos de réis, aqui, e 12, aqui.

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sábado, 24 de abril de 2010

Doze contos de réis

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1. Autoridade

Tato, nunca teve, mas olfato e visão não lhe faltavam. Foi, portanto, com autoridade que informou ao marido: “Venâncio, você é um cocô!”

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2. Agridoce

Ao ajoelhar-se, a jovem viúva derramou gotas da palidez profunda de seus seios. O padre pôs-se a sorvê-las com os olhos, ali mesmo, na igreja. Nunca provara nada assim, tão agridoce de desconsolo.

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3. O tesouro

Quebrou o espelho, que refletia sua boca de caçapa um terço maior do que ela era. Comprou outro, e descobriu que o antigo reduzia em dois terços a sua tromba.

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4. Se você quer saber...

Quase não abria a boca. Quando abria, só saía isso: “Se você quer saber...” Nunca ninguém quis saber.

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5. Felicidade

Na madrugada, bebendo com amigos, dois anos após a traumática separação, assumiu que era feliz: “Sim, eu sou, mas a falta dela ainda me dói às vezes... que nem um coice na cara!”

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6. Pergunta oportuna

No meio da transa, ela perguntou: “O que é que dá na gente que a gente acaba dando pra quem a gente não quer dar?”

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7. O pichador

Picha seu próprio nome em cemitérios, nas campas sem identificação do finado. Não é nada, não é nada, já é o cara mais sepultado do mundo.

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8. Praça

Duas pombas aos arrulhos, namorando no cocuruto da estátua. A mulher correndo e arrastando pela coleira sua cadela no cio, perseguida por todos os vira-latas da praça. E o velho, sentado no banco, quebrando a cabeça numa palavras cruzadas: “prática à qual a libido induz... quatro letras...”

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9. Trova de exu

Em louvor de um exu, jogou no mar a garrafa de vinho. Estranhou que ela não afundasse, então apanhou-a e viu que estava aberta. Dentro, só havia vento e um bilhete em versos: “Não bebo vinho barato/ Nem pinga que mal me cheira./ Jogue este vento no mato/ E a garrafa na lixeira.”

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10. Interdição

A primeira mulher era meio disforme e catingava, a segunda era pele e osso e falava cuspindo. Desisti. Em dias assim, em que a imaginação está na TPM, a masturbação é impossível.

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11. Borboletas

“Ó leleta monita, mamãe!” A mãe, paralisada de pânico, demorou alguns segundos para tentar salvar a filha do maribondo que lhe pousara na mão. Quando quis agir, a tarde caía e a menina e o maribondo subiam, borboletas a flanar prateadas pelo azul enegrecendo.

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12. Ah, o amor!

Entrou em casa sem acender a luz da sala, pé ante pé, para não acordar a mulher amada. Tropeçou no tapete, derrubou a TV e entrou de cabeça na cristaleira. A mulher, lá do quarto, gritou: “Pra me fazer acordar irritada, sua besta, basta sussurrar no meu ouvido aquelas baboseiras românticas que você adora!”


Leia mais contos de réis aqui.

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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Onze contos de réis

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1. Sereia

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Conheceu uma sereia. Se apaixonou, no ato, pela metade boa de cama. E comeu, frita, a metade que não tinha espinhas e falava demais.

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2. A queda

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Escreveu o bilhete de suicida num guardanapo de papel colocado sobre o peitoril da janela de seu conjugado no 17º andar. Depois de assinar, embolou o guardanapo, jogou a bolinha lá embaixo e voltou para a frente da TV.

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3. O consumista

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Comprava tudo que via pela frente. Dinheiro não era problema. Mas espaço, sim. Onde guardar, por exemplo, a tuba, o rinoceronte e a manada de deputados?

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4. Como sempre

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Agora, ali, era tempo de plantar. Como sempre, ele juntou tudo que nunca colheu e partiu.

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5. Dúvida

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Talvez nem fosse um cadáver. Pode ser que eu não tenha avaliado bem, ou que o espelho estivesse embaçado.

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6. A muralha

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De repente, o abismo. Chegou a pensar em voltar. Mas como, se atrás de si tinha aqueles milhões de seguidores que foi conquistando ao longo de anos, desde que resolvera se tornar guru?

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7. Coerência

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Eu pago tudo com dinheiro falso, sim. Queriam o quê? Minha filha alisa e oxigena o cabelo toda semana, meu filho não sai de casa sem as lentes de contato azuis que vive perdendo, e minha mulher faz tanto implante de silicone que, se cair no chão, quica.

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8. A mais venenosa

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Ei-la, a cobra mais venenosa do mundo! Se ela picar, a pessoa morre em poucos segun...

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9. O taxidermista

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Aprendeu que antes de empalhar um animal é necessário, para uma conservação mais duradoura da peça, pincelar sabão arsenical pelo menos duas vezes por todo o lado interno da pele. É o que faz, dez, quinze vezes, quando empalha seus desafetos.

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10. Orgulho

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O cão, só de olho, à espera de qualquer migalha de pelanca, mas eu não lhe dei nada. Quando a alcatra estava limpinha, vacilei, deixei-a cair no chão e ele me impediu de apanhá-la, rosnando. Não se apiedou do meu ar desconsolado: levantou a perna, mijou na carne e foi dormir no seu canto.

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11. Pontualidade

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Todo dia o despertador do celular toca às 6 da manhã, em ponto. Ele acorda, desliga a chamada, renova o serviço e volta a dormir. Até às 6 da manhã, em ponto.

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