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domingo, 14 de março de 2010

Besouros, escorpiões, lacraias e outros bichinhos

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Comidinhas vivas que o não-nascido

garimpava na terra quando ainda bebê

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Em mais um trecho selecionado da Autobiografia de um que nunca nasceu, temos Fiophélio Nonato a relatar uma de suas primeiras aventuras pelo quintal de casa. Com menos de um ano de idade, ainda engatinhando, já provara todos os insetos e outros invertebrados que encontrava na terra – e elegera entre os seus prediletos a lacraia e o escorpião, os quais saboreava sem riscos, através de sofisticadas técnicas desenvolvidas por ele mesmo.

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Pequenas iguarias pelo chão

Meu padrinho Eros Ivo, que me criou como filho, não gostava que eu brincasse com bichinhos na terra do quintal lá de casa, não: bem sabia ele que eu gostava de comê-los, principalmente os besouros e os pequenos caracóis, irresistíveis na sua maciez crocante. Aprendi desde muito cedo, por volta dos 10 meses de idade, quando já sabia engatinhar com desenvoltura, que essas iguarias têm hábitos, tiques e manias como os seres humanos. As joaninhas, por exemplo, se você demorar a mastigá-las, escapam para o céu da boca e nele se aferram com tal empenho que fica impossível removê-las com a língua. Se você, no entanto, ali deixá-las quietas por alguns minutos, a ansiedade acaba por traí-las: cientes da gravidade da situação, começam a circular por toda a sua boca, pisando mais forte com o par de patas traseiro e emitindo estrilos – perceptíveis tão-somente pelo aguçado tato da mucosa humana –, como se a discutir a melhor estratégia para enfrentar o perigo iminente de morte. Já os caracóis, normalmente lerdos no caminhar, tornam-se lépidos dentro da sua boca, deslizando em alta velocidade pelas pirambeiras da língua, a tirar partido da mistura de saliva com a própria baba de molusco: e assim esquiam tranqüilos e sorridentes, alheios à visão dos dentes que irão triturá-los.

A par dessa minha preferência por coleópteros e pequenos moluscos com casca, nunca rejeitei outros serezinhos que a terra me oferecia, nem mesmo as lacraias e escorpiões. Sabendo agarrá-los, de modo a evitar e depois extrair o perigoso ferrão, são frutos muito prazerosos: o gosto acre e travoso logo é suplantado pelo agradável entorpecimento da língua que decorre do vazamento do veneno, inofensivo sem a ação da ferroada. No entanto, há que se conter a gula, posto que dois ou mais indivíduos dessas espécies peçonhentas, se embocados ao mesmo tempo, são capazes de planejar e executar em segundos uma vingança terrível: secretam uma enzima que transforma seu algoz em vítima de uma diarréia das mais dolorosas. Tal substância, a Ciência ainda não foi capaz de detectá-la, uma vez que é produzida apenas nesta exata ocasião: quando eles estão à beira da morte no cadafalso oral de um ser humano.

Este texto já foi publicado numa série entitulada Bestiário – aqui – no blog de Hélio Jesuíno, de quem surrupiei os bichinhos da ilustração acima.

Mais trechos do livro de Fiophélio Nonato aqui, aqui e aqui.

terça-feira, 2 de março de 2010

O nascimento do não-nascido

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Fiophélio tem sua gênese

parido por um grande amor

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Em mais um trecho que aqui postamos da Autobiografia de um que nunca nasceu, de Fiophélio Nonato, eis que o nosso desilustre não-nascido conhece o amor.

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E o vive tão alucinada e visceralmente, que chega a se convencer de que está, enfim, nascido:

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .Pela devassa insônia

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. .Com que ela mumifica-me

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A alma de madrugada

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Num rondó que costura

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Cem mil vindouros séculos

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..De faraônica tecitura;

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Por descaminhos turvos

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Que meus despojos trilham

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Quando a mais breve ausência

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sua deflagra a febril

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Degeneração da abstinência,

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Meu coração dispara

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Desde que dela vim

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O verbo escrito em sangue:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sou tudo em ti, mais nada em mim..

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Leia outros poemas de Fiophélio Nonato aqui e aqui.

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domingo, 21 de fevereiro de 2010

Regressão em busca do ovo

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Como e por que o não-nascido

se transformou num avestruz


O soneto abaixo foi extraído da Autobiografia de um que nunca nasceu, de Fiophélio Nonato, cujos originais, em estado lastimável, eu venho pouco a pouco decifrando e publicando aqui no blog. Este E il volatile va, porém, já não é inédito: foi publicado há dois dias no blog Hélio Jesuíno & Cia. Ltda. (aqui), que iniciou uma série de postagens sob o tema bestiário. Vale a pena acompanhá-la.

Lá o poema é escoltado por uma ilustração feita sob medida para ele. Esta que aqui está, catei-a em outra postagem do Jesuíno (uma baita entrevista com o genial Luis Buñuel), só para não perder o ótimo mau hábito de surrupiar seus desenhos.

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E il volatile va

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Um dia, no fel de um desamar de novo,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Cansei de ser um reles não-nascido
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E rumei bem aquém do já vivido
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Para ser o meu começo num ovo.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Como na vida – esta, toda em azuis –
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Há que se ter grandeza em concretude,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Descartei a sutileza e a virtude
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Do beija-flor: desabrochei avestruz.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Que graça pode haver em ser tal ave
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Com asas inúteis e ar de corrupto? –
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Perguntarão os mais meigos, de abrupto.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Não há espaço inexplorável, se a nave
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . É maior que o medo de pecar, mote
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Da Humanidade em seu precário bote.

Leia outros poemas de Fiophélio Nonato aqui e aqui.

ERRATA: A ilustração acima foi feita, na verdade, para o poema Soeur Vaseline (de Ricardo G. Ramos), também postado no blog do Jesuíno.

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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Sol noturno

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O não-nascido leva ao circo
as gargalhadas do falecido . . .
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Em sua Autobiografia de um que nunca nasceu, Fiophélio Nonato passa a conviver com súbitas aparições da gargalhada de seu padrinho Eros Ivo depois que este morre, em circunstâncias estranhíssimas. No trecho do livro que apresentamos a seguir, a gargalhada aparece em lugar bem apropriado: no circo, umas das paixões de Nonato e seu “Dindo”.

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sexta-feira, 13 de abril de 2012


O circo lotado, fim do derradeiro número. A gargalhada monumental e irresistível do meu finado padrinho Eros Ivo eclodiu como rédeas conduzindo para o alto os risos e aplausos dos expectadores que se renderam, todos, às fantásticas cambalhotas mortais do palhaço Fefênix, sem perceberem que o artista, estirado imóvel no chão, prolongava a imobilidade não para dramatizar e realçar o efeito cômico da sua performance, mas porque lograra realizar a cambalhota mortal perfeita: no ar, enquanto piruetava a esmo, fisgara o mal súbito que o matou. E agora todos gargalhavam cada vez mais alto, sob a batuta sonora do Dindo, e logo se dobrariam de tanto rir, caindo uns sobre os outros, alguns já molhando as calças, outros até babando a alma alheia.


O palhaço Fefênix então se levantou da morte e, meio sem graça como qualquer morto que é aplaudido, tirou o chapéu e curvou-se agradecendo ao respeitável público que a essa altura uivava junto comigo de tanto rir. Presa do riso feérico, o falecido Fefênix tirou a careca postiça e de novo curvou-se agradecendo ao respeitável público que chorava de rir a cântaros. Afogado de emoção, o defunto Fefênix tirou a sub-peruca de magistrado que encobria sua calvície real, para curvar-se agradecendo ao respeitável público que ria a bandeiras brasileiras despregadas. Patrioticamente, o de botas batidas Fefênix tirou sua carnal careca apátrida e mais uma vez curvou-se agradecendo ao respeitável público que ria mais que filhos de cego perdido em tiroteio de bombinhas juninas.


Desnorteado, o escalpelado corpo sem vida do palhaço Fefênix tirou o tampo do crânio e quase caiu para frente ao curvar-se agradecendo ao respeitável público que gargalhava a cambalhotas em cascata e em chafariz – de praça ou de cetáceo. A esguichar leques e salamaleques, o não-autopsiado Fefênix tirou o cérebro e, sem pensar, curvou-se agradecendo ao respeitável público que já botava pelo riso escancarado o coração batendo palmas, os bofes assobiando e, pelos zíperes estourados de tanto rir, o pênis badalando sinos ou o clitóris chacoalhando guizos, acompanhados de pedidos de bis, mais, isso aí, vamos lá, com força, ui, vem, espera, ai, aperta, humm, ainda não, nossa, não pára, uau, tudo, ai ai ai, assim, mais rápido, u-uuu, tô quase...


Libidinosamente, a desmiolada peça anatômica Fefênix tirou do oco da cabeça coelhos arrulhando pombas, pombas chocando ovos de Páscoa, cobras quadradas e lagartos redondos, o monstro do Lago Ness pescado por um Dragão da Independência no Piscinão de Ramos, a vedete Rose Rondelli aos 18 anos sussurrando nudez sob uma burca negra semitransparente... e curvou-se, curvou-se várias vezes agradecendo ao respeitável público que guerreava em paz e amor a gargalhadas disparadas não só da boca como dos olhos, das narinas, das orelhas, dos mamilos, do umbigo, do coração, do intestino, da mente, da alma, do espírito, do karma, da aura, dos chakras, dos meridianos, das nadis, do prana, do kundaline, do ego, do superego, do id, da libido, das pulsões nomeadas e das pulsões inomináveis, dos apitos eróticos do seu Celestino de cada um um-mesmo e de cada casal, triângulo, pentágono, trenzinho de tchutchucas e tchutchucos cachorros e cachorras preparadas e preparados – nas mais variadas posições judaico-cristãos, nas do kama sutra, nas tântricas e em muitas outras bem mais sofisticadas, mágicos frutos do improviso.


Envolvido pela fumaça do inconsciente coletivo em chamas, o presunto defumado Fefênix desabotoou, num truque de prestidigitação sem o uso das mãos, a braguilha da alma, e botou para fora seu corpo em rigidez cadavérica transubstanciando-se num infinito picadeiro multicolorido sobrevoado por almas de palhaços: as do Carequinha, do Fred, do Zumbi e do Meio-Quilo; as do Arrelia, do Chincharrão, do Piolim, do Torresmo, do Picolino e do Massaroca; as do Serrano, do Pirulito, do Polidoro, do Eduardo Neves, do Alcebíades, do Caetano Namba, do Dudu Diamante Negro e do Benjamin de Oliveira – com sua peruca de cabelos lisos e o alvaiade no rosto que poupavam as platéias escravagistas da visão hedionda de um preto forro fazendo, nos picadeiros do segundo império, graça das boas como se branco fosse...


Sem mais corpo nem tempo nem espaço para curvar-se ante o respeitável público que transformara-se num mar gargalhante de orgasmos cujas ondas lambiam o rabo incandescente de sua essência em forma de cometa, o agora palhastro Fefênix agradeceu a abanar sorridente o referido traseiro luminoso. E enquanto as almas-estrelas dos seus companheiros iam estampando constelações pela cobertura celeste noturna do circo, o indelével espírito palhaço de Fefênix traçou, esvoaçando entre nuvens de gargalhadas formadas por evaporação do respeitável mar, mirabolantes cambalhotas imortais, antes de esborrachar-se estirado no céu circense e prolongar para sempre a imobilidade que dramatiza e realça o efeito cômico de sua performance como sol noturno – aquele lá, com La Rondelli, rósea risonha lua nua, na lapela.

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