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Comidinhas vivas que o não-nascido
garimpava na terra quando ainda bebê
Em mais um trecho selecionado da Autobiografia de um que nunca nasceu, temos Fiophélio Nonato a relatar uma de suas primeiras aventuras pelo quintal de casa. Com menos de um ano de idade, ainda engatinhando, já provara todos os insetos e outros invertebrados que encontrava na terra – e elegera entre os seus prediletos a lacraia e o escorpião, os quais saboreava sem riscos, através de sofisticadas técnicas desenvolvidas por ele mesmo.
Pequenas iguarias pelo chão
Meu padrinho Eros Ivo, que me criou como filho, não gostava que eu brincasse com bichinhos na terra do quintal lá de casa, não: bem sabia ele que eu gostava de comê-los, principalmente os besouros e os pequenos caracóis, irresistíveis na sua maciez crocante. Aprendi desde muito cedo, por volta dos 10 meses de idade, quando já sabia engatinhar com desenvoltura, que essas iguarias têm hábitos, tiques e manias como os seres humanos. As joaninhas, por exemplo, se você demorar a mastigá-las, escapam para o céu da boca e nele se aferram com tal empenho que fica impossível removê-las com a língua. Se você, no entanto, ali deixá-las quietas por alguns minutos, a ansiedade acaba por traí-las: cientes da gravidade da situação, começam a circular por toda a sua boca, pisando mais forte com o par de patas traseiro e emitindo estrilos – perceptíveis tão-somente pelo aguçado tato da mucosa humana –, como se a discutir a melhor estratégia para enfrentar o perigo iminente de morte. Já os caracóis, normalmente lerdos no caminhar, tornam-se lépidos dentro da sua boca, deslizando em alta velocidade pelas pirambeiras da língua, a tirar partido da mistura de saliva com a própria baba de molusco: e assim esquiam tranqüilos e sorridentes, alheios à visão dos dentes que irão triturá-los.
A par dessa minha preferência por coleópteros e pequenos moluscos com casca, nunca rejeitei outros serezinhos que a terra me oferecia, nem mesmo as lacraias e escorpiões. Sabendo agarrá-los, de modo a evitar e depois extrair o perigoso ferrão, são frutos muito prazerosos: o gosto acre e travoso logo é suplantado pelo agradável entorpecimento da língua que decorre do vazamento do veneno, inofensivo sem a ação da ferroada. No entanto, há que se conter a gula, posto que dois ou mais indivíduos dessas espécies peçonhentas, se embocados ao mesmo tempo, são capazes de planejar e executar em segundos uma vingança terrível: secretam uma enzima que transforma seu algoz em vítima de uma diarréia das mais dolorosas. Tal substância, a Ciência ainda não foi capaz de detectá-la, uma vez que é produzida apenas nesta exata ocasião: quando eles estão à beira da morte no cadafalso oral de um ser humano.
Este texto já foi publicado numa série entitulada Bestiário – aqui – no blog de Hélio Jesuíno, de quem surrupiei os bichinhos da ilustração acima.
Mais trechos do livro de Fiophélio Nonato aqui, aqui e aqui.


