Abriu o seu amplo e rico guarda-roupa e não encontrou nada dentro: nem mesmo um par de suspensórios frouxos, uma gravata borboleta sem asas, um pé de meia viúvo. Em vez de roupas, nele só havia uma escada, brotando para baixo, quatro degraus já desabrochados. Chamou o seu escravo jardineiro e mandou que regasse a escada. No dia seguinte, fez a mesma coisa, e aí os degraus já eram sete. Quando passavam de trinta foi que reparou: quanto mais a escada crescia, mais profundo e escuro era o fosso que do degrau mais novo se via. Teve medo, por suspeitar de que estivesse descendo para um fundo que fundo não era porque fundo não tinha. Para certificar-se, lançou seu escravo jardineiro naquele abismo de trevas, e ouviu o grito quase interminável do homem se apagar nos cafundós do fosso, mas não o baque do corpo no chão, não a comprovação de que fundo havia. E tratou de voltar logo para cima, subindo centenas, milhares de degraus, muito, muito mais do que havia descido. Chegou a desconfiar de que a volta também não teria fim. Mas tinha: ouviu perfeitamente o baque do seu próprio corpo nos degraus, ao ser atropelado e soterrado por uma avalanche de calças, camisas, paletós, agasalhos, cuecas, suspensórios novos e meias casadas, sobrevoados por um enxame de escravos de gravata borboleta.
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Homenagem do.desinformação seletiva.aos trabalhadores de todo dia.
Jaguarão fica no extremo sul do Brasil, quase no Uruguai. O nome da cidade deve-se à existência de um animal que habita os esconsos mais sombrios do inconsciente dos habitantes da região: uma onça, ou jaguar, enorme feito um boi.
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É dos dois – de Jaguarão e dos esconsos sombrios do inconsciente – que vem o texto a seguir. Seu autor, Antonio Carlos Marques, meu tocaio (como lá se tratam os xarás), tem sete livros publicados e muitos outros na gaveta. Falarei mais sobre o escritor em mais dois posts em seqüência a este, nos quais incluirei também outros textos seus.
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O relógio parou*
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1. . . . .O relógio parou: síncope do fim ou início do silêncio.
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2. . . . .O relógio parou: aviso da decadência ou início da música.
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3. . . . .O relógio parou: corda quebrada ou vida atormentada?
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4. . . . . Estacionado no meio da rua, com perigos envolventes, o relógio parou seu matraquear da contagem sob medida recomendada.
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5. . . . .O carro que passou por cima da figura imobilizada era a carruagem do tempo que corre por acima dos relógios que contam.
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6 . . . . . O vento da passagem tirou-lhe a pintura e a compostura.
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7. . . . .Os cascos da condução tiraram-lhe a vestimenta e encomendaram-lhe o caixão.
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8. . . . .O sino do alarme do despertador já não entoava o ruído do início da sofreguidão.
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9. . . . .As cordas espalhadas pelos cascos são os tristes velocímetros do repouso. Seus emaranhados são as vísceras das mortas entranhas atiradas ao pó dos caminhos.
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10. . . . .Esse relógio abatido é o fim do sentido. Sentido do aprumo e da viagem. Sentido da elegância e da voltagem: se não tocardes o hino das boas realizações, não despertareis nas cordas dos Preciosos Embalos das Horas Que não Acabam Nunca.
Rio de Janeiro – Um baleia bêbada está monopolizando a atenção dos cariocas desde as primeiras horas desta segunda-feira, quando apareceu dando saltos cambaleantes na Lagoa Rodrigo de Freitas e distribuindo pinga de graça pelo chafariz. Não se sabe ainda se ela veio do mar ou se desceu numa das muitas enxurradas decorrentes das chuvas, presa nos escombros de algum boteco de favela. O fato é que sua aparição causou polêmica e até uma briga envolvendo a maioria das milhares de pessoas que logo se acotovelavam à beira da lagoa para ver as evoluções do cetáceo cachaceiro.
"Não bastasse o monte de graves problemas causados pelas chuvas, agora ainda temos de aturar uma baleia bebum”, disse Amâncio Basta Cansado, morador da Lagoa e membro honorário do AA. “Ela é uma gracinha, precisamos nos unir e agir imediatamente para impedir que ambientalistas irresponsáveis queiram nos tirar sua guarda e removê-la daqui, a exemplo do que fizeram com a nossa saudosa capivara", afirmou a cronista Cora Ronai, prometendo iniciar uma campanha através de sua coluna para tentar convencer alguma empresa a adotar a baleia. “Quem sabe um fabricante de cachaça não se habilita, fornecendo seu produto para a alimentação da nossa amiguinha”, acrescentou.
Ed Motta, que passava se arrastando na sua caminhada matinal, disse que o cetáceo, embora muito branquelo, lembra muito o seu tio Tim Maia: “Talvez seja a alma dele, né? Ou, pensando bem, pode ser até a minha, sei lá, tomei um baita porre de gueitoreide ontem.” O palpite do cantor acabou suscitando um grave incidente político, com troca de palavrões, unhadas e cusparadas entre partidários do atual prefeito, petistas e tucanos. O entrevero começou quando os primeiros resolveram apelidar a baleia de “Paes & Amor, a Baleia Assassina”. A turma do PT protestou, e um deles gritou: “Porra nenhuma. Olhem bem para ela, vejam se não é a ‘Dilma 2010’.” Aí um tucano logo escancarou o bicão: “Sem essa, meu. A parte mais abundante é a careca do Serra escrita e escarrada.” E o pau quebrou.
. Hoje, 10 de abril de 2010, faz 12 anos que o escritor Walter Campos de Carvalho nasceu pela segunda vez. Por sua importância ímpar na literatura brasileira e, sobretudo, porque parece que ele está se saindo muito bem nessa aventura que poucos conseguem desempenhar a contento – a de viver uma segunda vida, e direto, sem o intervalo regulamentar para descanso no vestiário – é que estamos aqui, prontos para entrevistá-lo.
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. . . . . . . . . . – Diga lá, Walter. Tudo em riba com este já adolescente coração ateu?
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. . . . . . . . . . . . . . . ..“Meu coração écomo o frio espectro de Is,
. . . . . . . . . . – Este é o poema que dá título ao livro inédito Os sinos de Is, que você escreveu aos 18 anos...
. . . . . . . . . . “Aos 18? Então, no máximo, ainda o escreverei, pois hoje, como há décadas ou séculos, tenho 3 anos... Quanto ao livro, não é inédito, apenas não o publiquei. Mas permiti que meu amigo Heleno o xerocasse e...”
. . . . . . . . . – Ele distribuiu cópias para os seus fãs do Brasil inteiro...
. . . . . . . . . . “Do Brasil, não sei, mas da Bulgária, certamente.”
. . . . . . . . . – Então a Bulgária existe?
. . . . . . . . . . “Não, creio que não. Mas os búlgaros... ah, esses estão portoda parte!”
. . . . . . . . . – À procura da Bulgária...
. . . . . . . . . . “Nunca! Eles são os únicos que têm certeza de que ela não existe. Porque até eu, quando o céu fica nublado ou o telefone toca e é engano, tenho lá minhas dúvidas.”
. . . . . . . . . – Você nasceu em Uberaba, morou em São Paulo, Rio, Petrópolis, de novo em São Paulo e hoje...
. . . . . . . . . . “Moro na Bulgária.”
. . . . . . . . . . – Por acaso, está querendo dizer que você também não existe?
. . . . . . . . . . “Eu nunca existi.”
. . . . . . . . . . – Você já disse e escreveu isso várias vezes. Mas eu sempre pensei que fosse brincadeira.
. . . . . . . . . . “E é. Brincar é essencial: a brincadeira é o único antídoto contra a existência – como a entendem os que pensam que existem. Por sorte, nasci clown e morrerei clown, embora a vida toda tenha sido um mero funcionário público.(exaltado:) (Todos os funcionários públicos são meros, quando deveriam ser melros!)Sou eternamente grato a um crítico que certa vez me chamou de clown (cochicha, desconsolado:) (nem a minha própria mãe me chamou assim) – como sou grato aos que me chamaram de palhaço com segundas intenções ou mesmo com terceiras. Antes de morrer ainda hei de armar o meu pavilhão auricular, isto é, dourado, em todas as praças do mundo e dele partir como um bólido rumo a todas as constelações, pregando a hilaridade e a língua de fora à boa maneira de Einstein e dos enforcados: ASSIM!”
. . . . . . . . . . – Nossa, sua língua quase tocou o gogó. Você é bem melhor nisso que o Einstein.
. . . . . . . . . . “Que isso, não diga uma coisa dessas! Se tivesse a língua dele eu lamberia os meus pés.”
. . . . . . . . . . – Falando nisso, você fala várias línguas, né?
. . . . . . . . . . “Todas.”
. . . . . . . . . . – Todas?
. . . . . . . . . .“As vivas, que fique bemclaro. Porque não se deve falar as línguas mortas. Latim, grego antigo, copta... todas dão mau-hálito. Pelo menos é o que parece: quando você começa a falar uma delas com as pessoas na rua ou mesmo dentro da srua própria casa, todos lhe viram a cara."
. . . . . . . . . . – Vai ver, pensam que você é louco.
. . . . . . . . . . “Há quem me tome por louco e eu mesmo já me tomei. Mas basta uma visita ao hospício para me convencer – desgraçadamente – do contrário. É como se fosse um lobo vestido com a pele de um cordeiro: expulsam-me só pelo faro. O título do livro que estou escrevendo no momento é exatamente Maquinação da Máquina, Especulação de Espelho. Assim como a 4ª Sinfonia de Charles Ivens exige a presença de três maestros para ser bem interpretada, assim também penso que esse meu novo livro, para ser bem compreendido, deva ser lido simultaneamente por três leitores.”
. . . . . . . . . . – Muito interessante. Mas como evitar o problema daquele que lê mais rápido, que chega ao fim da página e tem de ficar esperando os outros dois para poder virá-la?”
. . . . . . . . . . “Organização, estratégia. Um leitor começa pelo início do livro, outro pelo fim e o terceiro pelo meio.”
. . . . . . . . . . – Genial. Mas, e o do meio, deve ler em direção ao início ou em direção ao final?
. . . . . . . . . . “Isso fica a critério dele. Se for um bom leitor, certamente tomará as duas direções ao mesmo tempo."
. . . . . . . . . . – O olho direito vai para o fim, o esquerdo para o início...
. . . . . . . . . . “Exato. Ou o contrário, se ele for estrábico.”
. . . . . . . . . . – Tem certeza que não é melhorcada um ler o livro sozinho?
. . . . . . . . . . “Um homem só, ou vira anarquista ou vira louco. E mais: esqueça a primeira pessoa do singular, se preciso faça a barba fora de casa, compre um túmulo e mande gravar nele o seu nome, e o sobrenome, com retrato de criança e de adulto para evitar dúvidas, e coloque-o no ponto mais visível do cemitério – se possível em todos os cemitérios da redondeza, um em cada um, dois em cada um se o permitir a lei e mesmo que não o permita. Pode parecer um esbanjamento, mas são tantos os eus atrás de um simples eu que a medida se impõe, e mais se imporia se o governo não fosse tão obtuso, e os vizinhos, e a igreja, e todos os que se contentam com um nome para definir o indefinível e o caos.”
. . . . . . . . . . – Você não acredita em Deus, né?
. . . . . . . . . . “Não, mas se você acredita, pergunte a ele se acredita em mim. Enquanto isso, aproveito para ir ao banheiro.”
. . . . . . . . . . – Mas você conheceu o Diabo...
. . . . . . . . . . “Nunca. Não fomos apresentados, sequer trocamos um aceno. Mas isto me lembra aquela noite, verídica, em que eu fui se não o protagonista pelo menos o agonista – e, para ser sincero, a única testemunha. Embora se tenha passado comigo, acredito nela piamente. Faz sete anos, poderia fazer sete séculos ou sete minutos: eu deitado, no pré-albor de um domingo igual a tantos, o umbigo voltado para o teto, aquele corpo morto ao lado, o mesmo de sempre. Acordo e vejo-O nitidamente à minha frente, junto à parede, de pé, fitando-me, fitando-me: reconheci-O como se reconhece alguém diante de um espelho, sem um segundo de hesitação: nenhum medo, nenhuma surpresa. Era, e é, todo negro, um verdadeiro príncipe etíope, só os olhos em brasa para identificá-Lo, sem pálpebras, e sem sequer supercílios: e FITANDO-ME, agora com um quase sorriso. Durou talvez um minuto a visão, nem isso: mas ainda hoje me ofusca, me enlouquece, tira-me da minha órbita ou de qualquer órbita, como só Lázaro talvez depois que lhe arrombaram o sepulcro: dia após dia a mesma Noite sempre.
. . . . . . . . . . “Preciso ir ao banheiro.”
. . . . . . . . . . – A convivência, a vida em sociedade o repugna, certo?
. . . . . . . . . . “Errado. A tribo de que não faço parte tem lá suas coisas interessantes, que bem merece que eu as retrate. Eu compus há tempo um hino desportivo, tão do gosto dos que ela tanto aprecia, e que eu gosto de ouvi-la cantar sob o sol da tarde, na praça regurgitante, em dia de festa. Começa assim:
. . . . . . . . . . – Tem no hino alguma palavra em português de Portugal?
. . . . . . . . . . “Se o sr. não me deixar ir urinar, não respondo – nem respondo pelas conseqüências.”
. . . . . . . . . . – O banheiro é ali, naquela porta à direita..
. . . . . . . . . . Enquanto o Campos não volta do meu quarto – entrou na porta à esquerda e não na à direita – vou reproduzir outro poema inédito, O Argonauta, de 1949, no qual ele expande os caminhos abertos na poesia da adolescência, em direção ao surrealismo mais radical que viria com seus romances. Aqui, condiciona o Ser ao Escrever e insere a vida, metalingüisticamente, no espaço infinito da palavra. (Como o original foi apenas manuscrito e dele só tenho uma cópia precária, “funambulei” um bocado para decifrar o meio apagado adjetivo funambulesco.)
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. . . . . . . . . . “Não devia estar apagado, logo ele, funambulesco, que é tão menos usado do que deveria.”
. . . . . . . . . . – Ah, voltou!
. . . . . . . . . . “Queira me perdoar, não era minha intenção. Mas não pude partir. Não encontrei nada em seu banheiro que se assemelhe a uma nau de cruzeiro ou mesmo a um vaso de guerra ou um vaso sanitário."
. . . . . . . . . . – Poxa, eu é que lhe peço perdão por esse empecilho. Não sabia que pretendia partir.
. . . . . . . . . . “Empecilhos só existem para quem quer chegar, jamais para quem quer partir.”
– trechos de duas das raras entrevistas concedidas por Campos de Carvalho (à revista O Cruzeiro, em 1969, e a Heleno Álvares, em 96, que a publicou no Correio de Araxá);
– informações e o fac-simile de O Argonauta, extraídos de Campos de Carvalho: Inéditos, Dispersos e Renegados, dissertação inicial de Geraldo Noel Arantes para o Mestrado no IEL/UNICAMP, 2005;
– trechos e sugestões dos romances Tribo, A lua vem da Ásia, Vaca de nariz sutil, A chuva imóvel e O púcaro búlgaro;
– o poema-título de Os sinos de Is;
– trecho de crônica publicada no Pasquim;
– alguma criação enxerida, minha, tentando tangenciar as concepções estéticas e filosóficas do escritor.
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Agradecimentos especiais ao autor (que não pude identificar) da inspirada foto que abre esta postagem, e ao poeta e jornalista Heleno Álvares, que enviou-me pelo correio cópias do inédito Os Sinos de Is e do raríssimo romance Tribo, esgotado há mais de 50 anos.(Ainda não chegaram, Heleno! Queira Walter que o carteiro não se tenha afogado nas enchentes deste meu Rio de Abril...)