sábado, 29 de maio de 2010

Quinze contos de réis

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1. O quadro

De início, não gostava do quadro: estava meio cheinha quando a retrataram. Hoje, está bem mais cheia. No quadro, porém, cada vez mais vazia.

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2. Privacidade

O respeito à privacidade é a base do casamento deles. Mesmo em casa, quando um deseja ver o outro, sempre combinam antes pelo celular.

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3. O pé frio

Perdeu os pais na infância, o único irmão na adolescência, a esposa durante a gravidez. A criança sobreviveu – sabe-se lá por quanto tempo.

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4. Forra

Chorou quando viu o cão mastigando a sua chupeta. Mas logo se acalmou e foi, engatinhando, à forra: roeu bem roído o osso do desafeto.

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5. Desconto

– Eu nunca o traí, amor. Quantos vezes já lhe jurei isso?

– Trinta e sete. Sem contar aquela do imbecil que enfartou na entrada do motel.

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6. Solução

A compulsão de comprar era tal que a sua cozinha já virara depósito. Incomodada, decidiu: “Vou comprar um fogãozinho para o banheiro.”

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7. A mulher mais linda

Nua, a seu dispor, na cama forrada de seda, a mulher mais linda do mundo. Até que abrisse os olhos e desse com o teto bolorento da cela.

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8. Sapoti

No balanço que pendia da sapota, empurrava a irmã tão alto que acabou engastando-a entre galhos. Correu para casa. “Mãe, a Lu virou sapoti!”

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9. Posição

Não era alto, dava para pular dali sem risco. Mas de um lado via uma multidão dizendo é isso; do outro, outra multidão dizendo não é.

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10. Pombo de louça

Atacava com a atiradeira os pombos que infestavam o quintal da vizinha. Aí surgiu a mulher, furiosa, brandindo cacos do pingüim.

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11. O rei não está nu

Saiu no carnaval vestido de rei, mas ladrões o puseram nu. Como ninguém disse nada, continuou a reinar na folia, fantasiado de nudista.

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12. Perfeição

Enfim, a perfeição como escritor: transmutara-se em livro. E acabou num sebo, onde esperaria o primeiro leitor até ser comido pelas traças.

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13. A ladeira

Saudava os passantes enquanto ia subindo a ladeira. Tão alegre e saltitante que todos viram, com clareza, que ele a estava descendo.

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14. O segredo

“Onde, diabos, eu guardei – se perguntava – o papel em que anotei o segredo do cofre?”

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15. Pesadelo

Seu pesadelo – toda a humanidade a cair num abismo – virou sonho: pára-quedas se abriram. Acordou ainda no ar, vendo os jacarés lá embaixo.

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Ilustrações: Vanessa Iacono (clique aqui para conhecer o seu blog)

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Leia mais 14 contos de réis aqui, 13 aqui, 12 aqui e 11 aqui.

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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Desvendado o mistério da Atlântida!

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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . Prof. Edson Rocha Braga




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O Segredo da Atlântida

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. . . . Ao iniciarem o estudo da linguagem dos golfinhos, os cientistas tinham em vista o objetivo maior de ensiná-los a colocar bombas em belonaves inimigas. Não contavam, porém, com o caráter rebelde desses animais, contrários à luta em prol das causas nacionais e mais chegados à alienação, ao nado livre e à permissividade sexual.

. . . . Dessa forma, o Projeto Golfinho fracassou em sua meta original. Mas, permitiu ao Homem desvendar finalmente o mistério da Atlântida.

. . . . Segundo o relato dos golfinhos, o Continente Perdido, antes de sê-lo, era berço de uma civilização em estágio avançadíssimo, onde já havia inclusive camisinha, vans, telefone celular, McDonald’s, economistas e todas essas coisas maravilhosas através das quais se pode aquilatar o progresso de um povo.

. . . . Pois tudo isso foi posto a perder por um único homem, o cientista M. Kroskiros, físico e especialista em robótica. Expulso da universidade onde trabalhava por flagrante de voyeurismo, Kroskiros passou a ganhar a vida na feira hippie, onde vendia suas miniaturas. Ele pintava cenas de déjeuner-sur-l’herbe em cabeças de alfinetes, unhas de sagüi e olhos de caranguejo, com rara mestria.

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Miniaturobotização

. . . . Seus trabalhos tiveram ótima saída, avolumando-se de tal forma as encomendas que o autor resolveu industrializá-los, aproveitando seus conhecimentos de físico. Construiu então um robô programado para construir sozinho outro robô, mas de metade do próprio tamanho. O novo robô construiria um outro menor, e assim por diante.

. . . . Kroskiros esperava desse modo obter miríades de robôs miúdos que se encarregariam de reproduzir com facilidade as suas minúsculas obras de arte.

. . . . Ocorreu, porém, um imprevisto. Ao invés de darem uma meia-trava em seu trabalho para pintar cenas de déjeuner, os robôs se mostraram donos de singular falta de imaginação: não faziam outra coisa senão produzir robozinhos cada vez menores. Quando procurou detê-los, Kroskiros não conseguiu mais achá-los, mesmo com a ajuda de um gigantesco microscópio.

. . . . Deu-se então a tragédia. No afã de construir sua meia cópia, um robozinho deu uma cacetada de mau jeito no núcleo de um átomo e desencadeou tremenda explosão, que fez voar caco de robozinhos, cientista, McDonald’s, celulares e todas essas coisas maravilhosas até a puta-que-pariu.

. . . . Um detalhe particularmente interessante no relato dos golfinhos: a Atlântida na verdade se chamava Pacífida, e não ficava situada nem no Atlântico nem no Pacífico - como tudo levava a supor - e sim no Oceano Índico.

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sábado, 22 de maio de 2010

Um mundo de sonho para as vacas




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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Elza Magna sexóloga






Querida Elza, minha vida virou um inferno, desde que o meu marido deu de só me chamar de vaca.“Pega uma cerveja na geladeira, sua vaca!” É assim, o tempo todo. Se ainda falasse minha, minha vaca, até dava para suportar, não é? O que devo de fazer? Cândida Bezerra

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Você tem duas saídas, Cândida. Uma é a porteira: abra-a, saia e largue esse boi cansado sozinho no curral. A outra é agüentar firme, sem mugir em vão, de vez em quando pulando a cerca para pastar e ser pastada por algum garrote carinhoso e bem disposto. Pelo sim, pelo não, dá uma folheada no blog que acaba de ser lançado na rede por um espanhol. Abaixo, o cabeçalho e, traduzido, o texto de apresentação da página:



Um mundo de sonho

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Adolfo Domínguez, Roberto Cavalli e outros estilistas a cada estação incluem entre seus lançamentos uma linha de roupas para animais de estimação. Agora, VIP (AREA) for cowns apresenta um mundo fascinante para as vacas. Pastos de primeira, moda seleta, tratamentos especiais, tudo que elas merecem. Vacas também são filhos de Deus.

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Link do blog: http://vipareaforcows.blogspot.com


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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Entralhar as malhadeiras

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Dez bobajadas

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Antonio Rebouças Falcão . . . . . . .

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1. "Entralhar as malhadeiras": significa costurar redes de pesca na Amazônia, mas também dilacerar-se em raiva aqui dentro de mim, sem razão aparente.
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2. Minha cabeça me obedece ou obedeço à minha cabeça? Com essa elucubração, mergulhei para dentro da noite, sem nenhum pingo de sono.
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3. O sonho contado é como queijo que já vem ralado, cuja autenticidade não pode deixar de ser suspeita.

4. A missa certamente é a imaterialidade que se faz rito e verbo, para mais tarde desfazer-se e, novamente, apresentar-se névoa. Na infância, a gente era obrigado a não entender.
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5. Os cachorros têm, sem sombra de dúvida, muitas virtudes; mas um único e letal defeito: latem. Duas vezes com serventia; nas outras, intragável groselha.
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6. Fumar gostosa e distraidamente um cigarro, tendo por retaguarda uma criança tagarela e pau-mandado a dizer "fumar faz mal à saúde" firma-me a convicção de que o repressor nasce reprimido; ou por outra: o torturador nasce torturado.
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7. Quando ouço um "educador", a dois passos de mim, dizer coisas como "há males que vêm pra bem" ou "o pior cego é o que não quer ver", sinto-me honestamente, no mais fundo de mim, um homicida sem culpa e sem pecado.
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8. Uma fervorosa burocrata da educação é uma senhora de 150 anos e quilos, semianalfabeta e claudicante, que senta à mesa e vocifera: "Quero examinar, em papel, a escrituração errada!". Há um outro tipo: chegou da França e ainda não desfez as malas. Vocifera o que soube de orelhada, mas na tela.
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9. Com roupas de ginástica, celular, ipod e sorriso de freira, senta-se cansada e feliz, cheia de autoestima e qualidade de vida. Por que essa gente não morre ou desaparece logo? Seria profilático.
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10. Li em algum lugar algo parecido:
- O que você faz para conservar-se tão jovem e com essa pele de porcelana?
- Bebo gim pouco a pouco e sempre. É o que funciona.

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Texto e ilustração foram extraídos do blog do autor:

Dilema paulistano

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